REVENDAS NO SUFOCO

Botijão de gás acima de R$ 100 afugenta clientes e ‘come’ o lucro, relatam depósitos

Hermano Chiodi
primeiroplano@hojeemdia.com.br
03/02/2022 às 06:30.
Atualizado em 03/02/2022 às 06:40
Athos Pinho, dono de um depósito de gás em BH, se queixa da queda nas vendas: "o lucro tá sumindo" (Lucas Prates)

Athos Pinho, dono de um depósito de gás em BH, se queixa da queda nas vendas: "o lucro tá sumindo" (Lucas Prates)

Com alta de 36,99% em 2021, o gás de cozinha deve permanecer este ano como um dos vilões no orçamento doméstico. A previsão é da Associação Brasileira de Revendedores de Gás Liquefeito de Petróleo (Asmirg). Segundo Alexandre Borjaili, representante da entidade em Minas Gerais, não há, da parte das revendas, qualquer expectativa de estabilidade e muito menos redução nos preços. “Não há luz no fim do túnel, os aumentos devem continuar”, afirma.

Em Minas Gerais, de acordo com a Petrobras, o botijão de 13 kg já é vendido em média a R$ 105. Se o preço subir no mesmo patamar do ano passado, de 37%, conforme levantamento do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), isso resultaria em um botijão custando R$ 143 no final do ano. Seria o equivalente a 11% do valor do salário mínimo vigente, de R$ 1.212.

Borjaili aponta a política de preços do governo federal como principal responsável pelos aumentos sucessivos e acima da inflação oficial, que, no caso de 2021, fechou em 10,06% pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE. “O governo federal está perdido, pois não conhece o setor. Já a agência reguladora é conivente com a política adotada pela Petrobras”, dispara Borjali, referindo-se à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Para outro representante do setor, José Luiz Rocha, da Associação Brasileira de Entidades de Classe de Revendas de GLP (Abragas), a razão dos aumentos é complexa e envolve até mesmo o consumo internacional e a disparada no valor do dólar. “Não haverá meios para controlar os preços a não ser com intervenção do governo federal na política de preços, o que seria contra as regras de livre mercado”, disse. Ou seja, o mais provável, diz ele, é que os preços devem continuar subindo.

Nos depósitos de gás de Belo Horizonte, a queixa é geral. Athos Pinho, que tem uma revenda na região Oeste de Belo Horizonte, diz que, por causa do preço elevado, as vendas caíram demais e o lucro foi junto. “Quando o preço do gás sobe, a dona de casa deixa de fazer um bolo, um assado ou qualquer outra coisa que utilize o forno. Isso diminui o consumo e tem impacto nas vendas”, argumenta.

Para Izabel Paiva, que também trabalha no setor de revenda e distribuição de gás, nem mesmo estratégias de fidelização dos clientes conseguiram reduzir o volume de botijões vendidos. “A gente está numa concorrência de preço, tendo que negociar, baixar preço para não perder o cliente”.

Em defesa dos revendedores, a Abragás explica que eles são o último elo da cadeia, onde o botijão já chega com os aumentos aplicados e não há meios para que evitar que sejam repassados. “Se não o fizerem, quebram e fecham suas portas”, resume José Luiz Rocha.

Assim, diz José Luiz Rocha, as revendas acabam levando injustamente a fama de serem as responsáveis pelo aumento no preço. “O que não é verdade! O segmento revendedor é tão competitivo que muitos têm dificuldades de compor seus preços e, com o tempo, acabam fechando suas portas”, conta.

Auxílio Gás
Para diminuir o impacto da escalada do gás de cozinha, o governo federal criou o Auxílio-Gás, um programa do Ministério da Cidadania que paga um auxílio referente à metade do valor médio de venda do gás no país. Pelo preço médio atual, corresponde a aproximadamente R$ 52,50. Mas nem todos podem requerer o benefício. Para participar, é preciso estar inscrito no CadÚnico e receber renda familiar mensal igual ou menor a meio salário mínimo. 

A entrada no programa é automática. A cada dois meses, são selecionadas famílias para receber o benefício. Não é necessário nenhum cadastro específico, basta estar inscrito no CadÚnico. 

A Asmirg questiona a finalidade desse auxílio. Isso porque, de acordo com Alexandre Borjaili, presidente da entidade, o Auxílio é destinado às famílias com muitas dificuldades econômicas, que não têm recursos para completar o valor do botijão. “O valor pago equivale a meio botijão, e a outra metade a pessoa não vai ter como pagar”, detalha.

Além disso, Alexandre Borjaili destaca que “a pessoa vai ter um valor para comprar gás, mas ela não tem alimento. Ele vai comprar comida e cozinhar com lenha ou outra coisa. E essas pessoas estão certas”.

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