O contágio por coronavírus entre crianças de 0 a 5 anos que comparecerem a escolas poderá ser mais brando se comparado às faixas etárias de 6 a 14 e de 15 a 19. A conclusão é de uma simulação feita pela UFMG, com base em cálculos internacionais semelhantes, sobre interações sociais. Nos próximos meses, o estudo avançará para uma avaliação em campo, realizando testes em 1 mil participantes em Belo Horizonte.

Conforme explica o professor, sociólogo e coordenador do estudo, Silvio Salej Higgins, o resultado da simulação foi possível após a integração de um modelo probabilístico chamado SIR (Suscetíveis, Infectados e Recuperados) com a quantidade média de contatos sociais que uma faixa etária costuma ter diariamente - números esses já estabelecidos em estudos internacionais anteriores.

"Um bebê não tem tantos contatos: a mãe, o pai e a pessoa que cuida, na creche. Já na faixa de 14 a 19 anos, há um crescimento no volume de contatos físicos. Essa informação é muito poderosa e entrega prognósticos muito realistas", explicou o docente.

Outros dois pontos que foram estipulados pela pesquisa são: a simulação ocorreu em uma classe hipotética composta por 40 crianças ou adolescentes que frequentam aulas presenciais em dias alternados; e usam máscara, item que, também de acordo com análises, tem eficácia média comprovada de 68%.

A pesquisa da UFMG focou em três faixas etárias: 0 a 5 anos; 6 a 14 e 15 a 19. Com base em todos esses parâmetros, a conclusão é de que o contágio em crianças menores é mais brando (demora-se mais tempo para ter infecções e elas ocorrem em menos pessoas). Ao mesmo tempo, de acordo com o estudo, nos três cenários etários analisados, a contaminação é mais "expressiva" em indivíduos de 6 a 14 anos (demora-se menos tempo para ocorrer infecções e elas ocorrem em número maior de pessoas). Veja abaixo na comparação:

0 a 5 anos
- Um indivíduo infectado vai à aula (sem máscara): são necessários 30 dias para a doença atingir o pico e ocorrer a contaminação de outras 20 pessoas;
- Um indíviduo infectado vai à aula (com máscara): são necessários 60 dias para a doença atingir o pico e ocorrer a contaminação de outras 10 pessoas.

6 a 14 anos
- Um indivíduo infectado vai à aula (sem máscara): são necessários 9 dias para a doença atingir o pico e ocorrer a contaminação de outras 90 pessoas;
- Um indíviduo infectado vai à aula (com máscara): são necessários 15 dias para a doença atingir o pico e ocorrer a contaminação de outras 60 pessoas.

15 a 19 anos
- Um indivíduo infectado vai à aula (sem máscara): são necessários 8 dias para a doença atingir o pico e ocorrer a contaminação de outras 80 pessoas;
- Um indíviduo infectado vai à aula (com máscara): são necessários 13 dias para a doença atingir o pico e ocorrer a contaminação de outras 40 pessoas.

A pesquisa também avaliou o cenário de uma sala de aula com cinco indivíduos infectados e com dez pessoas contaminadas para cada um dos cenários etários (veja na figura abaixo).

estudo

Resultados da simulação mostram contaminação 'menor' em crianças de 0 a 5 anos

Máscara e testagem

Dadas as conclusões do estudo, que contou com profissionais da Sociologia, Estatística e Demografia, o professor Silvio Salej Higgins reforça que, além do uso da máscara, a testagem dos estudantes que vão à escola é essencial.

"Nossa metodologia foi capaz de mostrar em quantos dias um percentual de alunos e seus familiares seriam infectados por meio da sua rede de contatos no ambiente da escola e da família. Nesse caso específico, foi constatado que abrir as escolas, sem testar a população escolar massivamente, seria um tiro no escuro", afirmou o pesquisador.

Próxima etapa

Ainda conforme o especialista, após a conclusão da simulação via cálculo matemático, o próximo objetivo do levantamento é ampliar as faixas etárias estudadas e mensurar o contato diário das mesmas, em campo. Para isso, foi definido um grupo de 1 mil pessoas de quatro faixas etárias: 0 a 14 anos; 15 a 34; 35 a 50 e maiores de 60 anos, todos moradores do Aglomerado da Serra, na região Centro-Sul da capital mineira.

"Com base nas informações coletadas, o grupo será capaz de dimensionar o tipo e a quantidade de contatos desses indivíduos e, a partir daí, criar projeções de contágio e evolução da pandemia nas outras regiões de Belo Horizonte e em outras cidades no Brasil", informou a UFMG, em nota.

Retorno às aulas

Nessa segunda-feira (21), a Prefeitura de Belo Horizonte liberou a retomada do ensino presencial nas redes pública e particular para crianças de 0 até 5 anos e 8 meses, justamente a faixa etária apontada pela pesquisa da UFMG como a com o risco mais brando de contágio. As crianças poderão frequentar as escolas e creches da capital a partir da próxima segunda (26).

De acordo com a secretária municipal de Educação, Ângela Dalben, cada rede vai dar orientações específicas às instituições, "sempre inspiradas e fundamentadas no protocolo da cidade". A expansão para alunos de idades à frente ainda será avaliada.

Procurada para informar se realizará a testagem de alunos, a PBH disse que o protocolo de funcionamento das escolas será publicado, por meio de portaria da Secretaria Municipal de Saúde, ainda nesta semana.

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