O mercado de utilitários-esportivos vem se ramificando nos últimos 30 anos. Modelos que prioritariamente eram derivações de picapes com carrocerias montadas sobre chassi passaram a adotar monobloco e se segmentaram por diferentes tamanhos. Pelo padrão europeu são seis segmentos, que vão de A a F. No Brasil, os chamados SUVs compactos dominam o mercado, com modelos como Renegade, Creta, T-Cross, Kicks e HR-V. Eles equivalem ao segmento B-SUV, que por aqui nasceu em 2003 com o EcoSport, mas teve seu boom a partir de 2015. E agora a General Motors quer repetir as mesmas manobras que teve com Onix Plus e Onix, com a nova geração do Tracker, que finalmente se ajusta ao formato do segmento.

Desde a década passada que a GM concorre por aqui com o Tracker. A primeira geração era nada menos que um Suzuki Grand Vitara 4x4, mas dotado de um robusto motor diesel, que depois deu lugar a uma unidade a gasolina. Naquela época um SUV ainda carregava a pecha de veículo abrutalhado e desengonçado na cidade. 

 

A segunda geração veio por volta de 2013, com desenho mais arrojado, importado do México. Nos Estados Unidos, ele era vendido como Trax. Era um jipinho parrudo, gostoso de dirigir, mas pecava pelo motor beberrão. O problema foi corrigido em 2017, quando ele passou por uma atualização de estilo e recebeu motor turbo 1.4 de 153 cv, o mesmo do Cruze.

A nova unidade fez dele um dos utilitários compactos mais legais do mercado, um dos primeiros a contar com motor turbo. Mas por ser importado, a GM não tinha o modelo como carro chefe. Nacionalizar seria inviável. A solução era cozinhar o Tracker com pedidos à filial mexicana de acordo com a demanda do varejo.

Agora tudo mudou. A nova geração do Tracker estreou em março, no início da pandemia de Covid-19. O SUV chega para ser o representante da marca no segmento B-SUV, como dizem os gringos. E como é fabricado em São Caetano do Sul (SP), a GM precisa ser agressiva, pois o jipinho será o carro-chefe na planta que completará 100 anos em 2030.

Mão premiada

O Tracker é derivado do Onix Plus e também foi desenvolvido na China. Seu grande trunfo é o inédito motor turbo 1.2 de 133 cv e 22 mkgf, que equipa a versão Premier, que testamos. Mas ele também pode ser equipado com a unidade turbo de 116 cv do Onix e seu irmão sedã. Ao lado do Tracker apenas T-Cross, 2008, C4 Cactus, HR-V e Tiggo 5x contam com motores turbo.

Visualmente, o Tracker agrada bastante. Mais de frente do que de traseira, sejamos sinceros. De perfil a terceira janela dá impressão de que ele é muito maior que seu antecessor. Na verdade, seus 4,27m são apenas 12 mm maior que velho mexicano. Por outro lado são 2 cm a mais no entre-eixos (2,57 m), que contribuem para o espaço interno.

Recepção

E se o desempenho tem sido bom, poderia ser melhor se o cenário do mundo fosse diferente. Mesmo com as medidas de isolamento, o Tracker foi o SUV mais vendido em abril e maio, com cerca de 1,5 mil unidades mensais. Mas foi o suficiente para esgotar o estoque inicial do jipinho e forçar o reinício das atividades em São Caetano do Sul.

Ao que tudo indica, o terceiro As será decisivo para que a GM recolha as fichas mais uma vez no carteado do mercado.

Raio-x Chevrolet Tracker Premier 1.2

O QUE É?

SUV compacto, quatro portas e cinco lugares.

ONDE É FEITO?

Fabricado na unidade de São Caetano do Sul (SP)

QUANTO CUSTA?

Inicial - R$ 116.490
Testado - R$ 118.090

COM QUEM CONCORRE?

O Tracker Premier concorre na prateleira do alto no segmento de SUVs compactos. Chery Tiggo 5x TXS 1.5, Citroën C4 Cactos Shine 1.6 THP, Ford EcoSport Storm 4x4 2.0, Honda HR-V Touring 1.5, Hyundai Creta Prestige 2.0, Jeep Renegade Limited 1.8, Mitsubishi ASX, Peugeot 2008 Griffe 1.6 THP e Volkswagen T-Cross Highline 1.4

NO DIA A DIA

O Tracker é um SUV urbano por definição. Assim como seu antecessor, ele é um carro que se vira muito bem na cidade, pois tem dimensões enxutas e ainda conta com assistente de estacionamento. A posição de dirigir é boa, apesar de o capô muito plano roubar um pouco da visão dianteira. O espaço interno é bastante bom e leva quatro adultos com muito conforto. Um quinto passageiro vai apertado. O porta-malas conta com 393 litros e um compartimento exageradamente elevado para o estepe.

A versão é bastante equipada e o único opcional é a pintura metálica. O resto faz parte do pacote que inclui itens como direção elétrica, ar-condicionado digital, multimídia (com Apple CarPlay, Android Auto, 4G, Wi-Fi, quatro portas USB e câmera de ré), serviço OnStar, carregador sem fio, teto solar panorâmico, bancos revestidos em couro, trio elétrico (vidros, retrovisores e travamento elétricos), seis airbags, assistente de estacionamento Easy Park, sensores de chuva, acendimento automático dos faróis e alertas de ponto cego e colisão.

MOTOR E TRANSMISSÃO

A unidade 1.2 três cilindros turbo de 133 cv e 21,4 mkgf oferece todo torque em apenas 2 mil rpm, o que garante agilidade e boa eficiência à unidade. Os quase 5 quilos a mais de torque fazem dele um motor muito mais esperto que a unidade 1.0, que está presente nas versões abaixo da Premier. Por outro lado, a unidade vibra em demasia. Vibrações são comuns em motores de cilindros ímpares, pois há um desequilíbrio de balanço em relação aos blocos de êmbolos pares. Nesse motor, a vibração incomoda.

A transmissão é a mesma caixa automática de seis marchas presente em diversos modelos, como Cruze, Onix, Onix Plus, Equinox e até mesmo dos finados Cobalt, Prisma e na geração passada do próprio Tracker. Seu pesar é a falta de opções de trocas manuais e ou borboletas, que são práticas nas retomadas. 

COMO BEBE?

Abastecida com álcool, a unidade testada registrou média de 9,1 km/l na cidade.

SUSPENSÃO E FREIOS

O Tracker utiliza conjunto de suspensão de eixo rígido na traseira e McPherson na dianteira. O conjunto tem acerto voltado para o conforto, absorvendo bem as irregularidades do piso. Já os freios contam com discos no eixo dianteiro e (mantiveram) os tambores no traseiro. Ele ainda conta com assistente de partida em rampa “Hill Holder” e controle de estabilidade (ESP). 

PALAVRA FINAL

O Tracker chega para um outro momento da GM. O que era apenas um representante para marcar território passa a ser um modelo chave na estratégia da marca. Apesar de ter perdido o refinamento de acabamento da versão anterior e não contar com modismos como quadro de instrumentos digital, o novo Tracker agrada pelo conjunto da obra. Bom espaço, lista farta de conteúdo e um motor esperto e eficiente. Definitivamente a GM redescobriu como jogar o carteado do mercado.