A Polícia Civil informou na noite desta segunda-feira (8) que concluiu as investigações sobre a contaminação de diversas pessoas diagnosticadas com síndrome nefroneural, provocada por consumo das substâncias tóxicas monoetilenoglicol e dietilenoglicol, supostamente presentes em cervejas da marca mineira Backer. Pelo menos 42 pessoas foram intoxicadas e nove morreram. Segundo a corporação, a hipótese de sabotagem está descartada.

Os trabalhos duraram pouco mais de cinco meses e foram coordenados pela 4ª Delegacia de Polícia Civil Barreiro, em Belo Horizonte. O inquérito acumula cerca de 4 mil páginas e mais de 70 pessoas prestaram depoimentos, entre vítimas sobreviventes, suspeitos e testemunhas. Em entrevista coletiva marcada para esta terça-feira (9), a Polícia Civil vai repassar mais detalhes da conclusão do inquérito.

De acordo com a Associação das Vítimas da Backer, até o momento, ninguém recebeu assistência financeira da cervejaria para cobrir as despesas com os tratamentos médicos, apesar de uma determinação da Justiça. Apenas um dos pacientes recebeu um custeio emergencial por dois meses, que foi interrompido no início de maio.

Todos os bens da Backer estão bloqueados pela Justiça desde março. A empresa alega que, por isso, não tem recursos para arcar com os custos de auxílio às supostas vítimas.

A Backer informou ainda que espera uma decisão judicial sobre a possibilidade de venda do estoque de cerveja - 240 mil litros de bebida envasados - para que esses valores sejam repassados.

Em comunicado, a cervejaria explicou que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) "entregou à Backer exames que atestam que 219 lotes de cerveja em estoque estão 'de acordo com os padrões oficiais de identidade e qualidade estabelecidos" e que está pleiteando na Justiça a venda desse estoque certificado pelo Mapa, para que possa honrar compromissos empresariais (colaboradores, funcionários e fornecedores)".

A cervejaria disse que solicitou que parte desse recurso seja utilizado para pagamento do auxílio emergencial a consumidores com sintomas de intoxicação. A empresa reconhece que "algo de muito grave aconteceu e reitera que vai honrar com todas as suas responsabilidades". E  garante que "jamais adquiriu dietilenoglicol, substância suspeita de ter causado a intoxicação de consumidores".

Paciente recebe alta

Uma boa notícia sobre o caso é que após quase 180 dias internado em um hospital de Belo Horizonte, 65 deles em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o bancário Luciano Guilherme, de 57 anos, voltou para casa na última quarta-feira (3). A alta hospitalar, para evitar possível contágio de Covid-19, foi em ritmo de comemoração, com direito a balões e até serenata feita pela equipe do hospital.

"Meu apartamento tem apenas 70m², mas agora  é como se fosse uma mansão para mim", comemorou Luciano.

O bancário foi internado com paradas cardíacas, passou por duas cirurgias de colostomia, sendo retirados 70 cm do intestino. As funções renais dele estão permanentemente comprometidas. Além disso, ele teve danos à audição, visão e paralisia facial. "Entrei no hospital em 6 de dezembro, imaginando que faria alguns exames e sairia dois dias depois. Mas só fui acordar após 65 dias no CTI, sem entender o que estava acontecendo".

Mesmo em casa, ele ainda vai precisar passar por um longo processo de recuperação. Com várias sequelas, Luciano vai precisar de sessões de fisioterapeuta, fonoaudiólogo, além de medicamentos.