Funcionária de uma loja de câmbio no Centro de Belo Horizonte, Ludmila Fonseca viaja uma hora de ônibus para chegar ao trabalho: “Quando vou em pé, piora. A gente cansa mais. É preciso melhorar o transporte público”. A reclamação é a mesma do vendedor Gabriel dos Santos, que perde cerca de duas horas por dia no transporte coletivo por causa do trânsito ruim.

A realidade dos dois – e de milhares de trabalhadores da capital – foi constatada em duas pesquisas, que mostram não só os problemas deles, como também como os entraves de transporte e trânsito prejudicam a economia da cidade.

A primeira é resultado de um levantamento junto a 9.506 usuários de coletivos nas nove regionais da capital. Realizada pelo Belo Horizonte Transporte e Trânsito (BHTT), um grupo de passageiros e especialistas, apurou que 55,5% dos usuários dos ônibus gastam mais de uma hora até o destino, sendo que 14% do total ficam no coletivo por mais de 120 minutos.

Como a maior parte dos usuários (62%) é formada por trabalhadores, como Ludmila e Gabriel, especialistas alertam que o cansaço em razão das viagens pode diminuir a produtividade.

“Quanto maior o tempo de deslocamento, menor a qualidade de vida e menor a produtividade. Isso aumenta até mesmo a questão da desigualdade, porque quando avaliamos as estruturas dos centros urbanos, o tempo de deslocamento da periferia à área central é maior, ampliando a desigualdade de produtividade. O trabalhador chega cansado no serviço e pode comprometer o rendimento”, avaliou o economista Guilherme Almeida, da Fecomércio-MG.

Golpe no comércio

A outra pesquisa é justamente da entidade comercial. Para 94% dos empresários entrevistados, o trânsito ruim foi o item avaliado como de maior impacto negativo em estabelecimentos do comércio.

Do ponto de vista dos moradores, o levantamento da Fecomércio constatou que 53,1% consideram o trânsito ruim ou péssimo. “Eu dou nota quatro”, critica Ludmila, a funcionária da casa de câmbio.

No retorno para casa, muitas vezes ela prefere deixar um coletivo passar e aguardar outro: “Quando está lotado, fico mais tempo no ponto, à espera de um menos cheio”. Dependendo da hora, as viagens passam a ser no horário noturno.

Audiência pública

Os problemas nas viagens após o sol se pôr também foram alvos da pesquisa do BHTT. Na última terça-feira, o relatório do estudo junto aos 9.506 entrevistados foi apresentado numa audiência pública na Câmara Municipal.

“Um estudo simples, mas que pode mudar efetivamente a qualidade do transporte público em BH. Tem muita reclamação sobre as linhas noturnas, e por causa disso nos dedicamos a encontrar soluções. Com nossas sugestões, garantimos 99% de cobertura neste horário com o aumento de 99 para 108 linhas e algumas alterações de trajeto”, disse, durante a audiência, o engenheiro mecânico Walker Matheus Ferreira da Silva, idealizador do BHTT.

Na prática, o relatório da pesquisa sugere à prefeitura um novo desenho na rede de transporte. Para isso, o grupo levou em conta dados operacionais das 295 linhas que operam na cidade e, juntas, somam 600 mil viagens. Uma das ideias é alterar rotas dos coletivos.

O BHTT acredita que as propostas farão com que o intervalo entre as viagens seja reduzido. O estudo do BHTT foi encaminhado à prefeitura. A BHTrans informou que está avaliando as propostas. “A empresa esclarece que se trata de um estudo independente, sem a participação da BHTrans, mas que na medida em que houver viabilidade de implantação de alguma sugestão proposta no estudo de forma que garanta melhorias para os usuários e para a cidade, elas poderão ser incorporadas”.

Em relação ao estudo da Fecomércio, a BHTrans informou que “vai solicitar o estudo na íntegra para uma análise mais detalhada”.

artetransporte

Rotina afetada

“Tive até relato de cliente que demorou cerca de 30 minutos para dar a volta com o carro no quarteirão, devido ao intenso fluxo no horário de pico. É preciso mudar alguns pontos no trânsito (de BH)”, cobrou Abraão Leite, sócio da Padaria Padre Eustáquio, região Noroeste de Belo Horizonte.

Ele faz parte dos 57,4% de empresários da capital que classificam o trânsito como péssimo ou ruim, segundo a pesquisa da Fecomércio-MG. O percentual melhorou em relação aos dois anos anteriores – era 60% em 2017 e 58,4% em 2018 –, mas a indignação ainda atinge a maioria dos empresários.

A atual dinâmica do trânsito interfere na rotina da população, na qualidade de vida e de trabalho e nos hábitos de consumo das famílias.

Economista da Fecomércio, Guilherme Almeida destaca outro ponto que o empresário precisa levar em conta no planejamento de vendas: 61,3% dos consumidores afirmam que o fato de o estabelecimento ter estacionamento próprio é um diferencial. “Esse ponto da pesquisa é importante, pois está intimamente ligado aos novos hábitos e preferências do consumidor, que busca, cada dia mais, bons preços e comodidade”.

Qualidade

A estatística permite sugerir que o consumidor prefere ir no carro próprio às compras do que usar o transporte público. Neste caso, a pesquisa do BHTT mostra que boa parte da população até abriria mão do veículo próprio, mas desde que o transporte coletivo fosse de qualidade.

De acordo com a pesquisa coordenada por Walker Matheus Ferreira da Silva, idealizador do BHTT, “90% dos entrevistados utilizaria o transporte público coletivo em vez do veículo próprio ou transporte compartilhado se o mesmo oferecesse maior eficiência, de modo global, se houvesse potencialização dos atendimentos, melhoria na qualidade da frota e maior oferta em viagens”.

Desta forma, ganha espaço os aplicativos, como constatou a Fecomércio. “Os <CF36>apps</CF> vêm conquistando espaço nos hábitos de consumo das famílias e já aparecem como o segundo meio mais utilizado para as compras (24%), perdendo apenas para o próprio veículo (33,8%)”, disse o economista da entidade.