Henry Vargas se esforça para buscar na mente o primeiro truque que fez na vida. Protagonista, ao lado do sócio Klauss Durães, do programa “Ilusões de Risco”, do Fantástico, ele só se lembra de sua maior inspiração – o americano David Copperfield – e do arco que o levou a ser um dos grandes ilusionistas do momento, na busca por um trabalho conectado com o público.

“A gente usava pombos e coelhos, antes de haver essa cultura de direitos dos animais, que a gente respeita muito. Hoje tudo virou digital. O tablet e a tela de LED viraram nosso objeto de trabalho”, registra o ilusionista mineiro, há cinco anos residindo em São Paulo. Para ele, a atividade passa, primeiramente, pelo entendimento de como fazê-la chegar ao grande público.

“Esses espectadores são exigentes, rápidos, conectados e tecnológicos. Nosso trabalho é ver onde a mágica pode estar no mundo atual”, afirma. 
Na carona do sucesso do programa, a dupla já planeja uma turnê pelo país, a partir de janeiro, em que se valerá de recursos modernos como hologramas, realidade aumentada e virtual. “Esse é o nosso diferencial, sempre trazendo um pensamento inovador”.

Henry Vargas e Klauss Durães são mineiros, têm 29 anos e são sócios da empresa Ilusion, que começou com uma sala e um escritório em Belo Horizonte e hoje está localizada em São Paulo

'Expectadores são exigentes, rápidos e conectados', diz ilusionista mineiro Henry Vargas

Vocês definem a mágica que praticam como ilusionismo moderno. O que vem a ser isso exatamente?

O moderno não é apenas pelo uso de tecnologia que a gente trouxe para a mágica, mas também uma perspectiva de linguagem, na maneira como a gente a leva para o público. Sempre gosto de lembrar que, na França do século 19, um cara chamado Robert Rodan tirou a mágica das ruas para tirar aquele sentido de algo trapaceiro, de enganação. Para levá-la a um outro nível, Rodan vestiu uma cartola, um fraque e colocou uma varinha na mão, porque esse era o traje das pessoas quando iam ao teatro. Acabou se tornando um traje clássico da mágica, no intuito de aproximá-la do público. Com o ilusionismo moderno, a gente está aproximando, mais uma vez, a mágica do público. Trata-se de uma linguagem rápida, técnica, inovadora, jovem e moderna. Há toda essa pesquisa de estilo, linguagem e tecnologia envolvida na construção de tudo que a gente faz.

Como esses elementos chegaram até vocês?
A gente já trabalhou muito fora do país, em diversas turnês, na China e nos Estados Unidos. Vimos que já havia esse movimento de transformação e renovação do ilusionismo. No Brasil, a gente foi pioneiro no uso de hologramas, realidade aumentada e virtual.

Antes do quadro do “Fantástico”, o grande momento de vocês aconteceu com o recorde mundial de levitação, na avenida Paulista, em São Paulo?
Foi mais uma tentativa de levar essa cultura do novo ilusionismo, para mostrar que ele pode estar na rua, no ambiente público ou próximo das pessoas. Esse foi o sentido do recorde mundial. Depois do recorde, veio o convite para a gente desenvolver uma série original e exclusiva para o “Fantástico”.

Justamente no programa dominical que apareceu o Mr. M, que garantiu boa audiência ao mostrar os segredos da mágica. Isso acaba tirando a aura misteriosa do ilusionismo, não é verdade?
A mágica não é um jogo de perder ou ganhar, descobrir ou não. É a mesma sensação de quando você vai ao cinema para assistir a um filme de Superman, em que você não ficará pensando que o herói não tem os poderes que ele está me mostrando. É óbvio que não tem, mas, independentemente do que é verdadeiro ou não, o seu sentimento será sempre autêntico. A mágica está muito mais ligada ao sentimento e a gente preza muito por isso, até porque acreditamos que essa cultura de revelação banaliza a arte. Algo que a produção do “Fantástico” muito sabiamente comprou junto com a gente. Estamos trazendo um quadro que conta a história do ilusionismo e seus desafios. É uma perspectiva diferente em relação à forma como a mágica começou no programa, mostrando que ela sempre traz imaginação e encantamento.

Com mais de 12 anos de carreira, a dupla coleciona prêmios nacionais e internacionais, além de um recorde mundial por terem levitado por mais de quatro horas na avenida mais movimentada de São Paulo: a Paulista

Há diferença entre os conceitos de mágica e ilusionismo?
Basicamente é a diferença de seis para meia dúzia. Algumas pessoas vão falar seis e outras, meia dúzia. Historicamente, a mágica ficou um pouco conhecida, como eles chamavam na França, como a arte do prestidigitador, aquela que exige habilidade manual e que seria uma coisa menor, valendo-se de cartas e materiais pequenos. O ilusionismo é um termo que vem desde Robert Rodan, com a figura de um mágico em um cabaré, em grandes espetáculos. Na verdade, é uma distinção histórica mais marqueteira do que técnica, vamos dizer assim. No fundo e em essência, são a mesma coisa.

O ilusionismo pode ser perigoso para quem o pratica?
Sim, especialmente o que a gente fez para o “Fantástico” envolvia um certo risco. Mas são riscos calculados, que têm um treinamento envolvido. Tem muito ali a construção de um risco de barreiras psicológicas. Imagine que, ao ficar levitando por quatro anos, na mesma posição, a dor é inevitável. Quando fizemos o desafio da água no primeiro episódio, na primeira vez que entrei num tanque fechado, sem respirar, é apavorante. Os primeiros minutos trazem uma sensação agonizante, de que realmente você vai morrer nos próximos segundos. Mas fizemos um grande treinamento por vários meses, de forma a tornar essas sensações psicologicamente naturais para nós. O episódio deste domingo (ontem) também foi um outro caos para gravar, com duas toneladas de terra caindo sobre a gente. A poeira vai para as vias nasais e para o olho e você começa a tossir. São riscos reais que a gente correu, que foram calculados para que não ocorressem acidentes como já aconteceu com diversos ilusionistas, que já quase morreram afogados ou enterrados vivos. Não há como controlar o tamanho de uma faísca de fogo, que pode muito rapidamente tomar uma proporção que, às vezes, você não estava contando. 

Como começou o interesse de vocês pelo ilusionismo?
Eu e o Klauss começamos bem cedo. No meu caso, (a vontade se deu) após assistir os especiais do “Fantástico” com David Copperfield. A gente se conhecia de uma associação de mágicos em Minas Gerais e ficamos mais próximos em festivais de mágica fora do país. Decidimos unir forças e nos tornamos sócios, no intuito de construir uma cultura de valorização da mágica juntos. Fomos vendo como unir os shows, como poderíamos nos complementar, entendendo o estilo de cada um nessa jornada. Ao longo do tempo fomos construindo o que é hoje Henry & Klauss.

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