Ainda que os números mostrem a construção civil estagnada em Minas Gerais, empresários do varejo do setor têm realizado projeções otimistas para o segundo semestre deste ano. A queda da taxa básica de juros, aliada ao aumento de empregos e às injeções pontuais de recursos na economia, levaram 76,8% dos empresários mineiros a projetarem, até dezembro, lucro superior ao primeiro semestre do ano, segundo pesquisa da Fecomércio-MG, em parceria com o Sindicato do Comércio Varejista de Material de Construção, Tintas, Ferragens e Maquinismos (Sindimaco).

Após 20 trimestres de queda do Produto Interno Bruto (PIB), a construção civil esboçou uma melhora no fim de julho, tendo elevação de 1,9% do PIB. Apesar desse respiro, o primeiro semestre foi amargo. Ao menos 40,1% dos varejistas – os populares depósitos ou lojas de materiais de construção – tiveram queda média de 2% no faturamento, na comparação entre o primeiro semestre de 2019 e o segundo semestre de 2018. Em uma análise geral, 69,5% das empresas se mantiveram estagnadas ou registraram quedas de faturamento.

Mesmo diante desse cenário, 81,6% do empresariado mineiro espera uma melhora da situação financeira geral das empresas, em relação ao primeiro semestre deste ano. Sendo que 76,8% desses empresários projetam, até dezembro, faturamento superior aos primeiros seis meses deste ano.

Na esteira desse otimismo, a construção civil tem se apoiado em alguns indicadores como a queda da taxa de juros Selic. Além disso, o impulso de empregos que o setor teve em julho, gerando 56% de todas as vagas somente em Minas, ajudou a animar os empresários.

Na avaliação do economista Guilherme Almeida, da Fecomercio-MG, esses impulsos econômicos também são incrementados indiretamente pelas datas comemorativas do segundo semestre. “O varejo se beneficia do segundo semestre, mas a construção civil também. Por que há um estoque de imóveis esperando para ser vendido. E toda a movimentação do fim de ano afeta a construção”.

“Existe um otimismo bem fundado na queda da taxa Selic, que já aconteceu na semana passada e vai ajudar muito na atração de público para novos financiamentos, se o Banco Central mantiver a política, porque o crédito é fundamental para o aquecimento da construção. Há otimismo também na pressão feita pelos empresários do setor da construção civil para que o governo federal não liberasse o saque de todo o valor do FGTS, o que chegou a ser cogitado pela equipe do ministro Paulo Guedes, mas foi abortado pelo governo. Justamente porque esse é o principal fundo de financiamento para a construção civil. E é o setor que responde mais rápido aos incentivos econômicos. É um bom termômetro para a economia"

Márcio Salvato
Economista do Ibmec

Para Renato Michel, vice-presidente da Área Imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-MG), as primeiras respostas do mercado começaram a acontecer na prática com o aquecimento, no início do segundo semestre, do mercado em São Paulo. 

“São Paulo é o termômetro da construção no país. O Sinduscon-SP estima que a cidade tenha 50 mil unidades para vender e vai comercializar 40 mil até dezembro, a maior marca histórica desde o boom da construção, em 2007 e 2008. É nosso sinal mais claro”, diz Renato.

Preços em alta

Em contraste com o otimismo da construção civil mineira para o segundo semestre de 2019, alguns dos principais produtos do setor, como ferramentas elétricas, tintas e materiais hidráulicos, devem seguir inflacionados em quase toda a cadeia de produção.

Ao menos 92,2% dos fornecedores consultados pela Fecomércio-MG afirmaram que vão aumentar ou manter os preços dos principais materiais até dezembro. No primeiro semestre deste ano, em uma análise geral, cerca de 80% dos empresários diminuíram ou mantiveram o mesmo volume de compras. E apenas 20,6% aumentaram esse percentual de compras de materiais.

Nesse cenário, 60,4% dos empresários da construção civil avaliam que os preços dos materiais devem continuar a subir até o fim do ano. 

Na análise de Júlio Gomes de Oliveira, presidente do Sindimaco, o cenário instável do país, somado às altas do dólar, contribuíram para as elevações de preços.

“Quando falamos de produtos importados, temos esse cenário inevitável, não depende das ações do mercado interno, necessariamente. Há um certo receio dos fornecedores, diante ao cenário internacional, e as previsões de crescimento baixo da economia nacional também pesaram para isso. Mas nada que deva se manter por muitos meses. O setor aquecendo, os preços abaixam”, analisa Oliveira.

Para Rodrigo Pacheco Pereira, proprietário da Linha Verde Elétrica, com duas unidades, uma no Padre Eustáquio e a outra em Vespasiano, na região metropolitana mineira, os materiais e ferramentas importados, como serras elétricas e tico-ticos foram os que sofreram mais alterações, da ordem de até 20%.

“O que as distribuidoras falam é que é por causa do dólar, essas coisas. Em outros materiais, como tintas, lixas, não houve essa variação toda. É mais sobre o que vem de fora e depende do mercado internacional. Até agora, a sinalização dos distribuidores é que o preço vai permanecer o mesmo”, avalia Rodrigo.

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