Meu pai contava uma história sobre uma tia que viajou do interior para Belo Horizonte, no fim dos anos 1950. Conta o velho que a pobre senhora ficou desesperada com os carros que circulavam a Praça 7, no Centro da capital mineira. Atônita com aquelas coisas de ferro barulhentas, a saudosa tia ficou dando voltas em torno do “Pirulito” sem saber para aonde ir.

 

Hoje, os elétricos são realidade em mercados desenvolvidos, mas ainda são seres exóticos por aqui. Fabricantes de luxo oferecem modelos caríssimos, que surgem como pioneiros desse novo conceito de mobilidade.

Mas há opções menos exorbitantes, mas nem por isso baratas, caso do Chevrolet Bolt EV. Com jeitinho de monovolume, o carrinho apresentado no Salão do Automóvel em 2018 hoje é vendido por R$ 267 mil. Um valor caro quando se pensa num compacto. 

Mas o Chevrolet tem peculiaridades. Ao invés de ser um carro de alto luxo e com comportamento de superesportivo, o Bolt EV é mais comedido. É um compacto, projetado para ser um carro citadino. 

Foi feito para ser aquela opção cotidiana. Ida e volta para o trabalho, supermercado, levar e buscar os filhos na escola. Claro que é possível viajar com ele, mas seu lugar é a cidade. 

Isso porque na estrada, para manter a velocidade constante, é preciso pisar o tempo todo, o que eleva o consumo de eletricidade. É uma lógica inversa do motor a combustão, que geralmente trafega com marcha longa e baixo giro. Na cidade, por sua vez, naquele pára e anda, o sistema de regeneração compensa o gasto de eletricidade. 

A autonomia do Bolt EV é de cerca de 400 quilômetros. Mas dependendo da forma de uso ela pode cair drasticamente. Na estrada, como já foi explicado, o consumo tende a ser maior. Afinal, freia-se menos e quase não se dirige com o pedal solto. 

Daí é preciso calcular bem o destino para ter carga para ir e voltar. Ficar sem energia no meio da estrada pode ser uma dor de cabeça gigante.

Como todo elétrico, o Bolt EV pode ser carregado em eletropostos de recarga ultrarrápida. Nele é preciso apenas 30 minutos para regenerar 160 km. Em cerca de duas horas se completa o ciclo das baterias. Acontece que não há uma fartura de pontos de recarga por aí.

Outra opção é o popular Wallbox, tipo de “transformador” para carros elétricos, equipamento fundamental para ter em casa. Com ele, é possível regenerar 40 km em uma hora. O problema é que ele fica na parede e, como o nome sugere, não dá para carregar no porta-malas como se fosse um galão.

A terceira opção é ligar numa tomada doméstica 220 volts. No entanto, é preciso que ela esteja aterrada. Nessa modalidade é possível recuperar 10 km em 60 minutos. Ou seja, o ciclo completo leva quase dois dias. 

O grande senão do Bolt EV está justamente na falta de infraestrutura para carros elétricos no país, o que reduz sua aplicação basicamente para cidade.

Raio-x Chevrolet Bolt EV

O que é?
Monovolume compacto, quatro portas e cinco lugares.

Onde é feito?
Fabricado na unidade de Orion, em Detroit (EUA).

Quanto custa?
R$ 266.900

Com quem concorre?
Seus rivais diretos são BMW i3, Renault Zoe e Nissan Leaf. 

No dia a dia
Guiar o Bolt EV é um grande barato. Quando se liga, há uma certa estranheza, pois não há barulho, tranco ou nada. Aperta-se o botão de partida, com pé no freio e… nada. Mas o carro já está funcionando, basta engatar a marcha e iniciar a viagem.

É agradável, assim como o acabamento. Não tem um refinamento de um Porsche Taycan ou Audi e-tron, mas a qualidade é boa, mesmo que o plástico predomine.

E, mesmo sendo compacto, oferece ótimo espaço interno. A razão está no bom aproveitamento de espaço. Com propulsor compacto que dispensa um monte de agregados, o cofre do motor é diminuto. Além disso, os balanços são curtos. Ou seja, as rodas estão próximas das extremidades da carroceria, o que amplia demais o espaço da cabine.

Assim, é possível acomodar cinco ocupantes com bom conforto. Quem viaja no meio não sofre com o túnel central. Afinal, esse carro não conta com escapamento e nem eixo cardâ. O assoalho é plano e abaixo dele estão as baterias. O compartimento de bagagem também é generoso, com 478 litros, como num sedã. 

Seu pacote de conteúdos é generoso com multimídia de 10,2 polegadas (com conexão com smartphone, câmera 360 graus, além de diagnóstico de funcionamento do veículo), sistema de áudio Bose, vidros e retrovisores elétricos, alertas de ponto cego, tráfego cruzado em ré e colisão, ar-condicionado digital e partida sem chave.

Motor e transmissão
O Bolt EV é equipado com uma unidade elétrica de 202 cv e 36,6 mkgf de torque. Esse motor entrega toda sua força de forma instantânea. Ou seja, basta pisar para ele acelerar com força. No entanto, ele não é um carro esporte. Tem força para garantir uma ultrapassagem segura e rápida, mas excessos comprometem sua autonomia.

Já a transmissão conta apenas com uma única marcha, como todo elétrico. Pois como não há rotação do virabrequim no motor, não é preciso uma caixa com diferentes relações para nivelar o giro do motor com as rodas.
 
Autonomia?
O Bolt EV tem autonomia de 400 quilômetros. Mas ela pode variar, pois na estrada, quando se mantem o acelerador pressionado de forma constante, a carga é consumida mais rapidamente. Na cidade, ele consegue ir além dos 400 km, pois sempre que se freia, o motor atua como um dínamo, gerando fricção que regenera a carga. 

Além disso, há uma tecla no volante que amplifica esse modo de recarga. O Bolt EV ainda conta com modo One Pedal, que sempre que se tira o pé do acelerador ele aplica uma frenagem justamente usando esse freio motor, ao invés das pastilhas.

Suspensão e freios
O Bolt tem suspensão independente nas quatro rodas e acerto bastante firme. O baixo centro de gravidade, devido à montagem das baterias no assoalho, garantem excelente estabilidade nas curvas. Os freios do carrinho são a disco, mas contam com o auxílio do motor, que sempre gera resistência para aproveitar o movimento das rodas para gerar carga.

Palavra Final
O Bolt EV é um carro sensacional. A experiência de guiar um elétrico é bastante interessante. O problema está no preço e na falta de infraestrutura. Quem pode empenhar tanta grana na compra desse carro, deve instalar um carregador Wallbox na garagem. Pois apesar de não ser tão rápido como um eletroposto, garante energia suficiente depois de uma noite de sono. 

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