Estudo avalia uso de antidepressivo no combate a casos graves e hospitalização por Covid-19

Raquel Gontijo
raquel.maria@hojeemdia.com.br
28/10/2021 às 14:14.
Atualizado em 05/12/2021 às 06:08
 (Breno Esaki / SES)

(Breno Esaki / SES)

Pesquisadores estudam a eficácia de um antidepressivo contra casos graves e hospitalização por Covid-19, quando utilizado na fase inicial da doença. Os resultados do estudo foram publicados na última quarta-feira (27) na revista científica The Lancet Global Health, uma das mais importantes do mundo na área médica. 

A fluvoxamina, um antidepressivo usado há décadas no Brasil para tratamento de depressão, TOC e outras doenças neuropsiquiátricas, mas com pouco uso atualmente, foi a substância pesquisada pelos cientistas. O estudo mostra que ela reduz a evolução de infecções graves causadas pelo coronavírus e, consequentemente, hospitalização em UTI´s, entubação e morte.

Ação da substância

O médico e professor universitário, Gilmar dos Reis, explica que o medicamento atua na inibição de recaptação de serotonina, um neurotransmissor existente no cérebro e nas terminações nervosas. Ele conta que, além do efeito antidepressivo, a substância possui uma propriedade que é estimular um determinado receptor que bloqueia ou reduz a expressão de enzimas de proteínas intracelulares que estão diretamente relacionadas ao processo inflamatório.

O pesquisador explica que a Covid é uma virose que, uma vez dentro das células, especialmente nas células respiratórias do pulmão, ativa uma resposta inflamatória extremamente elevada, causando a chamada tempestade citocínica. A fluvoxamina pode reduzir a produção de moléculas inflamatórias (citocinas), que são desencadeadas pela infecção por SARS-CoV-2.

Desta forma, o coronavírus, ao invadir as células, não consegue desencadear a resposta inflamatória na intensidade que normalmente iria causar, controlando o estresse metabólico e inflamatório das células. “Daí a ideia de utilizar a medicação antes mesmo que esse processo inflamatório seja exacerbado, porque assim eu consigo controlar mesmo produções menores das citocinas pro inflamatórias”, completa.

Os resultados do estudo demonstraram que o uso de fluvoxamina no tratamento de pacientes ambulatoriais de alto risco e com diagnóstico de Covid reduziu em cerca de 30% a necessidade de cuidados em unidades de emergência ou hospitalização, em comparação com um grupo de controle que recebeu um placebo.

Acessível

Outra vantagem do remédio, segundo os cientistas, é a possibilidade de um tratamento mais barato e acessível aos pacientes. “O nosso estudo é um dos primeiros a mostrar que o uso de uma medicação de uso oral, em domicílio, na fase inicial, venha reduzir as hospitalizações”. Além da fluvoxamina, o grupo do professor, que conta com a participação de pesquisadores do exterior, estuda a utilização de outros medicamentos de baixo custo, utilizados na terapia de outras doenças, no tratamento da Covid-19.

Não é tratamento precoce

É importante destacar que os estudos com a fluoxamina, mesmo que utilizada na fase inicial da Covid, não é indicada para tratamento precoce. “Não estamos preconizando o uso de nenhum medicamento (…) Nós não recomendamos, de forma alguma, que nenhum medicamento deva ser utilizado sem orientação médica, mesmo medicamentos que são facilitados na aquisição sem receita médica, e sem avaliação médica. A fluvoxamina é vendida somente com receita, não adianta as pessoas procurarem as farmácias e tentar comprar a medicação que não vão conseguir”. alerta.

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