As previsões para o final de ano são sempre sombrias quando se trata do movimento nas estradas de todo o país. É considerado o período mais crítico do ano pelas Polícias Rodoviárias por englobar os feriados de Natal e Réveillon, quando há grandes deslocamentos de pessoas para as tradicionais reuniões familiares e festas populares. 
 
Acrescente-se aí o elemento complicador das chuvas. Os temporais desta época do ano tornam o ato de dirigir em estradas e rodovias muito mais arriscado e tenso. As destruição das pistas de rodagem devido às águas é outro agravante para a viagem. Segundo dados oficiais, em Minas o movimento de veículos foi até 70% acima do normal em alguns trechos de rodovias.
 
O Brasil tem hoje uma frota de cerca de 81,7 milhões de veículos, entre unidades de passeio e de transporte, segundo números oficiais da Polícia Rodoviária Federal (PRF), enquanto a população brasileira se situa em torno de 200 milhões de habitantes. Um ano atrás eram 76 milhões de automóveis em circulação no país.
 
Nos governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, na década de 50, o país resolveu priorizar o transporte por automóvel, que seria um sinal de progresso do país que perseguia o desenvolvimento. Deu-se enorme apoio à indústria automotiva. Mas os governantes pecaram em não priorizar a modernização e melhoria das estradas, como ocorreu nos Estados Unidos, a “pátria do carro”.
 
A frota não para de crescer, como mostram os números da PRF, mas esse volume, incluindo o crescente recolhimento de impostos, não é acompanhado pela construção de estradas condizentes. Os recursos que deveriam ser canalizados para as estradas não aparecem no montante necessário.
 
A Polícia Rodoviária Federal joga praticamente toda a culpa sobre os motoristas pelas estatísticas pavorosas de acidentes durante os períodos de feriados prolongados. Segundo a PRF, 92% dos acidentes em todo o país são provocados por falha humana, como imperícia (pouca experiência na condução do veículo) e imprudência. Mais: 32% das mortes resultaram de colisões frontais, a principal causa de óbitos nos acidentes.
 
Mas a colisão frontal só acontece porque as estradas não são duplicadas, uma condição sine qua non para um país com tráfego pesado como o nosso. A imperícia e a imprudência são fato incontestável, mas, certamente, seriam menos impactantes se a malha rodoviária brasileira fosse condizente com a opção pelo transporte sobre rodas. As concessões de rodovias à iniciativa privada estão atrasadas, tragicamente atrasadas, como atestam as estatísticas. Diante da incapacidade gerencial há décadas demonstrada pelo Ministério dos Transportes e Departamento Nacional de Infraestruta Terrestre (DNIT), gerada nem sempre por meras questões técnicas, a privatização seria o caminho natural. O preço da maior imperícia, a estatal, é a perda de milhares de vidas de brasileiros. Uma tragédia nacional equivalente ao drama de uma guerra.