TIRADENTES – Pouco depois da eleição do ex-presidente Lula, a cineasta mineira Beth Formaggini participou da realização do documentário “Peões” (2004), de Eduardo Coutinho, que enfoca o passado de líder sindical do político ao colher depoimentos de metalúrgicos que participaram, no final da década de 1970, do movimento grevista na região do ABC paulista. Num formato muito semelhante, ela lança agora “Empate”, sobre a luta de três décadas dos seringueiros contra o desmatamento no Acre.

“O filme foi atropelado pelo presente. Neste momento, os seringueiros estão novamente se rearticulando devido às ameaças de fazendeiros”, afirma a roteirista nascida em Montes Claros, no Norte de Minas, que fez a estreia do novo longa-metragem na 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, na cidade histórica, na noite do último sábado. “Empate” seria o registro de uma época, mas ganhou um ingrediente atual, ao presenciar a reativação do movimento dos seringueiros devido à situação política.

Os dois documentários parecem demarcar o início e o fim da passagem do Partido dos Trabalhadores (PT) no governo federal. Em “Peões”, exibindo a vitória daqueles metalúrgicos ao enfrentarem a ditadura militar em greves que estenderam por vários dias. “A greve enfiou uma cunha na parede da ditadura, transformando aquele cenário”, salienta Beth Formaggini. “Empate”, por sua vez, mostra a necessidade novamente deste tipo de movimento, a partir de um retrocesso.

Estatísticas

Em um ano, o desmatamento aumentou 629% no Acre, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente na Amazônia, somando 51 quilômetros quadrados. Os momentos finais do filme também exibem números e relatos preocupantes. “De ‘governo da floresta’, slogan da gestão anterior, exibindo um modelo de gestão sustentável para o mundo, passamos a ter o ‘governo da soja’”, lamenta o diretor Sérgio de Carvalho, também presente à exibição.

Carvalho observa que o projeto nasceu como um filme de memórias sobre a luta encabeçada por Chico Mendes à frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, no Acre, cujo assassinato em 1988 teve repercussão internacional. Logo na primeira reunião de seringueiros filmada pela equipe, a palavra “empate” veio à tona e mudou os rumos da obra. Esse era o termo usado para impedir o avanço dos cortadores de árvores, usando o próprio corpo como barreira.

“Uma amiga minha me disse que o filme só tem dois atos. E que o terceiro está por vir. O problema é que os movimentos sociais se desarticularam e agora veio a porrada”, assinala o diretor. Para a roteirista Beth Formaggini, o documentário exibe uma pequena área de estudo do que está acontecendo no Brasil, com muita divisão das esquerdas. “É preciso pensar uma forma de se organizarem de novo. Não se trata de um filme militante que dá todas as respostas. Ele gera mais perguntas do que respostas”, pondera.

(*) Viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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