"Tudo o que os blocos podiam ter feito em termos de documentação, regulamentação, segurança foi feito. Agora, está nas mãos do Estado, que precisa liberar a nossa saída sem a necessidade da documentação que está sendo requerida de surpresa", desabafa o produtor do bloco Garotas Solteiras, Matheus Brizola, que arrastam milhares de foliões nas ruas de Belo Horizonte há cinco anos. 

O cortejo deste bloco está ameaçado pelo impedimento da saída dos trios que atendem boa parte dos blocos de BH. Isso acontece porque estes veículos não estariam em acordo com uma lei que exige um documento específico para esta função, com o registro de "caminhões-palco", que indicaria que eles comportam outra categoria. 

A exigência, que pegou os organizadores dos blocos de surpresa, é considerada uma burocracia desnecessária por eles, já que todos os laudos de segurança e autorização que haviam sido requeridos pela administração municipal teriam sido emitidos e protocolados. O impedimento pode mudar a programação do Carnaval de BH que, até então, estima um público de 5 milhões de foliões. 

"Os dois carros que foram apreendidos na semana passado são os mesmos que saíam com a anuência da BHTrans, dos bombeiros, da PM, sem nenhuma interferência. Eles já passaram por todas as normas de segurança", explica Brizola.   

Mudança de trajeto

Já o bloco Roda de Timbau, que sai nesta quinta-feira (20), teve que improvisar para conseguir sair sem correr o risco de ser barrado pela Polícia Militar, e mudar o seu trajeto. O cortejo, que aconteceria ao longo de oito quarteirões da rua Itajubá, no Floresta, região Leste da capital, como tem sido há três anos, agora, vai precisar arrastar a sua passagem por apenas dois quarteirões na rua Sapucaí, no mesmo bairro.

O motivo é que, com o caminhão-palco tradicionalmente utilizado apreendido no pátio do Detran, os integrantes do bloco conseguiram alugar um veículo maior - que não tem a exigência recente requerida - para não deixar os foliões na mão em cima da hora. No entanto, o caminhão não é comportado pela rua Itajubá e, portanto, terá que ser transferido para a Sapucaí. 

Esses caminhões-palco, segundo a produtora dos blocos Roda de Timbau e Unidos do Samba do Queixinho, Luiza Alana, são utilizados por metade dos blocos da cidade, e agora passaram a ter uma alteração de nomenclatura exigida para poderem sair. 

"Conseguimos ontem um trio com muita sorte pra poder sair, mas não há alternativa para atender esse tanto de bloco na cidade, não existe um plano B. Sem falar que a maioria dos trios são compartilhados com outros blocos. Então, um bloco que for sair de manhã nesta situação e tiver o trio apreendido vai impactar os blocos da tarde e dos dias seguintes", explica. 

Ela conta que para conseguir sair nesta quinta, precisou refazer em um dia o trabalho de um ano. "Eu tive que produzir o meu desfile novamente de ontem pra hoje, um trabalho que estava sendo feito desde março do ano passado. Para conseguir pagar este novo trio, precisamos fazer uma vaquinha entre amigos, familiares e integrantes do bloco, e também vamos passar o chapéu durante o cortejo".   

O impacto não é só sentido pelos blocos e foliões, mas também pelos comerciantes e moradores da região. "Como era feito em todos os anos que saímos, nós mobilizamos o comércio da rua para que funcionem até mais tarde, por exemplo, para atender ao público e vender mais, e agora o bloco não vai passar mais por lá", conta Luiza. 

Quanto ao bloco Unidos do Samba do Queixinho, que tem cortejo marcado para o domingo (23), o destino ainda é incerto. 

Um ano de trabalho

Além da mudança brusca em trajetos e formatos ou até mesmo a ausência de alguns blocos, a nova exigência pode também por a perder o trabalho de um ano inteiro, como é caso de muitos blocos da cidade. Apesar de o planejamento junto à prefeitura começar em setembro, a preparação e o "pensar o Carnaval" começa já a partir do fim do Carnaval anterior. 

"Muitos blocos se preparam o ano inteiro, se articulando, se organizando, buscando verbas, patrocínio. E em BH também temos essa característica de ensinar os ritmos e os instrumentos, fazemos uma verdadeira escola de percussão na cidade, ensinamos pessoas que nunca pegaram em um instrumento para tocar nos blocos. Então, além dos ensaios, que também já começam com bastante antecedência, temos essa característica de ensinar a tocar", conclui. 

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