Procedimentos não urgentes suspensos e avaliação minuciosa dos doadores, por conta da pandemia de Covid-19, contribuíram para a queda de 30% nos transplantes de órgãos e tecidos em Minas Gerais no primeiro semestre deste ano. Os de córnea e de rim com doador vivo foram os mais impactados. Enquanto de janeiro a julho de 2019 foram, respectivamente, 647 e 99 cirurgias no Estado, nos últimos seis meses elas despencaram para 350 e 30.

Os dados, do MG Transplantes, também apontam que houve reflexos na fila de espera. Desde o início de abril até 6 de agosto, 230 pessoas passaram a integrar a lista.

O aumento maior foi entre os que aguardam por uma córnea. Do total de novos candidatos a transplantes em Minas, 72% (167) são para esse tipo de procedimento. 

Alguns fatores impactaram nas estatísticas, frisa o coordenador do MG Transplantes, Omar Cançado. “No caso de cirurgias entre doador vivo, há risco tanto para o receptor quanto para quem está doando, que precisa ir ao hospital e pode se contaminar”.

No que diz respeito às córneas, o médico ressalta que, normalmente, a maioria vem de pessoas que morreram por parada cardíaca. “Até o momento, nenhum dos exames usados para detectar o novo coronavírus, como o RT-PCR, foram validados para esses doadores de coração parado, que podem ter a doença e não sabermos. Os testes podem dar falso-negativo”, explica.

De acordo com o MG Transplantes, procedimentos de urgência de córneas e de rim estão realizados normalmente

Em meio a esse cenário, os tecidos usados nos transplantes estão sendo captados de óbitos por morte encefálica. Porém, esses são em menor número, destaca o coordenador do MG Transplantes.

Próximos meses

Omar Cançado espera que a captação de córneas volte a crescer ao longo do próximo mês, se for registrada uma curva descendente de novos casos de Covid-19 no Estado. Uma campanha nas redes sociais está prevista para setembro, na tentativa de chamar a atenção da população para o tema.

Mas mesmo com essa retomada, o vice-presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), Gustavo Fernandes, acredita que a demanda por cirurgias deve crescer nos próximos meses. Por causa da pandemia, muitas pessoas deixaram de ir ao médico com medo de serem contaminadas pelo novo coronavírus e muitas delas deixaram de ser diagnosticadas com alguma doença que, inclusive, pode demandar transplante de órgãos e tecidos.

O nefrologista não descarta uma sobrecarga no sistema com mais doentes precisando dessas cirurgias. “O serviço terá que se estruturar para isso, para receber esses pacientes que ficaram perdidos nesse período”, destaca o médico, que também coordena o Programa de Transplantes da Santa Casa de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira.

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