O prefeito Alexandre Kalil (PSD) descartou nesta sexta-feira (19) que a Prefeitura de Belo Horizonte vá patrocinar o carnaval de 2022. Afirmou, porém, que a administração municipal irá garantir a segurança de quem sair espontaneamente às ruas. As declarações do chefe do Executivo têm causado incerteza em setores econômicos e artísticos envolvidos na festa popular.

“Eu autorizei o presidente da Belotur a investir o dinheiro do carnaval no evento posterior. Nós não vamos guardar o dinheiro da cultura e dos eventos, nós vamos investir em cultura e eventos. Mas, no carnaval, depois que vem a praia, depois que vem o Réveillon e vir o carnaval é chamar o azar pro nosso lado e eu não quero dar sopa para o azar”, disse o prefeito.

No dia 11 de novembro, o presidente da Belotur, Gilberto Castro, participou de uma audiência pública na Câmara Municipal, em que afirmou que não tinha condições de garantir a realização do carnaval de 2022 na capital. A vacinação contra a Covid de apenas 30% dos jovens de 20 a 30 anos foi apontada por Castro como um empecilho para a realização do evento. A faixa etária é o público majoritário da festa. 
O carnaval belo-horizontino vinha experimentando crescimento expressivo no número de foliões, até que a sequência foi interrompida pela pandemia em 2021. Em 2018, a prefeitura contabilizou 3,8 milhões de pessoas na festa; no ano seguinte, o número chegou a 4,3 milhões e, em 2020, atingiu seu ápice, com 4,5 milhões de participantes - 211 mil deles eram turistas.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Belotur, os visitantes gastaram, em média, R$ 739,56 por pessoa no carnaval de BH, na época. Moradores da capital tiveram despesas médias de R$ 297,66 ao longo de todo o evento.

Viagens
O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav) em Minas Gerais, Peter Mangabeira, viu com temor a declaração do prefeito Alexandre Kalil. Segundo ele, o carnaval de Belo Horizonte foi um dos que mais cresceu no país nos últimos anos e o evento é considerado pelo setor do turismo como uma tábua de salvação. 

“Todo mundo está com esperança de ganhar um dinheiro com o carnaval, para recuperar o setor que foi fortemente impactado pela pandemia e pela necessidade de isolamento social para conter o contágio do coronavírus”, afirmou.

O empresário do setor de receptivo afirma que se não houver carnaval em Belo Horizonte e outras prefeituras decidirem fazer a festa, o impacto será muito negativo para a capital mineira, que já tinha consolidado o evento no calendário nacional, atraindo milhões de turistas, até de outros países. 

Segundo Mangabeira, a declaração da Alexandre Kalil afeta inclusive o período de preparação que antecede o carnaval. “Por que eu compraria mais dois ônibus se não vou ter clientes?”, pondera. “ Agora que o turismo está melhorando vem esse balde de água fria”, conclui o empresário.

Movimentação hoteleira
A rede hoteleira também está interessada na definição sobre o carnaval do próximo ano. Na última edição do evento, em 2020, a taxa de ocupação de quartos de toda a cidade atingiu 56,04%. Os hotéis da região Centro-Sul tiveram 76,02% de ocupação durante o fim de semana.

Para a gerente de vendas do hotel Ouro Minas, Grasielle Bastos, a expectativa é de que o Carnaval 2022 supere a demanda reprimida, o que só depende da vacinação dos jovens. "Estamos aguardando uma maior imunização do público jovem. Mas posso garantir que teremos uma taxa de ocupação mínima de 80% no Carnaval", diz a gestora, que se mantém otimista.

Segundo ela, o movimento já está voltando ao normal com o retorno dos grandes eventos em BH. E, para o Réveillon deste ano, a ocupação já supera 90%. "No Carnaval será maior. É o que esperamos", conclui.

“Botar meu bloco na rua”
A indefinição sobre a realização do carnaval interfere no planejamento econômico e artístico de quem pretende curtir a folia nas ruas com blocos, escolas e outros eventos. 

Na opinião de Matheus Lobo, representante do bloco Seu Vizinho, do Aglomerado da Serra, região Centro-Sul da capital, caso o cenário da pandemia não se altere, não é adequada a realização do Carnaval de rua. "A gente não é contra a decisão de não ter o Carnaval. Sabemos que o momento não é adequado", afirma.

Lobo afirma que sem o apoio financeiro da prefeitura, não é possível "colocar o bloco na rua" e pensa em alternativas para não inviabilizar a festa por completo. 

"Não conseguimos pagar os colaboradores. A prefeitura podia apoiar a realização de eventos fechados, com todas as normas de segurança exigidas na pandemia, como vacinação e uso de máscaras. Assim poderíamos fazer o Carnaval 2022", comenta.

Apesar da posição do prefeito, a câmara de BH ainda trabalha para estabelecer a viabilidade do carnaval na cidade. Na quinta-feira (18), a Comissão de Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura, Desporto, Lazer e Turismo da casa legislativa anunciou a criação de um grupo de trabalho para avaliar as condições da realização do evento. Entre os pontos debatidos, está a determinação de um percentual mínimo de imunização para possibilitar a festa.

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