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Mineira Andréia Horta, sucesso em telas e palcos, fala sobre carreira e 'O País do Cinema'

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
07/02/2022 às 09:03.
Atualizado em 08/02/2022 às 15:17

Andréia Horta saiu nova de Juiz de Fora. Foi estudar Artes Cênicas em São Paulo, trabalhando com o celebrado Teatro da Vertigem no início da carreira. Depois enveredou pela TV e, no cinema, viveu o seu maior desafio até agora, ao dar vida à cantora Elis Regina. O papel lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado, em 2016.


Está atualmente no ar com a novela “Um Lugar ao Sol”, na Rede Globo, mas o cinema brasileiro está nas veias de Andréia Horta. Mesmo quando a produção sofre com falta de apoio estatal e a paralisação provocada pela pandemia, essa mineira de 38 anos nascida na Zona da Mata não deixa de “fazer cinema”.

Em sua sexta temporada no Canal Brasil (TV por assinatura), o programa “O País do Cinema” irá ao ar todas as quintas-feiras, à meia-noite, com reprises no sábado, às 13h, e na quarta, às 7h

Em “O País do Cinema”, programa que estreou a sexta temporada na última quinta-feira, no Canal Brasil, Andréia dedica-se a discutir alguns filmes que a ajudaram a colocar a nossa cinematografia no topo. Há quatro anos, ela não só apresenta a atração como também faz questão de participar de todas as etapas da realização.

“É muito enriquecedor conhecer o processo criativo de cada um”, afirma Andréia ao Hoje em Dia. Fora do palco e das telas, ela vivenciou uma reconexão afetiva durante a pandemia, ao se mudar para Juiz de Fora. Memórias de infância e adolescência foram reativadas, como o sotaque e a musicalidade dos mineiros.

Num momento de grandes dificuldades à produção cinematográfica, como é reforçar a importância do cinema brasileiro em mais uma temporada do programa “O País do Cinema”?


Sinto que é uma responsabilidade ao ganhar essa voz no programa. Participo desde a criação dos roteiros até a edição final, deixando-me completamente mergulhada. Dedico o meu coração inteiro a ele. Ao conversar com tantos realizadores do cinema brasileiro, como pessoas do elenco a diretores de fotografia, temos uma perspectiva de vários ângulos sobre a realização de um filme. É uma produção nossa, que retrata nossa cultura e questões. Por tudo isso, é da mais alta importância manter esse programa no ar, mesmo que eu precise dar um jeito na minha agenda. É muito enriquecedor conhecer o processo criativo de cada um.



Você já via muito filme brasileiro antes de comandar o programa? Qual era a sua relação com o cinema em Juiz de Fora?

Infelizmente, eu não tinha dinheiro para ir ao cinema, quando era criança e adolescente. Passava em frente ao extinto cinema Palace, no calçadão da rua Halfeld e ficava ali babando, com vontade de poder entrar e assistir aos filmes. Com 14 anos, quando comecei a trabalhar e ter o meu próprio salário, eu sempre ia ver que filme me interessava no sábado. Tudo que tinha de filme brasileiro ali eu via. Aí virou uma paixão, uma mágica, em que várias artes estão misturadas em uma só. É muito poderoso e luminoso quando vejo um filme sendo transportada para um outro lugar.

Como surgiu o interesse em ser atriz?

Desde os quatro, cinco anos, quando via TV, eu dizia que gostaria de estar ali. Aos seis, subi ao palco pela primeira vez, para participar de uma peça. Dois anos depois já dizia que queria fazer teatro e passei a fazer cursos nos finais de semana. Tudo que se relacionava a teatro na escola eu me envolvia. Estava sempre em algum grupo. Mesmo adolescente, ainda em Juiz de Fora, já viajava com a companhia. Nunca mais parei de fazer teatro. Continuo trabalhando sempre.

Boa parte de seus papéis, pelo menos no cinema, é de mulheres fortes, que pagam um determinado preço por suas escolhas. É uma opção consciente?

Que legal ouvir essa pergunta e saber que você pensa isso sobre as minhas personagens. Não é uma escolha consciente, não. Eu me guio por onde vai o meu coração. Sou honesta com ele. Quando leio um roteiro, eu me pergunto se eu preciso, quero e acho importante dizer aquilo, colocando aquelas cenas e palavras no mundo, por meio do meu corpo e minha voz. Quando a resposta é sim, eu não titubeio e vou nessa. Mas essa questão que você levanta não é uma pauta minha. Vou aonde o meu coração bate.

Interpretar Elis Regina representou um ponto de virada importante em sua carreira. Como foi o desafio de interpretar a Pimentinha?

Interpretar a Elis foi um dos maiores desafios da minha carreira até agora. Primeiro, porque é a Elis Regina. Segundo, porque ela é uma figura muitíssimo viva na memória de todas as pessoas que a conheceram e a viram cantar. É uma figura muito importante no imaginário brasileiro. A maior cantora desse país, com uma capacidade técnica e interpretação muito profunda de cada palavra. Tinha voz límpida e poderosa. Para mim, representou um desafio em todos os níveis, artístico e pessoal. Eu aprendi muito nesse processo. Me sentia crescendo na sala de ensaio, como mulher e como artista, ao estar dançando com a energia dela e contando a vida dela. Sem dúvida, foi um trabalho que me fez evoluir muito em todos os níveis.

Outro personagem forte foi a Mariana no filme de Sergio Rezende, filmado em Brumadinho. Como foi filmar no local de uma tragédia recente, a partir de um roteiro que fala sobre reconstrução?

Filmar em Minas Gerais é sempre diferente e mais especial. Estar na terra natal tem uma coisa brilhante e fundamental que se acende. Sim, Brumadinho tem as marcas do que a cidade passou. A história de reconstrução é um pouco o destino do Brasil, né? A nossa história é fundada numa tragédia, num desrespeito absoluto à cultura dos nossos povos originários. São inúmeras tribos indígenas que foram “roubadas” da gente. A gente precisa urgentemente reconstruir tudo isso em todos os níveis. Após períodos tão escuros, como esse que estamos vivendo agora, a gente sempre precisa trabalhar na direção de uma reconstrução.
 

Nesta quinta, Andréia Horta conversa com o diretor Allan Deberton e a atriz Marcélia Cartaxo sobre o filme cearense “Pacarrete”, ganhador do Festival de Gramado de 2019

 Você cumpriu boa parte do isolamento devido à Covid em Minas Gerais. O que esse momento representou para você?
 

Eu saí de Juiz de Fora com 17 anos para fazer Artes Cênicas em São Paulo. Nunca mais tinha morado em Minas Gerais. Só ia para passar alguns dias, principalmente nas férias e no Natal. Morar por vários meses foi a primeira vez desde que tinha ido embora. Foi muito importante, um “religare” com a minha essência mineira. Muitas memórias de infância e adolescência foram reativadas, como o cheiro, o tempo, o silêncio, a poesia natural da fala, que sempre me comoveu muito, a musicalidade e o modo de viver e pensar do mineiro.

Você não ficou parada e participou de vários projetos, como a novela “Um Lugar ao Sol”, que foi inteiramente gravada. Como foi essa experiência?


Eu realmente não fiquei parada. Logo que se decretou o isolamento, me reuni com Bianca Comparato, Mariana Ximenes e Débora Falabella e criamos o “Cara Palavra”, que culminou num espetáculo online. Trabalhei muito, fiz a novela e muitos cursos.

“A Araci criou os filhos com muita dificuldade financeira, passando por muita coisa. Foi uma mãe muito forte e presente na vida deles”, registra Andréia, sobre o seu papel como mãe de Chitãozinho e Xororó na série produzida para a GloboPlay
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