Os expositores da Feira de Artes, Artesanato e Produtores de Variedades de Belo Horizonte, a popular Feira Hippie da Afonso Pena, estão substituindo o cordial “Volte Sempre” pelo “Me Segue no Instagram” na despedida dos clientes. De olho nas tendências, os feirantes expandem seus negócios com o uso de aplicativos e conseguem até dobrar as vendas por meio de ferramentas como Instagram e Facebook.

A feirante Ana Paula Ribeiro, de 37 anos, decidiu usar o aplicativo como ferramenta de vendas para vencer a queda de movimento da feira. “Antes, vinham mais de cem ônibus de atacadistas para comprar todos os domingos. Mas com a crise isso foi reduzindo. Percebi que precisava conseguir chegar até esse público e foi a internet que me deu essa possibilidade”, afirma Ana Paula, com a experiência de quem está na feira desde os sete anos, quando ia acompanhando a mãe.

Para ela, a melhor alternativa para se manter no mercado é inovar. Primeiro, passou a ir fantasiada para vender as roupas de personagens infantis. Depois, há cerca de cinco anos, montou site e página do Facebook para o ateliê. Em seguida partiu para o Instagram e criou uma estratégia imbatível: todos os domingos posta vídeos na feira chamando os clientes. Algumas postagens alcançam mais de 150 mil visualizações.

Ana Paula faz as gravações há menos de um ano, mas já tem a desenvoltura de uma veterana na frente das câmeras. “Eu notei que as pessoas deixavam de comprar pela internet por medo da qualidade do produto. Pela foto deixa dúvida. Então nos vídeos eu mostro o produto em detalhes. É como se a cliente estivesse aqui”, explica.

Além de apresentar as fantasias, ela chama os clientes para a feira e dá o serviço de como está o lugar: se cheio, vazio, quente, frio ou com chuva. Além de atrair mais pessoas para a banca, ela consegue vender virtualmente com entrega em todo país. O resultado foi um aumento de 40% nas vendas.

Pelo mundo

Se a internet não tem barreiras, a feira também deixa de ter quando está na rede. Foi graças ao espaço virtual, por exemplo, que a senhora Maria José das Graças de Abreu, de 64 anos, passou a enviar os vestidos infantis produzidos pela família para endereços cada vez mais distantes. “Agora eu vendo minhas roupas no Maranhão. Até na Irlanda já fiz venda”, comemora. Mas admite: “Eu não entendo nada disso, quem administra essa parte virtual é minha filha”.

A filha, Andressa Carla Resende de Abreu, de 31 anos, conhece bem o poder de estar conectada. Criou páginas no Facebook e no Instagram há mais ou menos um ano e meio. E já contabiliza cerca de 20% da comercialização de forma virtual. “Muita gente fica sabendo do nosso trabalho graças à Internet. É assim que as pessoas de classes sociais mais altas estão inclusive deixando de ter preconceito com os produtos da feira e nos procurando também. Elas passam a ver que temos produtos de qualidade e com preços atraentes”, afirma.

O monitoramento das redes sociais do expositor Ricardo Peregrino, de 59 anos, também fica por conta da filha. Desde quando tinha dez anos, ele já trabalhava nas barracas. Sabe tudo sobre a produção dos móveis de madeira e o trato com os clientes. Mas as telas, seja de um computador ou de um smartphone, ainda causam estranhamento. Tanto que é com dificuldade que ele mostra no celular quantas pessoas seguem a página @peregrino_moveis: 2.647 potenciais clientes acompanham o trabalho dele na rede. O resultado? Um aumento de 20% nas vendas. “De um ano para cá, o número de clientes aqui na feira vem caindo. Culpa da crise que o país está vivendo. Graças a Deus a internet vem trazendo novas vendas. Não deixa a fonte secar completamente”, afirma.

Vendedora de enfeites de acrílico para o banheiro, Maria Angélica Costa do Nascimento, de 64 anos, conta que as vendas dobraram depois que criaram a página no Facebook. “Atendemos agora muitos atacadistas em Salvador, Brasília, Goiás e Recife. Usamos a Internet para procurar revendedores para levar nossa marca para outras cidades”, afirma.  

Para alguns feirantes, o objetivo não é apenas complementar as vendas e sim deixar a feira e focar apenas no ambiente virtual. “Aqui, o movimento está fraco. E eu tenho muitos gastos: pago quase um mil reais por ano de IPTU, montagem da estrutura, carreto para as coisas, lanche, ajudante. Na internet, mesmo que eu passe a vender menos, o lucro vai compensar”, afirma Jenires Galvão Duarte, de 58 anos. Ela vende quadros personalizados.

Na contramão da tendência, alguns expositores preferem manter a atividade da forma tradicional. “Eu gosto é de criar, o tempo que eu gastaria atendendo cliente na Internet eu uso fazendo novos produtos para vender na feira”, afirma Joana Rosa. A feirante expõe roupas na banca há 35 anos.

A feira

Dividida em 16 setores, com mais de 2 mil expositores, o local tem cerca de 10 mil trabalhadores diretos e indiretos. Segundo dados da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), recebe em média 80 mil visitantes a cada domingo.

Nasceu na Praça da Liberdade, em 1969. Na época, artistas e artesãos se reuniam e expunham os trabalhos. Foi em 1973 que veio o reconhecimento pela PBH. Alguns anos depois, em 1991, que ela foi transferida para a avenida Afonso Pena e passou a ser considerada a maior feira de artesanatos da América Latina.