“Uma escola tem como missão, como projeto de ensino, formar cidadãos; e não criar gado”. Foi assim que o ator Gregorio Duvivier reagiu à polêmica envolvendo uma crônica escrita por ele e usada num teste de Português aplicado no segundo ano do ensino médio do Colégio Loyola, em que o teor crítico ao governo de Jair Bolsonaro provocou o pedido de cancelamento da prova por um grupo de pais de alunos, aceito pela direção da instituição jesuíta, localizada na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

“Acho lamentável o que aconteceu. Reclamar de professor é algo habitual, toda escola já viveu isso. O que não é habitual é se dobrar à pressão e à insatisfação dos pais em relação ao conteúdo dado em sala de aula. Uma escola não pode aceitar que (seu programa de ensino) seja a la carte, que um pai diga que seu filho não irá aprender sobre Marx ou Revolução Industrial. Não é igual restaurante, em que você pode escolher o ponto da carne”, observa Duvivier, em entrevista ao Hoje em Dia.

O ator, que estará em Belo Horizonte nos dias 1 e 2 de novembro para a apresentação de sua peça “Sísifo”, no teatro Sesiminas, assinala que seus textos já foram utilizados em várias provas de vestibular, citando a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF). “Nunca tinham cancelado, em lugar nenhum. A crônica é muito usada neste tipo de prova, porque, num texto curto, ela faz a leitura da sociedade”, destaca o comediante do “Porta dos Fundos”. O artista falou sobre o assunto em sua conta do Twitter.

 

 

Duvivier viu como um sinal muito positivo o fato de, em seguida à anulação, uma nota de repúdio, assinada por 450 alunos e ex-alunos, foi divulgada contra a decisão do colégio. “Mostra que esse tipo de coisa não passa impune e que há alunos e ex-alunos críticos e questionadores. Num momento em que vemos restrições à liberdade no país, é importante ter uma reação como essa, grande e rápida”, destaca o ator, que diz não estar ansioso com a forma como será recebido na capital.

“Sempre fui muito bem recebido em Belo Horizonte. Tenho família e amigos aí. É uma cidade que sempre foi efervescente culturalmente, com muitos artistas e intelectuais, além de um pensamento progressista muito forte. Apesar da Tradicional Família Mineira, BH representou resistência e questionamento”, afirma. A peça, escrita por Vinicius Calderoni, fala do mito grego de Sísifo, homem que foi punido pelos deuses a, diariamente, subir uma pedra até o topo de uma montanha e depois vê-la voltar ao ponto de partida.

A comparação com o Brasil atual é bem clara, ao falar de um país que vive um eterno movimento cíclico. “A gente constrói e depois destrói, ergue uma barreira que mais tarde acabará com tudo. Há um livro do professor (e cientista político) Leonardo Avritzer, da UFMG, chamado ‘O Pêndulo da Democracia”, que fala da relação conflitante da classe média com o progresso, muito comprometida com a desigualdade e com outros tipos de problemas”, analisa Duvivier.

A escola

O diretor do Loyola, Carlos Freitas, explica que a decisão em anular a prova foi baseada numa orientação do Ministério da Educação (MEC), a respeito dos chamados “temas transversais”. Lembra que, em 2018, os próprios professores criaram um documento sobre essa abordagem, estabelecendo que, no caso de usar um texto que defendesse uma posição política qualquer, deveria haver outro, com posição contrária. Segundo ele, a professora que redigiu a prova não receberá nenhum tipo de retaliação ou punição.