Kiev, a capital da Ucrânia, se encontra mais uma vez no epicentro da cobiça internacional, com sua população dividida e lutando entre si. No último confronto, iniciado na manhã de terça-feira, pelo menos 26 pessoas foram mortas e 241 feridas. Entre os mortos estariam nove policiais que tentavam desocupar a Praça da Independência, tomada por milhares de opositores ao governo.

Situada na Europa Oriental, a Ucrânia está dividida entre os que querem que o país faça parte da União Europeia (UE) e os que desejam, como o presidente Viktor Yanukovych, maior aproximação com a Rússia, com a qual faz fronteira a leste. Por 69 anos, até 1991, o país integrou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

É um falso dilema, pois, sem dúvidas, o que interessa de fato aos ucranianos não é optar por um lado ou outro – muito menos de forma violenta – e sim procurar manter boas relações políticas e econômicas tanto com a União Europeia quanto com a Rússia. O dilema começou em novembro passado, quando o presidente da Ucrânia decidiu sem maiores explicações ao seu povo suspender as negociações para a associação na UE e estreitar as relações econômicas com a Rússia.

O porta-voz do Kremlin informou que o presidente Vladimir Putin conversou terça-feira à noite, por telefone, com o presidente da Ucrânia, mas sem dar conselhos sobre o que fazer ou deixar de fazer. Depois dessa conversa, Yanukovych teve um encontro com líderes da oposição. Em seguida, já de madrugada, fez um discurso, no qual acusou os manifestantes de defenderem uma luta armada. “Estes supostos políticos tentaram tomar o poder infringindo a Constituição por meio da violência e dos assassinatos”, denunciou.

Apesar da forte ofensiva das forças de segurança, com gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, e a resposta dos manifestantes, armados com pedras, bombas e coquetéis molotov, milhares de pessoas ainda permaneciam na manhã de ontem na Praça da Independência, ouvindo discursos de religiosos, artistas e políticos. “O governo desencadeou uma guerra contra o próprio povo”, afirmou um dos líderes do movimento, o ex-campeão de boxe Vitali Klitschko.

O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, declarou que a Ucrânia está sob a ameaça de uma guerra civil, com consequências para a segurança e a estabilidade de toda a região. E disse que pedirá à União Europeia que adote sanções contra Kiev. Em mensagem no Twitter, o ministro das Relações Exteriores da Suécia, outro país vizinho da Ucrânia, afirmou que a responsabilidade pelas mortes é de Yanukovych. Para o governo dos Estados Unidos, a violência registrada em Kiev é “totalmente ultrajante”.

Não há como discordar disso, independentemente de quem sejam os responsáveis por uma insanidade que, mais uma vez na história, derrama sangue na Europa.