Corredor com o maior tráfego de veículos de Belo Horizonte e palco de tragédias que marcaram a memória dos mineiros, o Anel Rodoviário lidera as estatísticas de acidentes de trânsito na capital há cinco anos. De 2014 a 2018, mais de 4 mil ocorrências foram registradas na via, segundo levantamentos da BHTrans. 

Na última segunda-feira, duas irmãs morreram após uma forte batida entre um ônibus e um automóvel que prestava serviço de transporte por aplicativo, na pista marginal da rodovia, no bairro Universitários, região Nordeste. As vítimas eram passageiras do carro de passeio e iam buscar o pai, que tinha recebido alta em um hospital.

De acordo com a Polícia Militar Rodoviária (PMRv), depois da falta de atenção, as principais causas de acidentes no Anel são: não manter distância de segurança em relação ao carro da frente, derrapagem e a má visibilidade na pista

 

No cruzamento onde ocorreu a fatalidade, a sinalização precária e a ausência de redutores de velocidade elevam os riscos. A todo momento é possível assistir a freadas bruscas e manobras perigosas.

Anel Rodoviário

Próximo ao acesso à avenida Antônio Carlos, veículo de carga trafega na pista da esquerda

Quem trabalha por lá, além de garantir que os acidentes são comuns, afirma que o trecho já foi palco de outras mortes. “Têm crianças passando todos os dias. É um ponto de travessia de pedestres. Minha filha já foi atropelada aqui na porta”, relata a comerciante Valéria Lúcia, de 52 anos, proprietária de um sacolão em frente.  

“Toda semana tem alguma batida aqui. Se não colocarem uma faixa de pedestre e um semáforo, ou quebra-molas, o problema vai continuar. É um absurdo que as autoridades não façam nada”, protesta o borracheiro Vinícius Martins, de 28 anos, que também trabalha na região.

842 acidentes foram registrados no Anel Rodoviário em 2018, segundo levantamento da BHTrans

Problemas

Com um fluxo de nada menos que 160 mil veículos por dia, a falta de atenção dos condutores é o principal motivo para acidentes no Anel Rodoviário, apontam levantamentos da Polícia Militar Rodoviária (PMRv). Uma das suspeitas da corporação é que o condutor do veículo envolvido no acidente de segunda-feira tenha avançado a placa de “Pare” por distração.

“A marginal do Anel possui um papel importante no sistema viário da cidade. Ela serve para absorver o fluxo de automóveis, permitindo que as pessoas se movimentem sem ter que acessar a pista central, que é destinada para quem está circulando de uma cidade a outra e com velocidade maior. No entanto, a marginal está dentro de uma área urbana, onde há presença de pessoas, residências e comércios. Com isso, a velocidade neste trecho precisa ser controlada de forma mais eficiente. No caso do Anel, que é uma via com alto fluxo de veículos dentro de uma área urbana, é necessário que seja dada uma atenção especial à sinalização, sobretudo nas interseções (cruzamentos), locais nos quais comumente ocorrem os acidentes” (Agmar Bento, professor de Segurança Viária do Cefet-MG)

“Pesquisas mostram que o comportamento das pessoas está presente em mais de 95% dos acidentes”, garante Agmar Bento, professor de Segurança Viária do Cefet-MG. “Muitos motoristas não estão acostumados a parar nas interseções, mesmo com a presença da sinalização. Eles também precisam entender que dirigir pela marginal não é a mesma coisa que andar na pista central, a velocidade tem que ser menor”, completa.  

anel rodoviário

Placa de “Pare” orienta motoristas no trecho do acidente, mas quem trabalha na região cobra redutores de velocidade

Por nota, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que “está definindo em conjunto com os órgãos municipais quais medidas devem ser realizadas rapidamente para disciplinar o tráfego no cruzamento do Anel Rodoviário com a Rua Pedro Vicente”.

Tragédias registradas

O histórico de acidentes graves dá a dimensão do quanto a rodovia é perigosa para motoristas e pedestres. Em janeiro de 2011, uma carreta desgovernada atingiu 15 veículos na pista, no sentido Vitória. A tragédia matou cinco pessoas, dentre elas uma criança de apenas 2 anos.

“O Anel Rodoviário é campeão de acidentes na capital em função de várias questões. A primeira é que lá se concentra o maior volume de tráfego em BH. Então, tem a maior probabilidade de ocorrências. A segunda é a mistura do tráfego rodoviário com o urbano. Então, há muitas pessoas focadas na direção do dia a dia, na escola do filho, em chegar a tempo para o trabalho e, ao mesmo tempo, caminhões que estão simplesmente atravessando a cidade. Eles têm visões diferentes do trânsito, se ligam de maneira diferente a cada situação, o que tende a aumentar a taxa de acidentes. A outra questão é que o Anel, na verdade, nunca foi implantado. Desde que começou, está sempre faltando alguma coisa. Ao longo do percurso não existem vias marginais, que têm a função de segregar o tráfego direto do que é local. Nos principais locais do Anel, o motorista para percorrer um quilômetro, por exemplo, tem que ser pela pista central, mas poderia ser na marginal, caso ela existisse” (Osias Baptista, consultor em transporte e trânsito)

 

Em julho de 2012, outra carreta perdeu o controle no quilômetro 4, no bairro Betânia, arrastando dez veículos e matando o próprio motorista. No mesmo ponto, o problema se repetiu em maio de 2015, quando mais uma carreta com 22 toneladas de minério de ferro bateu em dez automóveis, matando uma pessoa e ferindo outras quatro.

Em janeiro de 2016, duas pessoas morreram e outras duas ficaram feridas na colisão entre uma van, um caminhão e dois veículos de passeio, também na descida do Betânia. Em setembro de 2017, mais um caminhão sem controle, novamente carregado de minério, bateu em seis carros e explodiu matando três pessoas e ferindo outras 11.

(Colaborou Renata Galdino)

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