Já em cartaz nos cinemas, 'Annette' é um musical bizarro

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
24/12/2021 às 09:01.
Atualizado em 29/12/2021 às 00:36
 (Mubi/Divulgação)

(Mubi/Divulgação)

O cinema de Leo Carax é inclassificável, marcante em sua diversidade e crítica abrangente à sociedade moderna. Em “Annette”, já em cartaz nos cinemas, o realizador francês parte para o musical, montando uma narrativa que nada tem a ver com os finais felizes dos principais filmes do gênero.

Muito pelo contrário. O filme é uma descida aos infernos, culminando com uma constatação dura de uma pequena garota sobre o sentido da vida. É uma cena emblemática sobre o alvo de Carax: a família. Não se trata aqui de discorrer sobre a árvore genealógica, mas sim focar no trio pai, mãe e filha.

Há um grande desequilíbrio na relação entre Henry (Adam Driver, um dos melhores atores da atualidade) e Anne (Marion Cotillard). Os dois são famosos, um como comediante de stand-up e a outra como cantora de ópera. A competição de egos põe a perder a imagem de casal 20.

Seria fácil definir Henry como vilão e peça-chave para a desestruturação familiar. Sua composição, porém, é bastante palpável e, de certa forma, incômoda. Apesar das decisões equivocadas, nutre-se uma esperança de que a trama faça um giro de 180 graus, reforçada pela musicalidade.

Entre as bizarrices que Carax já levou para as telas (“Holly Motors”, em especial), “Annette” só carrega uma: a filha surge como um boneco de manipulação. Ela é uma observadora silenciosa de todos acontecimentos, usada pelo pai como salvação financeira por conta dos dons vocais.

No campo musical, “Annette” não se esforça em fazer uma seleção cuidadosa dos momentos em que o elenco solta a voz. Empilha-se uma cena musical atrás da outra, em instantes que parecem até mesmo desnecessários, como no meio de uma tormenta no mar ou sexo oral.

Estranheza

Mais do que melódico, o filme se torna ruidoso e desarmônico. Não deixa de ser irônico que, ao final (na verdade, nas cenas pós-créditos), surge uma cena bonitinha dirigida ao público, desejando boa noite e um feliz retorno para casa e aconselhando não falar com estranhos.

A estranheza, no universo de Carax, é a tônica, evidente na primeira cena, em que ouvimos a voz do próprio diretor explicando que não se deve aplaudir, rir, tossir ou peidar ao longo da narrativa. Muito menos, respirar. Para ele, o melhor caminho é prender a respiração.

“Annette” é uma obra contra o machismo sem ser feminista. As mulheres não têm grandes papéis, embora Marion esteja bem, tendo sido indicada ao Globo de Ouro de 2022 de melhor atriz em comédia ou musical. A crítica se dá pelo excesso – da palavra, da cantoria.

Símbolo dessa ideia, Adam Driver se entrega à musicalidade imoral do personagem, com componentes que vão da provocação à afetação, passando pelo sombrio. É como se Kilo Ren, seu personagem em “Star Wars”, despejasse a raiva não no sabre de luz, mas sim num karaokê.

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