A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) deve discutir na próxima semana, em Blumenau (SC), a possibilidade de acionar a Backer na Justiça. Na última quarta-feira (04), o advogado da empresa afirmou que a haveria traços de monoetilenoglicol em cervejas de marcas concorrentes, durante audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte.

“Vamos discutir se devemos acionar judicialmente a Backer pela mentira absurda que a empresa tentou lançar no mercado”, afirmou o mestre cervejeiro Marco Falcone, um dos diretores da associação nacional, que reunirá associados durante o Festival Brasileiro de Cerveja na próxima semana.

Segundo ele, os integrantes do Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais (Sindbebidas) devem votar em breve a possibilidade de expulsão da Backer da entidade.

Durante a audiência pública, a Backer apresentou um estudo laboratorial que teria indicado a presença de monoetilenoglicol em outras marcas de cervejas concorrentes. A empresa argumentou que o próprio processo de fermentação poderia provocar sinais da substância, que somente a partir de uma determinada quantidade poderia provocar intoxicação.

Falcone, que é vice-presidente do Sindbebidas, considera a declaração da Backer “desastrosa e improcedente”. Ele garante que é impossível que o processo de fermentação da cerveja gere monoetilenoglicol. “Tanto que a cerveja é uma bebida consumida há 8 mil anos e nunca havia tido antes um caso de intoxicação por etilenoglicol. O que houve é um caso à parte, e a empresa, no momento em que deve assumir o seu erro, sai atirando contra todo o setor”, afirma.

De acordo com o cervejeiro, o uso de etilenoglicol no processo de fabricação artesanal de cerveja é bastante restrito. O Sindbebidas fez uma pesquisa com seus membros e 100% deles afirmaram não usar a substância tóxica no processo de resfriamento, mas, sim, o etanol – que não provoca mal ao consumidor, caso haja um vazamento.

Falcone informou ainda que o escândalo do caso Backer não provocou queda nas vendas das cervejarias artesanais mineiras até o momento. “Nosso consumidor fiel não perdeu a confiança no setor. O que pode haver é uma redução no crescimento, mas isso iremos verificar melhor daqui uns meses”.

A Polícia Civil investiga se seis mortes e outros 34 casos de intoxicação em Minas estão ligados à presença da substância tóxica dietilenoglicol em garrafas da marca Belorizontina. A Backer reconhece que usa monoetilenoglicol em seu processo de produção (resfriamento), mas contesta o uso de dietilenoglicol.

Após a reação do setor, a Backer informou, por meio de nota, que jamais acusou outras cervejas por contaminação e quer prestar ajuda humanitária aos pacientes intoxicados. De acordo com a empresa, a investigação própria foi realizada para auxiliar no trabalho executado pela Polícia Civil e outros órgãos. 

Veja abaixo, na íntegra, o posicionamento da Backer:

"Desde que surgiram as primeiras informações nas redes sociais sobre a presença de substância tóxica na cerveja Belorizontina, a Backer tem envidado todos os esforços possíveis para entender o que de fato ocorreu, uma vez que nunca usou o dietilenoglicol na fabricação de seus produtos.  A empresa foi fiscalizada inúmeras vezes pelo MAPA e o emprego do etilenoglicol (como anticongelante) nunca foi questionado ou apontado como possível fator de risco de contaminação no processo cervejeiro.

Passados dois meses, as investigações, ora em curso, muito pouco ou quase nada avançaram no sentido de esclarecer o que realmente aconteceu e estabelecer responsabilidades.

Nesse período a fábrica foi lacrada, a produção encerrada e não restou alternativa senão dispensar funcionários diretos e terceirizados. Famílias perderam entes queridos e a empresa passou a ser responsabilizada, precocemente, pelo acontecido, mesmo não havendo qualquer conclusão a respeito do inquérito instaurado pelas autoridades competentes.

Tem sido um processo bastante doloroso lidar com as incertezas e com as dúvidas que permeiam o assunto. A sociedade, a imprensa, funcionários, fornecedores, consumidores do produto, as famílias dos atingidos cobram respostas, mas a empresa está de pés e mãos amarrados com seus bens bloqueados pela justiça. Pouco ou quase nada podemos fazer, nesse momento.

Diante disso, e sendo a mais interessada no esclarecimento dos fatos, a Backer iniciou, ela própria, um processo de apuração de informações visando entender todo o contexto e, inclusive, auxiliar as investigações oficiais.

Para isso, solicitou o trabalho de três laboratórios independentes no sentindo de realizar análises químicas e  toxicológicas em todas os seus rótulos, bem como em outras amostras de cerveja, com o objetivo único de estabelecer parâmetros que pudessem indicar alguma resposta. As análises realizadas comprovaram a presença de traços de dietilenoglicol e/ou monoetilenoglicol em todas as amostras pesquisadas, inclusive nas da Backer.  Por isso, somente a análise qualitativa, realizada pela Polícia Civil e pelo MAPA até o presente momento, não é suficiente para identificação de contaminação de um produto. Nesse caso, não se pode falar em contaminação e sim que foram encontrados traços dessas substâncias nas amostras pesquisadas. O simples fato de existir essa substância na cerveja não torna o produto impróprio para o consumo.

É preciso que as autoridades constituídas nos ajudem a entender o que aconteceu e que, a partir deste lamentável episódio, determinem novas normas de segurança para toda a cadeia produtiva de cerveja no Brasil.

Pelo seu histórico ilibado no setor cervejeiro, pela peculiaridade do fato ocorrido (inédito no setor) e pela convicção de nunca ter agido com má fé ou negligência, a BACKER reivindica o status de parceira nas investigações. Entende que, dessa forma, contribuirá para acelerar o esclarecimento dos fatos, para o avanço do conhecimento tecnológico e a ampliação da segurança dos produtores e consumidores de cerveja em todo o país".

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