Na mitologia grega, Afrodite é a deusa do amor e da beleza. Na capital mineira, ela dá nome à escola pioneira de twerk, onde mulheres de diversas idades, religiões e corpos aprendem o ritmo que ajuda a resgatar a autoestima e o amor-próprio. Mas além disso, a professora e fundadora do espaço, Paola Brito, de 24 anos, acabou construindo também um espaço seguro para mulheres, onde as alunas podem desfilar os seus corpos sem medo ou vergonha e aprender passos de twerk que envolvem funk, hip hop, pop, axé e até marchinha de Carnaval, enquanto dão apoio umas às outras. 

 

Se em 2016, quando inaugurou o Afrodite Studio de Dança na sala da própria casa no Edifício Maletta, Paola contava com cerca de quatro alunas, hoje, em uma sala maior e comercial no mesmo prédio, a escola conta com mais de 100 aprendizes distribuídas em diversas turmas e horários ao longo da semana. Para o futuro, a ideia é abrir novas turmas para atender à toda demanda, inclusive, uma turma de mulheres que são mães, onde elas possam levar seus filhos com tranquilidade enquanto fazem as aulas. 

"Quando a Afrodite começou, o objetivo principal era apresentar às mulheres uma modalidade nova de dança usando uma linguagem diferente das demais academias. Sem competição, sem cobrança e com diversão. Com o tempo, a interação entre as alunas foi crescendo e pude perceber que o Studio era bem mais que uma escola de dança. Se tornou o lugar que todas amam, esperam ansiosamente pra trabalhar o corpo, se sentem pertencentes a uma ideia e se conectam a outras mulheres incríveis", conta Paola.

Paola

Paola Brito é a fundadora do Afrodite Studio de Dança, referência do twerk em BH 

A empreitada deu certo. Artesãs, empreendedoras, publicitárias, advogadas, professoras, estudantes e profissionais de diversas outras áreas se encontram semanalmente com um objetivo em comum: rebolar bastante. As consequências acabaram marcando a vida e a trajetória pessoal da maioria das alunas. 

A vendedora Daniela Coelho, de 35 anos, aluna da Afrodite há cerca de um ano e meio, emociona-se ao lembrar da primeira aula no estúdio. "Quando eu cheguei na aula, tive um impacto. Vi aquele tanto de menina à vontade, sem se importar com o corpo à mostra, mesmo quando tinham estrias, celulites ou estavam acima do peso, todas rindo, se apoiando e felizes. Achei libertador", conta. 

Casada há 14 anos, ela diz que chegou ao seu melhor momento após as aulas. "Nunca me senti tão feminina, tão maravilhosa. Hoje eu já aceito mais as minhas curvas, o meu corpo, algo que sempre escondi e tive vergonha. As aulas de twerk tiveram um efeito transformador na minha vida", conclui.

Fonte de renda 

Duas alunas da escola acabaram se tornando também professoras e lideram as próprias turmas na Afrodite. Uma delas é a jornalista Thays Maciel, de 27 anos, que saiu do emprego em uma startup de marketing para se dedicar ao Studio. 

"Eu fui aluna de uma das primeiras turmas e, quando a Paola me falou sobre dar aulas, fiquei muito honrada de ela ter enxergado essa habilidade em mim. Porque eu sempre me achei uma pessoa introspectiva e nunca imaginei que dentre os lugares que eu gostaria de trabalhar um dia estaria este lugar de dar aulas de dança. Mas hoje, estando em um espaço onde as mulheres são livres para serem o que são e fazendo com que elas se sintam bem com elas mesmas e com o próprio corpo, ajudando e sendo ajudada, eu vejo que isso era tudo o que eu buscava mesmo sem saber", relata. 

Autoestima em dia

A tatuadora Luiza Paiva, de 28 anos, aluna do Studio desde setembro do ano passado, passou a se sentir melhor com o próprio corpo depois das aulas. "Na minha primeira aula, eu cheguei com calça comprida e blusão, pois sentia muita vergonha do meu corpo. Naquele dia, fui filmada e me mostraram o vídeo. Simplesmente chorei, pois foi a primeira vez que vi meu corpo com outros olhos. Percebi que ali era um lugar de muito amor e que está além de ser somente dança. Ainda não perdi totalmente a vergonha, mas sinto que evolui muito desde então. Minhas colegas de aula se tornaram amigas e nunca fui julgada pelo meu corpo ou pela forma que eu danço. Todas sempre se apoiam e se elogiam! As aulas são os meus momentos favoritos da semana", revela. 

A jornalista Rafaela Lima, de 24 anos, que faz tratamento para transtorno de ansiedade e depressão, relata que o espaço a ajuda a se sentir melhor. "Consigo me sentir renovada após as aulas. E a forma como vejo a mim e ao mundo também mudou. Foi lá que aprendi que o meu corpo e o de todas as mulheres é livre, e não de domínio público para ser usado para críticas e opiniões alheias, o que ainda é algo bem enraizado na sociedade", comenta. 

A designer Maytê Lepesqueur, de 30 anos, encontrou na escola uma forma de se sentir mais confiante. "Sempre tive um julgamento comigo mesma, de estar mais gordinha, de não ter aquele corpo do estereótipo 'gostosa'. E encontrei nas aulas de twerk uma forma de me sentir mais confiante e sensual. Quando conheci as outras alunas, achei incrível. A diversidade é realmente uma coisa linda e maravilhosa", conta. 

Não por acaso, todas as aulas terminam com a "oração da autoestima", ditada em voz alta por todas as alunas em frente ao espelho: "Eu me amo, eu sou maravilhosa, eu sou muito gostosa, e que amanhã seja melhor que hoje. Amém!".

Oração

No final das aulas, alunas fazem a "oração do amor-próprio" de frente para o espelho

Sem competição

Além de aprender a olhar com mais carinho e tolerância para o próprio corpo, as alunas também aprendem na prática o sentido de sororidade. "Essa dança trabalha muito a sensualidade da mulher. Então, a forma com que elas começam a se enxergar muda, a aceitação do próprio corpo muda e a compreensão com os corpos de outras mulheres também. Porque cada uma tem o seu próprio tempo de aprendizado. É necessário ter paciência com o corpo e permitir que ele entenda tudo que é passado nas aulas. O meu papel é mostrar a técnica e o melhor caminho pra seguir dentro dela. Mas a dança pertence a todas, cada uma com seu tempo, sua característica e toque pessoal", explica Paola.

Paola

Não há espaço para competição e julgamentos no Afrodite Studio de Dança

Foi assim que a bacharel em Direito, Sílvia Bianchet, de 25 anos, aluna do Studio desde o fim de ano passado, passou a olhar de forma diferente para outras mulheres. "Eu nunca tinha conhecido a fundo o significado de sororidade até entrar na Afrodite, porque lá as mulheres não são inimigas umas das outras como eu já presenciei em outros lugares que dancei. Lá, a gente se acolhe. Eu aprendi a tratar outras mulheres de uma maneira mais gentil e mais empática do que antes", comenta. 

A oficial do Ministério Público de Minas Gerais, Denise Guimarães, de 37 anos, relata que tem mudado, inclusive, a forma de pensar sobre os supostos padrões de comportamento feminino. "Mudei a minha concepção de que a mulher deve se vestir de forma pré-determinada, conforme o corpo e a idade que tem. Na verdade, ela tem que se vestir como quer e como se sente melhor. No Studio, senti que não há competição, há troca de experiências, ajuda e aceitação", conclui. 

Alunas
O espaço também serve como um grupo de apoio para mulheres 

Origem da dança  

Com movimentos hipnóticos concentrados nos quadris, o twerk, dança que tem origens africanas, foi ganhando nuances com o passar dos tempos, agregando novos movimentos e se tornou popular nos guetos norte-americanos, até ganhar ainda mais visibilidade nos corpos de cantoras pops como Miley Cyrus, Rihanna e Nicki Minaj. Há rumores ainda de que o termo "twerk" seja uma junção das palavras twist (torção, giro, volta, movimento circular) e jerk (empurrão, movimentos bruscos ou repentinos). 

Leia mais:

Médica mineira 'receita' youtubers e intelectuais negros para paciente com depressão
Combate à importunação sexual será ferrenha no Carnaval, segundo PM; polícias divulgam ações
Carnaval 2019 será o maior da história de BH e terá cobertura especial do Hoje em Dia
Combate ao assédio às mulheres na folia ganha o apoio dos homens