Sem uma bolsa que custeie o trabalho científico, a professora e pesquisadora Letícia Masako Takahashi, de 26 anos, teve que abandonar o doutorado que faria em Química na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). A pesquisa, que agora fica pelo caminho, vinha avançando desde o mestrado, também feito na instituição pública. O resultado poderia ser o desenvolvimento de remédios para a cura da leishmaniose, doença que mata nove em cada dez pessoas quando não tratada em sua forma visceral.

O relato da pesquisadora rendeu mais de 35 mil compartilhamentos somente até a tarde desta segunda-feira (6), em meio a discussões sobre o congelamento de verbas de 30% promovido pelo governo federal em universidades e institutos federais de educação. Aluna de escola pública, Takahashi está envolvida com a UFTM há mais de dez anos. Foi lá que fez cursos preparatórios, graduou-se em química, fez mestrado e desenvolveu a pesquisa em moléculas.

No desabafo, ela conta como a universidade beneficiou não apenas quem estuda no instituto, mas também pessoas de fora do ambiente acadêmico. "Em 2010, comecei a frequentar o cursinho popular oferecido pela UFTM para alunos de baixa renda provenientes de escolas públicas. As aulas eram ministradas por alunos de diversos cursos de graduação da universidade e com certeza foram muito importantes, não só para mim, mas para vários estudantes que não tinham como pagar por cursinhos particulares", contou.

À reportagem do Hoje em Dia, Takahashi explicou que o benefício foi tão grande que, após ser aprovada em primeiro lugar no curso de licenciatura em química, ela resolveu retribuir um pouco do que a faculdade ofereceu, dando aulas também para alunos de baixa renda. "Fui professora do cursinho em 2015 e 2016 para poder devolver à comunidade o que eu tinha recebido, e durante o PET também, para divulgar tudo que a universidade oferece", contou.

Dificuldades

Mesmo após ter se graduado em química, as dificuldades financeiras da UFTM fizeram com que o caminho da pesquisa de Takahashi fosse difícil, o que não a deixou desistir do curso. No relato, a jovem conta que o programa de mestrado inicialmente não envolvia bolsa e ela teve que conciliar o trabalho de professora com o desenvolvimento dos seus projetos.

Posteriormente, quando já pensava em largar o mestrado, ela conseguiu uma bolsa para pesquisa oferecida pela universidade, e pode dedicar-se exclusivamente ao projeto.

"A dedicação exclusiva tem um preço alto.  Não existe férias, finais de semana, descanso ou feriado. Se uma reação precisa da sua atenção por 18h, você vai ficar no laboratório 18h. Se precisa ser monitorada aos finais de semana, então você irá trabalhar aos finais de semana...Isso sem contar o trabalho que você leva para casa, já que a parte escrita acontece nos intervalos do trabalho no laboratório, normalmente nas madrugadas", afirmou.

Mesmo assim, viu no curso outros alunos desistirem e professores terem que tirar dinheiro do próprio bolso para custear insumos e materias para as pesquisas. No doutorado, porém, teve que tomar a difícil decisão de abrir mão do trabalho que vinha fazendo com muito custo pois, desta vez, o cenário indica que será impossível a UFTM custear uma bolsa para que ela estude.

"E, sem bolsa, não é possível pesquisar em dedicação exclusiva. Apesar de amar muito a minha pesquisa e acreditar nos resultados que estou e estava obtendo, não tem como viver de amor", conta. "Pelo programa do doutorado eu já sabia que não viria a pesquisa. Agora, com esse congelamento dos investimentos, isso se tornou impossível, ainda mais que o Cnpq já tem tido dificuldade para manter as bolsas atualmente ativas", lamentou.

Parada

A pesquisa feita por Takahashi fica, então, parada, até que um novo pesquisador se interesse pelo tema ou haja financiamento do governo para uma nova pesquisa, uma vez que ela é desinteressante para a iniciativa privada. Segundo a pesquisadora, mesmo que outro estudante queira estudar o tema, já houve desperdício de dinheiro e tempo pela universidade.

"É muito difícil durante um ano e meio de mestrado uma outra pessoa aprender a técnica, a síntese das moléculas, os processos de purificação. Isso demanda muito tempo para especializar e treinar alguém para trabalhar. É um tempo perdido, perdeu-se o tempo que eu fui treinada, perdeu-se o investimento. Alguém vai ter que aprender do zero, a pesquisa pode morrer”, finalizou.

A reportagem do Hoje em Dia entrou em contato com a UFTM e aguarda um posicionamento sobre o caso.

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