TIRADENTES – Uma interface maior com a população para determinar os rumos da área cultural em Minas Gerais é a grande bandeira do governo de Romeu Zema para o setor. A maneira como será feita essa consulta ainda está sendo estudada, segundo o secretário-executivo Carlos Henrique Guedes, que confirmou o nome do jornalista Marcelo Matte, ex-diretor da Rede Globo Minas, para a futura Secretaria de Cultura e Turismo. 

Ao lado do vice-governador Paulo Brant, que ocupa interinamente a pasta de cultura, o coronel da reserva do Exército vem sendo o principal interlocutor com a classe artística. Especialista em Estratégia, ele acompanhou a abertura da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, na última sexta-feira, e adiantou algumas propostas para a área. 

Guedes usa o exemplo da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais como o modelo ideal de gestão cultural, destacando a participação da sociedade na direção do grupo. Nomes para a presidência da Fundação Clóvis Salgado, Rede Minas e Rádio Inconfidência só deverão sair após Matte assumir a secretaria, o que deverá acontecer num prazo de até 30 dias, já que ela ainda precisa ser criada dentro da reforma administrativa que Zema irá promover.

O senhor já foi adido militar do Brasil, por dois anos e meio, na Organização dos Estados Americanos (OEA), tratando de assuntos relativos à cultura. Como pretende usar essa bagagem na Secretaria Estadual de Cultura?
Sempre gostei muito dessa área. É apaixonante. Na verdade, estou de forma interina para ajudar o Paulo Brant. Nós vamos escolher um secretário da cultura mesmo, que vai ser “top de linha”.

Foi anunciado o nome de Marcelo Matte...
Marcelo é top, fantástico. Cabeça maravilhosa e uma história de vida muito bonita. Estou interinamente para cobrir esse espaço enquanto ele não chega, mas sem fazer feio. Por isso, a gente quer somar, fazer algumas coisas importantes e dar sequência para que a máquina possa desenrolar um trabalho positivo. E, quando ele chegar, já ter um trecho de estrada preparado.

Quanto tempo para ele assumir a pasta?
Acredito aí que mais um mês. Não sei. A data precisa normalmente é acertada com o próprio. Todos os secretários do novo governo passaram por um processo seletivo. Então, tivemos de três a cinco nomes levantados e depois a gente fez uma entrevista, uma conversa. Olhamos a parte curricular primeiramente, fizemos a pré-seleção e depois a entrevista. Não é aquela entrevista formal, mas sim mais interativa, em que verificamos se a perspectivas dele (do candidato) coincidem com as perspectivas do novo governo, que envolvem uma maior participação do município, uma maior intensidade naquilo que se refere à interface com o cidadão. É ouvir mais o cidadão. É uma pegada um pouquinho diferente, não digo que não é melhor nem pior que ninguém, para ver se a sociedade interage mais com a política. Na nossa concepção, a política ficou muito afastada dos anseios da população. Havia um projeto, mas de um grupo pequeno, que se instituiu ali. Em Minas Gerais, tivemos quase um clássico, de um lado um partido forte e, do outro, mais um partido forte. Nós viemos com uma proposta diferente. Nosso partido se chama Brasil, se chama Minas Gerais. A ideia é não ter dogma nenhum. O dogma nosso é não ter dogma, mas sim valores. Você tem que ter probidade administrativa, transparência no que faz e fala e cumprir. Aqui não prometi nada porque não sou eu quem irá cuidar do assunto. Para quê eu vou fazer promessa? Eu digo: está lindo e estou gostando muito. Mas falar que será feito isso e aquilo... calma. Vamos analisar a coisa, vamos discutir junto. Dá para fazer? Se o caminho não é bom e for preciso mudar, nós vamos.

Como esse ideário se aplica à cultura?
É muito legal, porque queremos uma cultura muito voltada para a interação com a sociedade. Tipo o modelo que é feito em nossa Orquestra Filarmônica, em que as pessoas opinam naquilo que ela irá fazer e elegem representantes para direcionar um caminho. Quer dizer, é valorizar mais a opinião do cidadão do que a do dirigente. Quem está sentado na cadeira vai gerir e não dirigir. Cite uma região do Brasil aí que você gosta...

Nordeste.

Então, a gente faria um filme sobre o Nordeste não mostrando as praias, pois a região não tem somente isso. Ela tem muito mais do que isso. Vamos ouvir primeiramente o que o nordestino quer falar do Nordeste. A nossa proposta para a cultura é muito voltada para a interação. Por isso o Marcelo tem um perfil bacana, com a bagagem que ele traz dos meios de comunicação, que é de interação com o povo. Com todo o respeito, é uma baita cara, que conhece esse meio. Então, a gente quer modernização, reorganização... uma reorganização de coisas que podem ser integradas. Por que não uma Empresa Mineira de Comunicação (integrada por Rede Minas e Rádio Inconfidência)? Isso já existe na lei, mas não está regulamentado. O que a gente quer é menos cacique e mais índio. Menos direção e mais organização. A gente entendeu que a cultura estava menos interativa. O que essas grandes plataformas digitais permitiram a nós, cidadãos? Permitiram-nos sair de um círculo fechado, trazendo coisas para o debate. Imagine, ainda usando o exemplo do filme, alguém do sertão dando uma contribuição?

Como se dará essa consulta à população?
Vamos construir isso. Não existe fórmula pronta. A gente não quer entregar uma fórmula e dizer para fazerem. Vamos discutir juntos. Alguém pode chegar para mim e dizer que isso não é possível. Quem criou a internet, o Facebook, sabia que seria possível antes?  Vai dar trabalho? Sim, muito. Quando se propõe uma modificação, você primeiro encontra uma certa resistência, porque é fácil estar colocando aquilo que já se conhece. Quando se abre o leque, tem que se reinventar, com ferramentas novas e mergulhar mais no sentido holístico. O Paulo Brant é um gênio da cultura e outro dia ele me disse: “Guedão, sabe o que imagino? Sair do círculo. Quero para a cultura uma terceira dimensão”. Fantástico! Fantástico! Ele me disse para ir pensando nisso na hora de passar a função para o Marcelo. E é isso que a gente está procurando fazer.

Há certos setores da cultura em Minas Gerais que demandam respostas urgentes.
Ótima pergunta! Aquelas coisas que são uma premissa para já, você tem que manter mais ou menos o que está. Porque você não pode matar de inanição uma coisa que considera fundamento básico. Matar de inanição, não! Até parece radical o que estamos propondo, mas não é essa a ideia. Vamos estabelecer uma nova etapa na medida que o tempo permitir.

Alguns destes organismos são a Rede Minas, a rádio Inconfidência e a Fundação Clóvis Salgado, principal produtor e difusor de cultura no Estado, que estão numa espécie de suspensão neste momento, sem um presidente.
A ideia nossa não é fazer suspense, mas, com toda transparência e franqueza, tenho que respeitar o secretário efetivo. Respeito a um empresário de renome, que vocês conhecem, e às escolhas que irá fazer. Seria muito fácil eu escolher. Mas eu sei o tamanho do meu sapato. Tenho muita humildade em dizer que estou fazendo uma transição. Minha parte é fazer a coisa fluir de uma forma equilibrada.

Estes cargos não serão preenchidos antes de um mês, portanto.
Não quero delimitar o tempo dele, para não pressioná-lo. Enquanto ele falar “Guedes, eu preciso de você aí”, ele vai contar comigo.

Pela sua fala, as nomeações não sairão antes de Marcelo Matte assumir, não é verdade?
Sim, é verdade. Essa é a minha opinião. Pode ser que o Paulo determine alguma coisa neste tempo, um ou outro nome. Mas tenho plena consciência que a maioria das pessoas que vão estar bem presentes no que cenário que o Marcelo for o diretor, ele que irá escolher os artistas. Até agora não defini ninguém chave. Fiz uma composição de pessoas que são importantes neste contexto, mas que ainda não estão nos cargos que permitam um direcionamento mais adequado.

Como se dará o enxugamento de recursos previsto por Zema dentro da área cultural?
O Marcelo tem que ver se a proposta é adequada para ele, pois a ideia é modernizar, trazer uma sinergia maior. Mas ele pode falar, com a experiência dele, se vale a pena juntar a Rede Minas e a rádio, por exemplo.

Há ações culturais e leis aprovadas no governo passado e previstas para este ano. Elas serão mantidas?
Vamos cumprir a legislação. Aquilo que está previsto, será cumprido. Tudo que a lei manda, estamos buscando cumprir na marca. Com muita dificuldade. Se você perguntar qual é a maior dificuldade hoje do novo governo, é o piso financeiro, porque a dívida lá atrás é muito grande. Tem que estancar a hemorragia, para depois começar a tratar o paciente. Com um detalhe: só com o médico que tem aqui dentro não resolve. A gente tem que buscar um médico chamado governo federal para dar um apoio para este paciente não morrer. Honestamente, a gente ainda está tomando pé de muita coisa.

A Mostra de Cinema de Tiradentes está sendo viabilizada com recursos de estatais mineiras. A ideia é manter essa forma de investimento na Cultura, por meio das leis de incentivo?
A mostra é maravilhosa, uma das coisas mais bonitas que já assisti. Entusiasmante para qualquer mineiro e brasileiro. Vamos valorizar a cultura, mas, claro, com as particularidades que o novo governo traz.

(*) Viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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