A explosão de casos da Covid-19 evidencia, entre outros problemas, a falta de profissionais da linha de frente para acolher os milhares de pacientes internados nos hospitais. Só durante a pandemia, 74 chamamentos públicos para contratações emergenciais de médicos foram abertos pela Fundação Hospitalar do de Minas Gerais (Fhemig). No entanto, 14 editais “deram deserto”, ou seja, sem interessados.

Falta de mão de obra qualificada, desvalorização dos especialistas e afastamento dos que já estão na linha de frente ajudam a explicar o déficit. Além deles, grande parte das vagas disponibilizadas para enfermeiros, técnicos em enfermagem e fisioterapeutas não foram preenchidas. 

Em Belo Horizonte, a necessidade maior é por intensivistas para atuarem nas UTIs. “Como aumentou muito o número de casos, a equipe fica pequena para atender todo mundo”, afirmou a presidente do Conselho Municipal de Saúde, Carla Anunciatta. 

O infectologista Carlos Starling, membro do Comitê de Enfrentamento à Covid da capital, lembra que a formação dos profissionais pode demorar até seis anos após a conclusão do curso. Ele diz que os salários são baixos, o que piora a situação em um momento tão grave.

“Trabalhar mais, ganhar o mesmo, se expor a uma infecção e, eventualmente, morrer dela. Agora a situação melhorou um pouco por causa da vacina, pelo menos deu para reduzir um o risco de infecção grave e morte”, avaliou.

Starling reforça que enfermeiros e fisioterapeutas respiratórios são indispensáveis. “São especialidades que, ao longo do tempo, foram sendo muito mal pagas, pouco valorizadas”. Ele ainda diz que depois de um ano de pandemia, muita gente que adoeceu desenvolveu uma síndrome pós-Covid, que gera uma grande fadiga, prejudicando o trabalho.

Apesar das tentativas de contratação, o médico avalia que o déficit ainda vai durar algum tempo, já que a doença está avançando em grande velocidade, principalmente por conta das novas cepas. “É uma necessidade urgente e que vai perdurar por muito tempo. Essa situação não vai parar agora”.

Superintendente da Associação e Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Casas de Saúde, Wesley Marques diz que muitos dos trabalhadores foram afastados após contraírem Covid ou por conviver com familiares infectados.
 
Segundo Leonan Felipe dos Santos, diretor de Gestão de Pessoas da Fhemig, o contexto sem precedentes causa um grande desgaste nos profissionais. Porém, ele afirmou que a demanda consegue ser suprida. “Os afastamentos são previstos e, tendo em vista o porte da rede, são absorvidos internamente, com substituições e remanejamentos entre as unidades e setores”.

O gestor garante, no entanto, que para viabilizar a manutenção dos leitos já habilitados em hospitais com grande rotatividade de profissionais, ocorrem publicações, quando necessário, de novos editais. Na última quinta-feira, por exemplo, o Estado anunciou vagas no Hospital João XXIII e na Maternidade Odete Valadares.

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