Desde janeiro, a Ford vive um drástico processo de mudança. Ela deixou de ser fabricante para assumir o papel de importadora. Um caminho inverso da maioria das marcas que se aventuram por aqui, ainda mais quando se trata de uma marca presente há um século. E para essa mudança de estratégia, ela está consertando o avião em pleno voo. E uma dessas manobras é a Ranger Black.

 

A picape portenha se tornou o principal produto da Ford, desde que o EcoSport, Ka e Ka Sedan deixaram de ser produzidos. Em 2021, a picape passou a corresponder a dois terços dos emplacamentos da marca do Oval Azul, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Dos pouco mais de 15 mil licenciamentos, a Ranger abocanha quase 10 mil.

Mas a Ranger não é um carro “barato” como um hatch compacto, assim como não é uma daquelas opções de compra emocionais. Hoje as picapes disputam mercado com os SUVs, que oferecem luxo, comodidade e capacitação fora de estrada. Ou seja, a picape deixou de ser aquela opção que nos anos 1989 representava status.

Ranger Black

No entanto, a Ford precisou dar um jeito de atrair mais consumidores com sua picape e lançou a Ranger Black. Trata-se de uma visão que busca esse apelo emocional. Uma picape com proposta urbana e não para off-road, como a Ranger Storm, e nem tão proibitiva como a versão Limited.

Com preço sugerido de R$ 193.690, a Ranger Black se posiciona entre as versões de entrada e as mais sofisticadas. Para conseguir chegar a esse valor e oferecer um pacote razoável de conteúdos, a Ford removeu a tração 4x4 e o motor Duratorq 3.2 de 200 cv. 

Para ela foi selecionado conjunto de entrada da picape, que combina unidade turbodiesel 2.2 de 160 cv, transmissão de seis marchas e tração 4x2. Configuração que não faz dela o melhor carro para se aventurar na lama. 

E nem deveria, pois seu visual monocromático, sem nenhum cromado, não combina com a sujeira. Qualquer poeira se destaca e mancha o visual noturno do utilitário.

Essa picape tem apelo visual forte, com o santo-antônio emoldurado da versão topo de linha, rodas aro 18 pintadas em preto e demais elementos da mesma tonalidade que fazem dela um carro chamativo, para quem quer se impor na cidade, mais na porta do restaurante do que no armazém da fazenda.

Raio-x Ford Ranger Black 2.2 4x2

O QUE É?
Picape média, quatro portas e cinco lugares.<EM>

ONDE É FEITO?
Fabricado na unidade Coronel Pacheco (Argentina).

QUANTO CUSTA?
R$ 193.690

COM QUEM CONCORRE?
A Ranger disputa mercado no segmento de médias. Ela tem como rivais Chevrolet S10, Nissan Frontier, Mitsubishi L200, Toyota Hilux e Volkswagen Amarok.<EM>

NO DIA A DIA
A Ranger Black foi pensada para ser um carro urbano. Por mais contraditório que pareça, há um público que utiliza picape na cidade, haja vista que boa parte dos clientes da Fiat Toro não fazem uso da italiana no off-road. E se não roda na trilha, não há razão de pagar pela tração 4x4. Dessa forma, a Ford adotou um visual todo em preto, que deixa a picape bem mafiosa para roletar na avenida.

No uso cotidiano, a Ranger Black é menos incômoda que a Storm, devido ao uso de pneus de uso misto Bridgestone Dueler ao invés dos borrachudos e caros Pirelli Scorpion. O pacote de conteúdos oferece boa comodidade, mas como se trata de um carro de mais de 5 metros, faltam sensores dianteiros para evitar macular o para-choque preto.

O pacote de conteúdos inclui bancos em couro, direção assistida, ar-condicionado digital, multimídia com conexão para smartphones, câmera de ré, duas portas USB e um nostálgico CD Player. Conta com retrovisores e vidros elétricos. No entanto, abre mão de recursos como partida sem chave, acendimento automático de faróis, sensores de chuva e demais recursos que fazem parte de versões mais sofisticadas. 

Por outro lado, a versão pode ser equipada com capota marítima elétrica, que foi inclusa na série de lançamento. Equipamento que funciona como uma porta de loja. Rígida e com tranca, é um recurso que transforma a caçamba num porta-malas (como na Toro Ultra), mas com praticidade de se recolher e permitir volumes que vão além da borda da bagageiro. No entanto, trata-se de um acessório caro (R$ 7 mil).

MOTOR E TRANSMISSÃO
A unidade 2.2 de 160 cv e 39,3 kgfm não tem o mesmo vigor do Duratorq 3.2, mas não deixa a desejar. A unidade oferece muito torque, mas está longe de entregar uma aceleração vigorosa. Mas vale lembrar que uma picape não é um carro esporte. O bloco é conectado com uma transmissão automática de seis marchas, que oferece bom comportamento e trocas macias e rápidas. 

O conjunto garante excelente desenvoltura na cidade e na rodovia. Na terra, ela também não decepciona. Mas é bom saber onde vai e as condições do terreno, pois a ausência da tração 4x4, combinada com os pneus largos, pode transformar o passeio num tormento se ela travar num atoleiro.

COMO BEBE?
Consumo médio (percurso urbano e rodoviário): 8,4 km/l. 

SUSPENSÃO E FREIOS
A suspensão segue o padrão de qualquer utilitário com caçamba para carga, muito dura na traseira, que reflete no conforto de quem viaja principalmente atrás. Já os freios carecem atenção, como em qualquer picape. Mesmo com suporte do ABS, o peso do veículo dificulta a frenagem, que demanda muito espaço para chegar à imobilidade. A versão conta com ESP e assistente de partida em rampa.

PALAVRA FINAL
A Ranger Black chega para atender ao interesse do consumidor que gosta de picapes, mas não é aventureiro. Oferece toda robustez de um veículo de carga e um pacote de conteúdos trivial. Por outro lado, surge como uma opção justa para quem não tem pretensão de usar esse carro em terrenos acidentados e não quer pagar a mais por um sistema 4x4.