Menos de cinco dias após o lançamento oficial do clipe de seu novo hit "Verdinha", a cantora Ludmilla já causa polêmica e pode até acabar sendo investigada por apologia ao crime, pelo menos no que depender do deputado federal mineiro Cabo Junio Amaral (PSL). O parlamentar entrou com uma representação contra a funkeira na Polícia Federal (PF) e no Ministério Público Federal (MPF), além de requisitar uma moção de repúdio na Câmara dos Deputados. Apesar da música não citar em momento nenhum o nome maconha, segundo o parlamentar, a letra fala sobre plantar, vender e usar a droga. 

O videoclipe oficial da música foi lançado no último dia 29 de novembro e, desde então, já teve mais de 4,5 milhões de visualizações no Youtube. na gravalção, Ludmilla aparece andando entre uma plantação de alface, vestida como uma fazendeira, enquanto fuma um cigarro. Há também momentos em que várias pessoas aparecem rindo em meio a uma plantação "enfumaçada". Segundo a assessoria de imprensa da funkeira, a letra faz uma "brincadeira" em alusão ao dinheiro, usando a fumaça verde e notas de dólares para "provocar o imaginário do público, que se instiga pelo apelo visual".

Assista ao clipe: 

"Eu fiz um pé lá no meu quintal, tô vendendo a grama da verdinha a um real", "Vou tacar fogo em mais um só pra não ficar maluca" e "Fiquei locona, chapadona, só com a marola da ruhama" foram alguns dos trechos da canção citados pelo deputado para acusar a música de fazer apologia ao crime. Além da moção de repúdio na Câmara, o deputado também ajuizou uma notícia crime na PF e fez uma representação da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o MPF apure os fatos. 

"As pessoas famosas que exercem influência na sociedade e principalmente na formação de crianças e adolescentes, os chamados formadores de opinião e aqueles que têm algum tipo de exposição pública, por sua representatividade ou profissão, devem ter um elevado grau de responsabilidade em suas declarações e comportamentos. É extremamente prejudicial, especialmente à formação das crianças e dos adolescentes, a exibição pela mídia de entrevistas, declarações, filmes, novelas, músicas ou comerciais, difundindo a droga como algo positivo, charmoso e até inofensivo. Isso acaba reforçando a posição do dependente químico e estimulando pessoas que, de outra forma, não teriam disposição para experimentar um entorpecente", argumenta Junio do Amaral em sua moção de repúdio. 

No texto, apresentado no plenário na última segunda-feira (2), o parlamentar ainda afirma que o Código Penal prevê detenção de três a seis meses para quem fizer publicamente apologia a fato criminoso ou a autor de crime. "As pessoas famosas devem estar muito atentas ao problema da apologia ao consumo de drogas. A Lei 11.343/06 estabelece pena de um a três anos de prisão para quem: induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga", completa o deputado. 

Entretanto, em 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu de forma unânime - em um processo que tratava sobre a liberação das chamadas "marchas da maconha" -, que as prisões de pessoas por vestirem roupas com estampas de folha da maconha e por defenderem a legalização da droga iriam de encontro ao princípio constitucional da liberdade de expressão.

"Defender a descriminalização de certas condutas, previstas em lei como crime, não é fazer apologia de fato criminoso ou de autor de crime. Igualmente não configura o crime desse artigo 287 [fazer publicamente apologia a crime], a conduta daquele que usa camiseta com a estampa da folha da maconha, pois seria inócua a caracterizar o crime por estar abrangida na garantia constitucional da liberdade de manifestação de pensamento”, afirmou o ministro Celso de Mello na ocasião. 

Assessoria da cantora nega qualquer apologia

Procurada pela reportagem do Hoje em Dia nesta terça-feira (3), a assessoria de Ludmilla negou qualquer apologia ao crime. "Ludmilla não está fazendo nenhuma apologia ao crime, isso não existe. Todas as mensagens que ela deseja passar com a música e clipe foram divulgadas publicamente", argumenta. 

No release de lançamento a cantora afirma que a música visa enaltecer "a liberdade de escolha e a quebra de rótulos", além de retratar a "história de uma jovem cheia de liberdade, acima de tudo, e que, com esforço e trabalho, sustenta a casa e é independente". 

"O clipe também possui cores em verde e traz para elementos de storyboard uma enorme plantação de alface, onde Ludmilla surge como fazendeira, dona majoritária, poderosa e totalmente empoderada. Com referências no videoclipe de Rihanna, Pour It Up, a produção é assinada pelo diretor João Monteiro, da Umana Filmes", completa a assessoria da funkeira. 

“Verdinha é uma música que eu adoro e tenho imenso carinho. Ela fecha esse ano, que foi um dos melhores da minha vida, com muita dança e animação. Espero que meus fãs e o público que me acompanha gostem”, comentou Ludmilla sobre o novo hit. 

Atualmente Ludmilla possuí mais de 6 milhões de ouvintes mensais só no Spotify, e mais de 19 milhões de seguidores no Instagram. 

Mini-Entrevista

Em entrevista ao Hoje em Dia nesta terça-feira, o deputado Cabo Junio Amaral falou sobre os motivos para apresentar a moção de repúdio e pedidos de apuração contra a funkeira. Confira: 

Hoje em Dia (HD): Como você acredita que essa música pode prejudicar a sociedade?

Cabo Junio (CB): A música prejudica a sociedade no momento mesmo que constitui um crime, no caso, apologia a fato criminoso (uso e tráfico de drogas) previsto no artigo 287 do Código Penal. 

HD: A letra em momento algum cita a droga diretamente, pelo nome. Você não acha que ela só será compreendida por quem já é usuário ou convive com o meio, como policiais? Ou você acredita que uma criança ou adolescente conseguiria entender o contexto? 

CB: "O Barbudo corrupto, dono do triplex do Guarujá, mandou matar Celso Daniel." Não citei o nome, mas todos sabem de quem estou falando, até crianças e adolescentes com compreenção mínima de atualidade. Acreditar que nesta letra, principalmente vinculada às imagens do clipe, as pessoas entenderão algo diverso de MACONHA, é chamar tais pessoas de idiotas. 

HD: Em 2011 o STF entendeu que falar sobre maconha, usar itens com estampa da folha e defender a sua legalização (como na marcha da maconha) não são considerados apologia ao crime. Você acredita que a cantora poderá ser penalizada por cantar essa música?

CB: Não apenas acredito como espero, por uma questão de justiça e responsabilidade do Estado, que seja exatamente isso o que aconteça. Relativizar tais mensagens é colaborar com a perversão da nossa juventude e degradação dos nossos valores. Embora o STF tenha decisão no sentido de não se criminalizar a marcha da maconha, aqui a questão é diferente. É possível a liberdade de expressão a favor e contra o consumo de drogas. O que não se pode admitir é uma música que estimula claramente o plantio, a comercialização e o consumo de drogas, condutas essas consideradas crimes no nosso ordenamento jurídico. 

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