Problema antigo e sem solução a curto prazo, o transporte clandestino intermunicipal, oferecido na porta da rodoviária de Belo Horizonte, está mais articulado do que nunca. Se antes os perueiros comercializavam os destinos aos gritos e os veículos ficavam parados em estacionamentos próximos ao terminal, agora a abordagem é discreta e o embarque, em domicílio.

Após pagar pela viagem, o passageiro é orientado a seguir para um determinado ponto da região central à espera de um carro de passeio, van ou ônibus. Famílias ou grupos de amigos, se preferirem, podem aguardar na porta de casa. Os infratores garantem buscar as pessoas em qualquer bairro da capital.

A nova estratégia para burlar a fiscalização reforça os abusos constantes em vários pontos da metrópole. Na edição dessa segunda-feira (12), o Hoje em Dia mostrou que esses motoristas são vistos sem o menor constrangimento pelas ruas do hipercentro. Eles contam até com o apoio de um agenciador – ajudante que aborda quem está nos pontos do transporte público para detalhar o serviço. Só neste ano, as multas a esses condutores mais que dobraram em BH. 

Destinos

Em frente à rampa de acesso à rodoviária, um homem que diz ser motorista profissional oferecia deslocamentos para Mariana e Ouro Preto, na região Central, e cidades mais distantes, como Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, e Montes Claros, no Norte de Minas.

Um dos atrativos é o preço. Uma viagem para um grupo de no mínimo dez pessoas rumo a Montes Claros custa R$ 100, cada passagem. O valor, no entanto, pode ser negociado. Em ônibus convencional das empresas regularizadas, o bilhete chega a R$ 130. “Busco e entrego em casa, se preferir”, disse o rapaz.

Especialista em segurança viária e professora do Departamento de Engenharia de Trânsito, do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), Karla Rodrigues afirma que o risco ao se optar por automóveis irregulares é ampliado, podendo resultar em “consequências irreversíveis”.

Além dos perigos típicos das rodovias e viagens mais longas, a docente cita que nem sempre os condutores estão habilitados na categoria D, que autoriza a permissão para dirigir ônibus. “Às vezes, o passageiro pode estar embarcando com uma pessoa agressiva ao volante, que não conhece a dinâmica da estrada, agravando os riscos”.

Fiscalização

A Polícia Militar e a Guarda Municipal informaram não ter como agir no que se refere à atuação do agenciador, uma vez que as punições são feitas com base no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que prevê multa aos motoristas. 

Responsável pela fiscalização nas rodovias mineiras, o Departamento Estadual de Estradas e Rodagens de Minas Gerais (DEER-MG), diz que, de janeiro a setembro deste ano, 1.659 autuações foram feitas. Dessas, 167 foram registradas na Grande BH. Ao todo, 276 veículos foram apreendidos, segundo o órgão, por documentação irregular.

Conforme o DEER, o motorista flagrado precisa pagar R$1.625,70. Em caso de reincidência, a taxa é duplicada. A Agência Nacional de Transportes Terrestres, que faz a fiscalização nas vias federais, foi procurada, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.

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