Quem leu sobre nossa primeira volta no novo Peugeot 208 sabe que o encontro foi um banho de água fria. Guiamos a versão Active Pack 1.6 AT6, que não surpreendeu. Não que o carro fosse ruim, mas era bem aquém daquele magnífico hatch que foi eleito Carro do Ano na Europa. Entre o Active Pack e as sedutoras imagens do e-GT europeu há um Atlântico de distância. E não foi possível esconder o descontentamento.

Mas tivemos a chance de atenuar aquela primeira má-impressão testando a versão Griffe, que realmente entrega a sensualidade das fotos do 208 tiradas no Velho Mundo. Realmente a versão topo de linha impressiona. Tudo nele é mais refinado, a começar pelos faróis de LED que foram as garras do felino e a preza que escorre pelo para-choques. À noite o efeito é espetacular.

Visual

A carroceria é a mesma do Active Pack, com a sensual coluna C, inspirada nos antigos hatches como 305 e 205, assim como com as lanternas integradas por uma moldura, que fazem do 208, disparado, o hatch compacto mais bonito do mercado. Mas detalhes como o aerofólio e as rodas aro 16 diamantadas dão um charme a mais, assim como a grade com elementos cromados. Faltaram mesmo as molduras das caixas de roda, presentes nas versões turbo e elétrica. Mesmo assim, um carro que conquista pelos olhos.

E atrair o consumidor pela beleza é o grande argumento desse carro. Afinal, o 208 é caro. A versão Griffe chegou por R$ 94 mil. Valor que só não supera a falta de noção da Volkswagen com as versões mais refinadas do Polo.

Outro senão é o motor. A unidade 1.6 de 118 cv não é um motor ruim e fraco (para um compacto). Inclusive, oferece potência equivalente aos 1.0 turbo de Onix e HB20. Mas não é capaz de entregar força em baixa rotação e nem ser tão eficiente quanto os pequeninos modernos. São pontos que definem a escolha do consumidor. Preço, eficiência e desempenho. 

Por outro lado, o pacote assistente é de fazer inveja. Leitor de placa, monitor de faixa (com correção), frenagem automática e alerta de colisão fazem dele uma referência. 

No entanto, mais uma vez mostra que a PSA trouxe um pacote europeu para nosso mercado, que não passou pelo devido ajuste para o cenário brasileiro. Não que o consumidor não mereça essas tecnologias. Mas nada adianta tê-las se são inacessíveis. Ainda mais que o consumidor brasileiro ainda não enxerga tais recursos como fatores de decisão compra. Ele quer preço, manutenção baixa, valor de revenda e confiabilidade. Atributos que a Peugeot tenta emplacar por aqui, há muito tempo, mas não consegue por falta de um produto regionalizado.

Raio-X Peugeot 208 Griffe 1.6

O que é?
Hatch compacto, quatro portas e cinco lugares

Onde é feito?
Fabricada na unidade de El Palomar (Argentina)

Quanto custa?
R$ 95.990

Com quem concorre?
O 208 concorre com Chevrolet Onix, Fiat Argo, Ford Ka, Hyundai HB20, Renault Sandero e Volkswagen Polo

No dia a dia?
O 208 Griffe é um carro feito para cidade. Compacto, mas com bom espaço interno. Bem construído, boa montagem e ótimo acabamento. Material emborrachado no painel, bancos com direito a alcântara e tiras de couro, teclas cromadas no painel, multimídia flutuante (com Android Auto, Apple CarPlay, câmera 360 graus) e a cereja do bolo que é o quadro de instrumentos i-Cockpit.

Esse cluster (como gostam de falar os executivos de marketing) permite diferentes configurações. É bem legal a projeção 3D das informações, mas nada que amplifique a experiência ao volante. Legal mesmo são os avisos do alerta de colisão e o leitor de placa. Ele indica a velocidade da via. Mas não é qualquer placa que consegue decifrar. A versão ainda conta com ar-condicionado digital, vidros e retrovisores elétricos, teto solar panorâmico (fixo), partida sem chave, carregamento sem fio. 

Um detalhe simples, mas bem legal, é o suporte para celular. Caso o motorista esteja sem cabo para conectar o aparelho, pode posicionar o telefone e navegar por ele, sem a necessidade de ventosa.

Motor e câmbio
A unidade 1.6 de 118 cv e 15,5 mkgf de torque é uma velha conhecida do consumidor brasileiro. Está no mercado há anos e equipa, C3, C4 Cactus, Aircross e o 2008. Esse motor oferece bom desempenho, mas é preciso esticar bastante. O pico de potência aparece perto dos 6 mil rpm, assim como a faixa máxima de torque só se mostra aos 4 mil giros. No uso citadino, ele atende bem, roda de forma silenciosa. Mas na estrada quando se exige dele, aí hurra como um leão faminto.

A unidade é conectada a uma caixa automática de seis marchas, que tem funcionamento suave. Mas as trocas são lentas. Numa retomada na estrada ela demora a responder. Dá para antecipar o comando com as trocas manuais, na alavanca, mas uma borboleta seria o ideal

Consumo
Abastecida com álcool, registrou consumo combinado (rodoviário e urbano) na casa dos 9,2 km/l.

Suspensão e freios
Um ponto crítico em qualquer Peugeot é a suspensão. Modelos como 206 e 207 sofreram com a suspensão frágil. O 208 utiliza o trivial McPherson, na dianteira, e eixo rígido, na traseira. Mas o que chama atenção é o acerto firme, que faz desse carro muito estável.

Seus freios utilizam discos ventilados, na frente, e tambores, atrás. Eles atendem bem às necessidades de frenagem e seguem o padrão da categoria. 

Palavra final
O 208 Griffe é o ponto alto dessa nova geração. Um carro que se mostra superior aos concorrentes quando o assunto é assistentes de condução. Ele consegue agregar num único pacote, equipamentos que são oferecidos fracionados por alguns concorrentes. No entanto, peca pelo preço elevado, que pode ser creditado ao dólar, mas não é capaz de adoçar o coração do consumidor, que tem o preço como fiel da balança. R$ 96 mil é um valor que o consumidor tem um leque farto de opções e com modelos de segmento superior. Ser bonito não é o bastante.