Contrariando as previsões de mercado, que projetavam retração na cotação do dólar após a aprovação da reforma da Previdência, em julho, a moeda norte-americana foi às alturas e rompeu a margem dos R$ 4, fechando em R$ 4,14 ontem, alta de 10,5% desde que as mudanças na aposentadoria passaram na Câmara. É a maior cotação desde setembro de 2018. 

Além dos embates entre China e EUA, as falas “truncadas” do presidente Jair Bolsonaro (PSL) contribuem para a fuga do capital, puxando para cima o dólar. Embora o cenário seja conturbado, empresas que exportam aproveitam para melhorar o caixa, enquanto quem importa precisa dar nó em pingo d’água para fechar as contas no fim do mês.

Com as margens já apertadas, as panificadoras temem um aumento exorbitante no preço da farinha de trigo, que vem do exterior, especialmente da Argentina. E as críticas do presidente Jair Bolsonaro a Alberto Fernández e Cristina Kirchner, que lideram as pesquisas de intenção de voto para a presidência do país vizinho, podem azedar as relações e dificultar ainda mais a compra do insumo dos hermanos, conforme afirma o presidente da Associação Mineira da Indústria da Panificação (Amip), Vinícius Dantas.

“Os moinhos tentam não passar os aumentos para nós, mas as declarações do presidente contra os atuais e possíveis chefes de Estado, especialmente com a Argentina, podem fazer mal para os negócios. É possível comprar farinha de outros países, mas a da Argentina é mais barata porque o frete é terrestre”, afirma Dantas. 

No restaurante português Caravela, localizado no Cidade Jardim, em Belo Horizonte, o polvo importado, um dos principais pratos da casa, saiu do cardápio. O motivo é a alta do dólar, que inviabilizou a venda do produto em terras tupiniquins. “O quilo do polvo português custava R$ 150. Agora, dobrou e sai por R$ 300. A solução foi dar destaque para o polvo nacional, que é mais barato, mas tem menos saída”, afirma o proprietário do estabelecimento, Cristóvão Laruça. 

Outros produtos importados utilizados na casa, como arroz, azeitona, bacalhau e azeite, também sofreram influência da alta da moeda norte-americana. No entanto, o empresário conseguiu segurar os preços, reduzindo as margens de lucro. 

cervejas artesanais

Apertar o cinto também foi a estratégia usada pela Falke Bier para não perder a clientela. Conforme o proprietário, Marco Falcone, com exceção da água, todos os produtos usados na fabricação da cerveja artesanal são importados, fazendo com que o preço final fique mais caro. Para manter a competitividade, no entanto, ele garante que não repassará os custos ao consumidor. “Vamos segurar os preços até onde der”, diz.

Na avaliação do especialista em economia brasileira e políticas públicas e professor da Escola do Legislativo, Fabrício Augusto de Oliveira, a briga entre Estados Unidos e China é o principal causador da alta da moeda norte-americana. 

No entanto, a indisposição de Bolsonaro com diversos líderes de Estado internacionais e a falta de planejamento para o país após a reforma da Previdência fazem com que haja instabilidade nos mercados, especialmente no brasileiro. “A reforma da Previdência terá reflexo a médio prazo. Mas qual a solução para o problema agora?”, questiona. 

Favorecidos

Enquanto a escalada do dólar encarece o valor de matérias-primas importadas, como trigo, gás e gasolina, impactando o bolso do consumidor, alguns setores se beneficiam. 

Um deles é o mercado de turismo em solo brasileiro. Com o câmbio desvalorizado, hotéis, pousadas e restaurantes – especialmente os localizados nas praias do Norte e do Nordeste, as águas quentes do Centro Oeste e o frio do Sul do país – ganham destaque. Como reflexo, há contratação de mão de obra e aumento de faturamento para diversas redes.

“Não é uma ação instantânea, mas já começamos a ver esse movimento. O dólar estava na casa dos R$ 3,70, R$ 3,80 há algum tempo, mas quando se aproxima dos R$ 4 os roteiros começam a mudar”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens em Minas(Abav), José Maurício de Miranda. 

Desembarque

A Forno de Minas, tradicional indústria alimentícia mineira, também vai aproveitar a desvalorização do real para ampliar mercado. O objetivo é aproveitar a margem de lucro mais alta para dar descontos aos compradores internacionais e alcançar mais pontos de vendas. Como exemplo, os produtos acabam de desembarcar na Argentina e no México. 

Hoje, a companhia comercializa para 18 países, principalmente Estados Unidos e Portugal. Os embarques representam 7% da receita da fábrica. Desse montante, as vendas em dólar respondem por 70% do faturamento em exportações. O restante é em euro. Por ano, 1,5 mil toneladas de alimentos são enviados para fora do país. A ideia é triplicar o faturamento com as exportações até 2024. 

“O dólar mais alto é ótimo para os negócios internacionais da Forno de Minas. É um momento muito bom para exportações”, diz a gerente de Comércio Exterior, Gabriela Cioba. 

Apesar de comemorar a elevação na receita, ela pondera que alguns produtos utilizados na fábrica são importados, como o extrato de tomate, que vem do Chile, e a farinha. Como reflexo, esses itens ajudam a puxar um pouco do lucro para baixo.

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