A Aperam South America é a única usina integrada de aços inoxidáveis da América Latina, com unidade industrial em Timóteo, no Vale do Aço. Tem um desempenho que segue no caminho oposto ao das outras companhias do setor siderúrgico. Apesar do momento de fragilidade, o grupo, que também possui plantas na Bélgica e na França, contabiliza crescimento robusto. Globalmente, a Aperam registrou em 2014 lucro líquido de US$ 95 milhões, saindo de um prejuízo de US$ 100 milhões no ano anterior. No primeiro semestre deste ano, a fabricante de aços já registra lucro líquido de US$ 108 milhões, ante US$ 55 milhões do mesmo período do ano passado. A seguir, o presidente da empresa na América do Sul, Frederico Lima, detalha as estratégias da empresa.

A Aperam adotou, assim como várias outras empresas do setor siderúrgico, uma estratégia de intensificar as exportações. Qual o resultado?

Isso acabou sendo uma válvula de escape. Estratégia é mais a de estar competitivo para encarar o mercado, e isso foi mais a opção que nós tivemos com a retração do mercado interno.

Mas isso será tratado como exportações de curto prazo ou como um novo mercado que a empresa ganhou?

É um novo mercado porque não esperamos reversão da situação da indústria da transformação brasileira. O ano de 2016, ao que tudo indica, será muito parecido com 2015. O Boletim Focus indica para esse ano uma queda (do PIB) de 3% e para o ano que vem, retração de 1,2%, 1,5%, sendo que a indústria sofre mais do que os outros setores. Se a indústria da transformação vai ter mais uma pequena retração, o consumo de aço certamente não reverte e então o mercado externo passa a ser um mercado que conquistamos, e vamos mantê-lo aguardando o crescimento do mercado brasileiro.

Como essas exportações influenciam no mix de produtos da companhia e afetam o resultado?

O mix muda pouco. Muda o mercado mas com mix muito próximo do mercado interno. Atuar no mercado interno tem uma série de vantagens, como proximidade e custo logístico inferior. Então, a gente acaba tendo vantagens competitivas frente ao concorrente. Quando vou para o mercado externo, isso tudo inverte porque há dificuldades em prestar um bom serviço se tiver algum problema de enviar assistência técnica, e os resultados são muito piores do que vender no mercado interno. Por isso é uma válvula de escape: tem uma perda de margem ao migrar do mercado interno para o externo. Mas a empresa sendo competitiva ainda é melhor do que cortar capacidade de produção.

Então, vender lá fora comparado com vender aqui tem impacto negativo no balanço financeiro?

Se pegarmos um produto e fizermos essa conta o impacto será negativo, mas o que a gente está tentando é diminuir ao máximo o impacto dessa crise no nosso resultado. As exportações trazem uma pressão forte sobre as ações que já vínhamos fazendo em termos de competitividade. De certa forma, as exportações mostram que nossa estratégia de reduzir custos foi acertada porque nos permitiu atuar no mercado externo.

O desaquecimento da demanda interna é oriundo principalmente de quais setores?

No caso dos aços elétricos, que são para motores e transformadores, houve queda muito forte na linha branca. Nos aços inoxidáveis, com aplicações em setores diversos, as principais quedas são na linha branca e setor automotivo, além dos investimentos de indústrias que consomem inoxidáveis em seus processo produtivos, que caíram muito.
 

Nesse trabalho amplo de redução de custos pelo qual passou a empresa, o que você destaca?

Esse ano, fizemos a gestão através de um programa que chamamos de Aperam Mais, que se desenvolve em torno de grandes eixos: volume, custos, mix e comunicação. Uma ação importante foi a primarização de algumas atividades. Em um momento em que estava todo mundo desligando, (demitindo) nós contratamos terceiros que passaram a ser funcionários próprios, e vislumbramos possibilidades de sinergias, flexibilidade de mão de obra, ganho de produtividade, redução de turn over (rotatividade de trabalhadores). Em apenas uma área foram mais de 200 terceirizados que se tornaram funcionários próprios e não tivemos nenhuma redução de pessoal.

O senhor disse que 2016 deve ser parecido com 2015. Dá pra segurar mais um ano sem demissões, essa estratégia de redução de custos e ganho de eficiência deve ter um limite?

Nosso planejamento estratégico prevê manter esse nível de emprego, e as ações continuarão no sentido de ganho de eficiência e exportações para compensar queda no mercado interno.
 

Muitas siderúrgicas, entre elas a Aperam, foram há um tempo pedir medidas antidumping contra a entrada de aço importado no país, sobretudo o chinês. Qual resultado dessas ações e como se comportam hoje as importações de aço?

O excesso de capacidade de aço e a mudança da China de importador para exportador de aço gerou uma série de práticas desleais no mercado. Há dois anos foram impostas duas medidas antidumping para dois produtos nossos, para combater essas práticas, e essas medidas permanecem em vigência. No setor, essas medidas se multiplicam.

Recentemente, a indústria siderúrgica, representada pelo Instituto Aço Brasil (IABr), esteve com o ministro Joaquim Levy (Fazenda) apresentando demandas do setor e pedindo ações do governo. O que o senhor enxerga de prioritário nessa agenda?

Ações estruturais e conjunturais. Estruturalmente, investimentos em infraestrutura e trabalhar buscando uma carga tributária mais adequada. O Brasil é o país que mais tributa o aço, e isso encarece toda a cadeia. Em infraestrutura, temos a BR-381, que é um absurdo. Ali ocorre todo o escoamento rodoviário de Usiminas, Gerdau, Cenibra, Aperam. Quando você compra um talher que precisou sair da Aperam, em Timóteo, para chegar a Tramontina, no Sul do Brasil, de caminhão, isso tá no preço do produto. Na parte das ações conjunturais, precisamos de medidas de favorecimento a exportação de aço, como o Reintegra, que o governo não pode enxergar como uma renúncia fiscal porque ele vai gerar demanda no médio e longo prazos.