A confirmação, ontem, pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), por meio de uma postagem em rede social, de que o governo federal irá liberar R$ 1,2 bilhão para a construção da linha 2 do metrô da capital, ligando o Calafate ao Barreiro, na região Oeste da cidade, deve recompensar uma luta travada por décadas por autoridades mineiras e belo-horizontinas. A previsão, inclusive, é de que um convênio com o governo estadual para as obras seja firmado ainda neste mês.
“A indenização relativa à devolução de trechos antieconômicos da Ferrovia Centro Atlântica (FCA) será empregada no segmento Calafate/Barreiro, antigo sonho dos mineiros”, tuitou Bolsonaro. 

O dinheiro, de fato, já vinha sendo previsto: o primeiro anúncio foi em outubro de 2019, quando o secretário de Infraestrutura e Mobilidade do Estado, Marco Aurélio Barcelos, falou sobre o metrô. Em agosto deste ano, o próprio ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, em visita a Minas, corroborou a informação.

Os recursos para a expansão do metrô são referentes a uma multa que a mineradora Vale, dona da FCA, foi condenada a pagar ainda em 2013, por abandono de ramais ferroviários obtidos em concessão pública. O montante foi quitado em 60 parcelas e incorporado ao Programa de Parcerias e Investimentos gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). 

Segundo o senador Carlos Viana (PSD-MG), que tem o Barreiro como um dos principais redutos eleitorais e assumiu papel de articulador da verba, é possível que ainda neste ano o dinheiro comece a ser liberado. Isso dependeria de “resolver uma questão jurídica”, relativa à homologação pela Justiça Federal de um acordo que já contaria, afirmou Viana, com a anuência do MPF, da AGU e do Ministério da Infraestrutura. “Se nós conseguirmos resolver toda a questão jurídica do acordo na Justiça Federal, da nova minuta ou do aditivo, segundo expressão que estão usando, acredito que o presidente viria a Minas neste mês de setembro e faria o convênio (com o governo estadual), permitindo que as parcelas começassem a ser liberadas imediatamente”, explicou o senador ao Hoje em Dia, ontem à tarde. 
“Caso haja algum atraso, porque estamos em quarentena, penso que começaria já no ano que vem. Afinal, o projeto da linha 2 esta pronto, precisa apenas de adequações com relação a vias e viadutos. Poderíamos começar a ver, inclusive, a movimentação das obras”, completou.

 

Anúncio é recebido com otimismo, mas também desconfiança 

O governador de Minas, Romeu Zema (Novo), também publicou, em seu perfil nas redes sociais, mensagem de otimismo após a notícia da liberação da verba para o metrô de BH, cuja gestão, hoje feita pela CBTU, deve ser transferida do governo federal ao estadual. 

“Mais um avanço e a conquista de um sonho antigo dos mineiros. Vamos viabilizar a linha 2 do metrô (Calafate-Barreiro) em BH. Agradeço ao governo federal por ter priorizado essa obra”, disse, destacando nominalmente Bolsonaro e o ministro Freitas.

Há muitas pessoas, contudo, que não comemoraram o anúncio, seja por discordar dele ou simplesmente por considerar-se calejada em relação ao assunto.
Diretor da organização não-governamental Trem, dedicada à luta pela reativação de ferrovias abandonados pela FCA em Minas, André Tenuta diz estar certo de que haverá questionamentos judiciais sobre a destinação da verba.

“Essa indenização tem de ser direcionada aos municípios que sofreram prejuízos pelo abandono dos ramais em seus territórios, não só de Minas, onde há 100 cidades nessa condição, mas de outros estados. E deve ser aplicada na recuperação e reutilização das ferrovias”, diz. “O que pessoas oportunistas estão fazendo é pular sobre um dinheiro mais fácil para atender a objetivos meramente políticos”, acrescenta.

Ainda conforme Tenuta, embora o pleito do metrô de BH seja justo, ele deveria ser atendido por meio de outras fontes financeiras. “O governo chinês ofereceu ao país e a Minas bilhões de dólares para obras de infraestrutura, mas ninguém nem se mexeu. Além disso, há dinheiro do próprio BNDES para essa finalidade”, ressalta.

Já na opinião do engenheiro e especialista em trânsito e transportes Silvestre de Andrade Puty Filho, que acompanha a “novela do metrô” da capital há décadas, ainda é cedo para qualquer celebração. “A história do nosso metrô é repleta de frustrações. Precisamos aguardar porque podemos estar diante de mais uma”, afirma ele.