Incivilidade urbana, imprudência, irresponsabilidade. Esses são apenas alguns dos atributos dados a quem pega um carro e sai às ruas de Belo Horizonte sem nunca ter pisado numa autoescola. Mais de 5 mil pessoas foram multadas sem permissão para dirigir só no primeiro semestre deste ano. Em média, 28 inabilitados são flagrados por dia. O número impressiona tanto as forças de segurança quanto os especialistas em trânsito 

A condenável atitude é capaz de provocar acidentes e até matar. A polícia admite que a infração é comum e cometida por moradores de todas as idades. Já os consultores em tráfego garantem que o cenário reforça a necessidade de mais patrulhamento nas vias, pois a maioria das autuações acontece após abordagens em blitze. Mais rigor na punição também é fundamental para enfrentar o problema.

Hoje, o condutor detido sem a carteira de habilitação é multado em R$ 880,41. A situação configura crime de trânsito, mas a pessoa responde o processo em liberdade e, se for condenada, pode parar atrás das grades por seis meses a um ano. No entanto, a própria polícia informa que, normalmente, a pena é convertida em cestas básicas ou prestação de serviços à comunidade.

Nas mais de 5 mil multas aplicadas não estão incluídas as carteiras vencidas ou cassadas

O delegado Rodrigo Fagundes, do departamento especializado de Prevenção e Investigação de Crimes de Trânsito, reforça que o número de infrações na capital é alto. Segundo ele, as imprudências resultam em recorrentes acidentes. “As pessoas, às vezes, acham que acontece somente com um vizinho. Que ela pode ir em um local próximo e não terá problema. Mas a gente vê que o problema acontece”, ressaltou Fagundes.

O policial está à frente das investigações de um recente caso na capital. Há alguns dias, um homem de 25 anos, com sintomas de embriaguez e sem carteira, teria avançado com o carro em uma parada obrigatória, batido em um ônibus e em duas motos da Polícia Militar, no bairro Jardim Leblon, em Venda Nova. No acidente, a filha dele, de 3 anos, que era transportada sem a cadeirinha e no banco da frente, ficou gravemente ferida.

Além da multa, a pessoa responde a um processo por crime de trânsito. Se condenada, pode ficar presa por seis meses a um ano. Porém, segundo a polícia, a maioria tem a pena convertida em cesta básica ou prestação de serviços

Uma das medidas defendidas é o maior rigor na punição. Especialistas em trânsito também destacam que a fiscalização deve ser ampliada, já que os inabilitados são flagrados, normalmente, durante as blitze

O inquérito está em andamento. O motorista deverá responder pelo crime de lesão corporal com agravante por dirigir sob efeito de álcool. Testemunhas serão ouvidas e câmeras de imóveis da região, analisadas. Durante o registro da ocorrência, o rapaz se negou a fazer o teste do bafômetro, mas a PM lavrou um termo confirmando o abuso. No depoimento à Polícia Civil, o condutor disse que não tinha bebido e que o carro perdeu o freio. “Ao que tudo indica, ele foi responsável pelo acidente”, avalia o delegado.

“O número é absurdo e revela uma realidade perigosíssima. Um pessoa inabilitada geralmente dirige com um nível de tensão muito maior e, portanto, está mais propensa a se envolver em acidentes. Esse cenário nos mostra que precisamos melhorar muito nossa fiscalização. Hoje, a formação oferecida pelas autoescolas já é muito ruim. Mesmo o motorista habilitado não pode ser considerado pronto para enfrentar os desafios do trânsito. Imagine alguém que nunca frequentou o curso” (Osias Baptista, consultor de trânsito)

Dirigir multas

 

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