
Devo admitir que, depois de duas décadas avaliando automóveis, há uma sensação de que tudo está ficando igual. De fato, os automóveis têm comportamentos previsíveis, seja da marca A ou da marca B. Isso acontece porque todas precisam entregar níveis de eficiência e emissões, assim como há um grande compartilhamento de peças e componentes.
Dessa forma, antes de entrar num carro novo, já sabemos como ele irá responder. É o turbo lag em baixa rotação, o acelerador eletrônico retardando a abertura da borboleta, a vibração costumeira do bloco três cilindros e por aí vai. E quando falamos de carros eletrificados, essa padronização comportamental é ainda mais latente.
Mas tudo isso muda quando testamos um carro antigo. E guiar um carro antigo é sempre legal, principalmente se ele foi conservado em condições de novo. E foi o que fizemos com o Fiat Coupé Turbo. Trata-se de um dos três exemplares que a marca italiana trouxe para o Brasil nos anos 1990 para homologação.
Na época, a Fiat estava estudando se traria a versão 2.0 aspirada ou a opção turbo 2.0. No fim das contas, descobriram que o turbo chegaria caro demais e não seria capaz de concorrer no mercado.
Os três carros foram designados à diretoria. O destino padrão seria o desmonte. Mas como era um carro tão legal, o mantiveram na frota corporativa. E depois de 30 anos, o exemplar remanescente pertence ao acervo que a Fiat finalmente começou a construir.
Tirar esse carro de seu galpão é um evento raro, mas como parte das comemorações dos 50 anos da marca, o modelo foi liberado para dar umas voltas. E levamos ele até o circuito Mega Space, em Santa Luzia, e podemos conferir como é um carro turbo da velha guarda.
O Coupé é equipado com motor 2.0 16V turbo de 193 cv e 30 kgfm de torque, derivado do bloco que era utilizado pelo mitológico Lancia Delta Integrale, que foi um dos carros mais vitoriosos no mundial de rali (WRC). Esse bloco é combinado com transmissão manual de cinco marchas. Ou seja, um carro esporte raiz, sem assistências eletrônicas.
Ao volante, chama atenção o belíssimo trabalho que a Pininfarina fez no carro. Se por fora ele é lindo, por dentro é quase erótico, com seu painel revestido por uma capa na cor da carroceria, que remete aos antigos esportivos italianos. É pura passionalidade, como tudo que se faz na Velha Bota.
Como todo bom carro turbo antigo, a turbina demora a encher, o pico de potência aparece aos 5.500 rpm. A pista do Mega Space não tem espaço para esticar o esportivo ao máximo, mas é impressionante como o comportamento da turbina muda o carro a partir dos 4 mil giros.
É algo diferente dos turbos modernos, que há atuadores eletrônicos para manter os níveis de eficiência e turbinas compactas que já entregam todo vigor abaixo dos 2.000 rpm, mas sem uma pancada, que só os “caramujos” antigos faziam por conta dessa falta de controle do fluxo de ar injetado.
Além disso, o Coupé é um carrinho bem acertado, encara as curvas com vontade, tem um ronco delicioso. A pedaleira justinha, que facilita ensaiar um punta-tacco e repicar as reduções. Tudo que se espera de um esportivo italiano.