O número de vítimas de acidentes de trânsito provocados por motos mais que dobrou em Minas em dez anos. As indenizações a motociclistas, garupeiros, pedestres e outros motoristas envolvidos nas ocorrências aumentaram 163%, de 2009 a 2018. Nesse período foram mais de 328 mil sinistros. O estado é o terceiro com a maior quantidade de apólices pagas, atrás de São Paulo e Ceará. Infrações, pressa e aumento da frota e da oferta de entregas por meio de aplicativos são apontados por especialistas como fatores que validam a estatística.

Os dados fazem parte do Relatório Motocicletas e Ciclomotores – 10 anos, divulgado nesta quarta-feira (28) pela Seguradora Líder, responsável pelo pagamento do Seguro DPVAT. O benefício é oferecido a todas as pessoas e cobre situações de morte e invalidez, assim como ajuda com despesas médicas. O ressarcimento pode chegar a R$ 13,5 mil.

De acordo com o documento, Minas registrou aumento em indenizações pagas por sequelas permanentes (248%) e reembolso por custos hospitalares (110%). Em uma década, porém, houve queda nas mortes (-3%). No mesmo período, a frota de motos cresceu 69%.

Só em 2018, 1.586 famílias mineiras receberam indenizações por morte no trânsito; o número engloba vítimas envolvidas em acidentes com motos

Atenção

Apesar de o relatório não trazer dados regionalizados sobre o perfil das vítimas, a maior parte é formada por homens, de 20 a 39 anos, que estão na chamada “fase produtiva”. É o que afirma Alysson Coimbra, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego em Minas Gerais (Abramet-MG).

Segundo ele, desemprego e a procura por motoboys, principalmente por aplicativos de comida, contribuem para o cenário. “Se não tivessem apps, o número de pessoas sem ocupação seria maior. No entanto, é preciso uma legislação que estabeleça metas, horários e pausa de descanso para a categoria”, defende o médico especialista em trânsito, ressaltando que muitos entregadores tentam atender mais pessoas em um espaço curto de tempo para conseguir “render melhor”.

Alysson Coimbra explica que, atualmente, especialistas no tema têm ido a Brasília para discutir o assunto. “Trabalhamos com o projeto de lei 3.267/2019, que propõe sérias alterações no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), como o tempo de renovação da habilitação”. 

Vítimas

Mais do que números, os acidentes provocam impactos profundos nas vítimas. Ex-jogador de voleibol, o estudante Gustavo Soares Couto, de 21 anos, não pode mais praticar o esporte preferido. 

O jovem teve que abandonar as quadras em 2015 após ferir a perna em um acidente na avenida dos Andradas, na região Central de BH. “Eu estava no passeio. Um motociclista bateu em um ônibus e a moto caiu sobre mim”, contou. 

Com a perna debilitada, Couto teve que fazer fisioterapia por doze meses e colocar pinos no fêmur. Apesar de ser atleta amador, ficou impedido de praticar a modalidade.

“Como é um esporte que envolve muito o salto, os médicos me proibiram. Também não posso jogar futebol, sinto dores até para correr atrás do ônibus, por exemplo”, lamentou o estudante.

Sem trabalhar

Já a auxiliar administrativo Maria Elisa Figueiredo, de 45, chegou a ficar afastada por invalidez por três anos, quando teve a mão esmagada durante um acidente, em 2008. Para voltar a trabalhar, teve que  encontrar uma vaga de pessoa com deficiência.

Ela foi atropelada por um motociclista inabilitado, quando visitava Lassance, no Norte de Minas. “Achei que nunca mais seria útil. Eu era professora e, para a minha atividade, ter uma mão debilitada limitava as atividades. Tive que mudar a minha vida por imprudência”, contou. 

Fiscalização

Para evitar acidentes e desobediência à lei, a PM realiza, diariamente, fiscalizações, blitze e patrulha integrada. É o que afirma o porta-voz do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran), tenente Marco Antônio Said.  Porém, ele ressalta não serem raros os casos de motociclistas sem responsabilidades pelas ruas da capital mineira, colocando em risco outros motoristas, ciclistas e pedestres.

O militar diz que, durante as autuações, são comuns condutores de veículos sobre duas rodas trabalhando com entregas e sem portar a documentação obrigatória atestando que exercem a profissão. “O motociclista, no trânsito, é mais suscetível ao acidente. Por isso, precisa respeitar o limite da via, obedecer à lei, pilotar com segurança e estar regularizado. Se faz daquilo o seu ganha-pão, precisa ser o mais profissional possível”, frisou Marco Antônio Said. 

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