Dezenas de pais, funcionários, professores, alunos e ex-alunos do Colégio Santo Agostinho (CSA) realizaram no início da tarde desta quinta-feira (29) um abraço simbólico à instituição. O ato foi realizado, simultaneamente, em três unidades (Belo Horizonte, Nova Lima e Contagem). 

Embalado por frases como “liberdade na educação” e “não vão nos calar, escola com mordaça é ditadura militar”, o protesto é uma resposta à polêmica de que a escola estaria praticando uma doutrinação de “ideologia de gênero”, que se arrasta desde o ano passado. Depois do abraço, que deu a volta completa no quarteirão ocupado pelo colégio, o grupo se reuniu na escada da entrada principal. 

Para o diretor da unidade central de BH Clovis Oliveira, a manifestação serve de apoio não apenas para o Santo Agostinho. “É também um abraço à liberdade de expressão nas escolas do Brasil”, afirma. Ele conta que a comunidade escolar viu a ação do MP com surpresa, porque acreditava-se que a questão com os pais estava resolvida. “Atendemos a todos sempre, explicamos dúvidas em relação à proposta pedagógica”, finaliza.

Segundo a advogada Cristiane Mateus, de 39 anos, mãe de uma menina de 10 e um menino de 5, ambos alunos do CSA, a intenção é mostrar que "não vamos aceitar a imposição de uma minoria que distorce o que é ensinado", se referindo aos cerca de 100 pais que protestam contra a suposta "ideologia de gênero". Para ela, educadores devem ter autonomia e liberdade. 

A filha dela, a pequena Maria Luiza Matheus, de 10 anos, interrompe a conversa para defender a escola onde estuda. “Até hoje nunca vi os professores ensinarem nada que fosse estranho ou que não fosse para a minha idade aprender. Nunca precisei contar nada desse tipo para os meus pais. Eles são ótimos, ensinam bem, são atenciosos. Amo aqui", diz.

Apoio

Além do abraço, no início da semana, mais de 400 ex-alunos e cerca de 500 famílias de estudantes do CSA assinaram cartas em apoio à unidade de ensino. A nota, publicada virtualmente, está aberta a apoiadores que não fizeram ou façam parte da escola.

“Movimento importante como contraponto. Me senti motivada a mostrar que os pais que entraram com processo falaram mentiras sobre o Santo Agostinho. Por isso temos que mostrar que não existe isso de ‘ideologia de gênero’ na proposta pedagógica da escola. Jamais achei que extrapolam qualquer diretriz”, explicou Rubia Castro, de 50 anos. A pedagoga, que também é doutoranda em educação, e tem duas filhas adolescentes na escola, entregou nesta quinta-feira (29) uma carta assinada por cerca de mil pais ao diretor da unidade central. 

“Isso mexe com a gente também. Tivemos toda nossa formação, até agora, aqui. Sabemos como funciona e as acusações não são verdadeiras. Acreditamos que a única coisa que o colégio tem feito, mesmo sendo tradicional e cristão, é não ficar parado e acompanhar as mudanças do mundo para formar a gente como pessoa”, afirmam as amigas Joana Costa Peixoto, de 15 anos, Maria Cecília Carvalho, de 16 anos, e Catharina Castro, de 13 anos. Elas são alunas da 1ª série do Ensino Médio e do 8º ano do Fundamental II e estão no CSA, em média, há 10 anos.

Para o professor de artes Marcos Bonfim, que está na escola há 12 anos, e dá aula para o 7º ano, a ação é importante para mostrar que pais e professores não estão em lados opostos, mas sim trabalham em parceria. 

“É muito gratificante para nós receber esse apoio. Porque estando aqui há tantos anos, vejo que não há nada nesse sentido (dos termos da ação do MP). Seguimos a filosofia agostiniana”, afirma. Ele reforça que o colégio tem tradição no respeito e tolerância à diversidade e particularidade dos alunos e famílias. 

Confira o vídeo com o abraço:

As manifestações expõe o repúdio em relação à ação civil-pública proposta pela Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) sobre o suposto ensino da "teoria de gênero" a alunos da 3ª à 6ª série do Ensino Fundamental da rede. Na argumentação, a promotoria da Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente afirma que a suposta implementação do tema poderia expor “inúmeras crianças a uma doutrina exótica e radical, contrária à própria natureza humana”.

A decisão, no entanto, encontrou divergências dentro do órgão. A Promotoria da Educação alegou não ser atribuição da Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes tratar do caso na Justiça. A decisão sobre qual Promotoria terá competência para a adoção de medidas e se a ação proposta deve ser objeto de intervenção do MP foi repassada para a Procuradoria-Geral de Justiça. Até o início da tarde desta quinta-feira (28), no entanto, a questão ainda não havia sido definida, conforme a assessoria de imprensa do órgão. 

“Estudo aqui desde 2007 e estou me formando. Acho que os pais conservadores se incomodam com filhos saindo da caixinha - e isso tem que acontecer. Achei importante apoiar, mostrar que o colégio além de me preparar para o vestibular, abriu minha mente, me tornou mais tolerante, menos preconceituosa. E os professores têm um papel essencial nisso”, Laura Pontes, 17 anos, ex-aluna. 

O Colégio Santo Agostinho informou, em nota, que a ação judicial movida pelo MP “contém alegações absurdas, desconectadas da realidade e sem correspondência com a verdade”. A escola destaca que está tomando medidas judiciais cabíveis, “seja para nos defender contra as falsas alegações a nós atribuídas, seja para responsabilizar as pessoas e os agentes que estão divulgando essas mentiras”, diz a nota.

 

 

 

 

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