O pessoal está preso em casa e não resta outra coisa a fazer a não ser... comer”. É com tom dúbio e picante, bem propício ao universo dos produtos eróticos, que Phelipe Anício Silveira, proprietário da loja virtual Acaso, de Belo Horizonte, registra o aumento nas vendas online dos sex shop no Brasil. Um dado que comprova esta curva ascendente é que, em recente pesquisa da plataforma Loja Integrada, o setor teve um aumento de 88,1% no número de lojas criadas para compras pela internet.

Com as lojas físicas fechadas devido à pandemia de coronavírus, a continuidade dos negócios só foi possível por meio de sites e redes sociais. “As pessoas precisam fazer alguma coisa além de ficar no Instagram e ver Netflix. Por isso, estão engordando mais e fazendo mais sexo”, afirma Silveira, que, como outros donos de lojas de produtos eróticos, viu as vendas dispararem, superando os valores obtidos em anos anteriores.

“Com as pessoas comprando mais do que de costume, no meu caso houve um aumento no faturamento de 30%”, detalha. Antes do fechamento compulsório dos pontos físicos, a porcentagem de produtos adquiridos por internet e presencial era equilibrada, segundo o empresário. “Cinquenta-cinquenta. Claro que isso dependia muito da loja, já que algumas são focadas em online”, afirma Silveira, que vem ajudando os clientes revendedores a criarem os seus próprios sites.

Se a pandemia tivesse ocorrido em 2021, os lucros poderiam ser maiores, explica ele. Com site inaugurado em 2008, Silveira começou a dar forma a um projeto de franquia online. “Somos principalmente uma loja de atacado, embora no site Aceso os consumidores finais possam comprar os produtos. Tenho cerca de 15 mil revendedores em Minas Gerais e o nosso projeto era ajudá-los a montar o próprio site. Pena que não deu para desenvolver direito”, lamenta.

Com a proximidade do Dia dos Namorados, comemorado em 12 de junho, a expectativa de aumento de faturamento é ainda maior. “Está com o parceiro em casa, 24 horas por dia, sem poder ir a um restaurante, cinema ou boate? O jeito é inovar nas brincadeiras”, salienta Isabela Soares da Silva, à frente de três lojas da Belíssima Sex Shop, localizadas na Savassi, na Pampulha e na Feira do Mineirinho.

Os campeões de venda, segunda ela, são acessórios principalmente femininos, como massageadores, vibradores e lingeries. “Está saindo muita roupa. Elas querem se valorizar mais”, explica Isabela, que, para dar conta da demanda, busca um aplicativo de entrega rápida. “Algumas pessoas já estão decididas sobre o querem e um aplicativo como o iFood (na alimentação) facilita”.

Outros já preferem ligar e, como nas visitas presenciais, obter informações mais detalhadas antes de adquirir um produto. A empresária costuma mandar fotos pelo Whatsapp aos interessados, para facilitar as escolhas. O site da Belíssima tem menos de dois anos no ar e tem sido crucial neste momento em que Isabela teve que deixar funcionários em casa, por pertencerem ao grupo de risco. 

Vibradores tiveram alta de 50% nas vendas no país desde março, início da pandemia, totalizando mais de um milhão de aparelhos comercializados; Os dados foram coletados pelo portal Mercado Erótico e divulgados pela rádio CBN, na quarta-feira passada

 

Lojas virtuais são opção para número crescente de segmentos

A pandemia acelerou a criação de lojas virtuais em vários setores, especialmente entre os pequenos empreendedores, como única forma de continuar gerando renda. No levantamento produzido pela plataforma Loja Integrada, a maior concentração de pedidos de abertura de sites ocorre na região Sudeste, em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

“Os outros estados optam menos pelo e-commerce devido ao prazo de entrega, que se torna maior de acordo com a distância (para o ponto de distribuição). Muitas vezes, quando o cliente põe o produto no carrinho virtual e vê o tempo que demorará a chegar, acaba desistindo”, registra o CEO da plataforma, Pedro Henrique Freitas.

Por conta do Dia das Mães, lojas virtuais dedicadas a presentes, flores e cestas tiveram um grande aumento (de 88,8%), no mês de abril, assim como de móveis (58%). Outros setores que chamam a atenção são os de instrumentos musicais (crescimento de 130% em abril), artesanato (83%) e de bebidas alcoólicas (67%), que refletem as opções de lazer da população durante a quarentena.

“As categorias de maior urgência, como farmácia, saúde e alimentação, são, de longe, os que mais cresceram nas primeiras semanas de isolamento”, observa Freitas. Mas luvas e álcool em gel, produtos campeões de vendas em março, sofreram uma baixa de -22% e -52%, respectivamente, possivelmente em virtude do baixo estoque dos produtos em lojas brasileiras.

“Os lojistas sempre souberam que precisavam digitalizar, mas não o fizeram antes porque a loja física sempre consumia a maior parte do tempo. Depois que tiveram que fechar as portas, sem ter por onde vender, eles retomaram este projeto”, destaca Freitas, que abriu a Loja Integrada há sete anos e tem, hoje, mais de um milhão de lojas virtuais criadas.

O executivo explica que o comerciante não precisa ter conhecimento técnico de internet, já que há plataformas que facilitam bastante a operação, oferecendo formas de pagamento e logística. Freitas, no entanto, alerta que a loja não começará a vender de uma hora para outra, só pelo fato de ela existir no mundo virtual.

“É preciso criar um tráfego, trazer clientes, mas há vídeos específicos que tratam disso e podem facilitar este processo para quem for abrir uma loja virtual”, ressalta. Antes da pandemia, a Loja Integrada criava cera de 900 lojas por dia. Após 15 de março, este número saltou para dois mil, totalizando de 50 a 60 mil por mês. “É uma tendência que veio para ficar”, assinala o empresário.