Além de ostentar vida de luxo e bancar mulheres com dinheiro desviado da campanha criada para arcar com o tratamento médico do filho doente, a Polícia Civil descobriu que o pai da criança, um mineiro de 37 anos, era sócio de uma casa de prostituição em Salvador, na Bahia. As investigações apontaram que o homem pagou R$ 50 mil para ter participação em um bordel "de bom padrão". O montante, conforme o delegado Daniel Gomes, faz parte dos R$ 600 mil retirados das doações do filho, portador da doença rara Atrofia Muscular Espinhal (AME).

De acordo com a polícia, a intenção do homem era levar de três a quatro mulheres de Belo Horizonte para trabalhar na Bahia como garotas de programa. "Durante o dia, elas fariam os programas em um apartamento alugado por ele, e ele receberia uma parte do dinheiro. À noite, as meninas iriam trabalhar na boate", contou o delegado. 

O caso envolvendo a casa de prostituição foi descoberto após a polícia rastrear o dinheiro desviado. "Queremos saber como ele gastou o montante", declarou o investigador.

Prostituição

As apurações indicam que o homem já tinha feito contato e convidado uma mulher para ir a Salvador trabalhar no bordel. "Essa menina iria atuar como gerente, mas ele tinha a intenção de vir para BH e escolher quais as outras iriam levar para lá", detalhou Gomes. Aos policiais, o suspeito disse que estava sendo extorquido por traficante da capital mineira, mas a versão não convenceu os investigadores.

"A alegação dele vai contra os dados que a gente levantou, contra os extratos bancários e contra a vida que ele vivia. Ele podia ter procurado a polícia, mas optou por viver uma vida de luxo", rebateu o delegado. Quando ficava hospedado em BH, o homem escolhia hotéis de alto luxo. O suspeito, inclusive, usava as redes sociais para ostentar a vida com alto padrão.

O inquérito que apura o estelionato e o abandono material - crime contra a assistência familiar -, deve ser concluído na próxima quinta-feira (1º). Mas o investigador adiantou que outro inquérito será aberto. "Desta vez para apurar o crime de lavagem de dinheiro", informou.

A reportagem do Hoje em Dia não conseguiu contato com o advogado Túlio César de Melo Silva, que representa do suspeito, para comentar sobre a denúncia.

Campanha

A campanha para ajudar o menino, que mora em Conselheiro Lafaiete, na região Central de Minas, ficou nacionalmente conhecida e recebeu o apoio de diversos famosos. A ação, criada para arrecadar R$ 2 milhões, conseguiu coletar mais de R$ 1 milhão em um ano. Após a denúncia do desvio do dinheiro por parte do pai, a mãe da criança disse, em uma rede social, que também foi enganada. Ela ressaltou que lançou a campanha "pela boa-fé e com a finalidade exclusiva de tentar salvar a vida" do filho.

AME

A AME é uma doença genética que atinge a coluna vertebral. As pessoas que têm a doença vão perdendo o controle e força musculares, ficando incapacitados de se mover, engolir ou mesmo respirar, podendo, inclusive, morrer. Desde junho, o medicamento Spinraza, usado no tratamento das crianças portadoras da AME, é disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde.

O tratamento consiste na administração de seis frascos com 5 ml no primeiro ano e, a partir do segundo ano, passam a ser três frascos. A medida teve como base diversos estudos que apontam a eficácia do medicamento na interrupção da evolução da AME para quadros mais graves e que são prevalentes na maioria dos pacientes.

Leia mais:

Mãe afirma ter agido de boa-fé ao denunciar marido que usava dinheiro do filho doente
Policiais fizeram evento para arrecadar fundos para menino com AME em Conselheiro Lafaiete
Mineiro que arrecadou R$ 1 milhão para tratamento do filho é preso gastando o dinheiro na Bahia