Pelo menos dez idosos podem ter morrido em consequência de torturas e maus-tratos sofridos em um asilo localizado em Santa Luzia, na Grande BH. A suspeita é investigada pela Polícia Civil (PC), que já prendeu as duas proprietárias da instituição, que são mãe e filha. A prisão preventiva de uma terceira pessoa foi solicitada à Justiça.

"Abrimos inquérito para investigar essa denúncia. Já solicitamos à Secretaria Municipal de Saúde os prontuários de todos os pacientes que deram entrada nos hospitais da cidade", destacou a delegada Bianca Prado, responsável pelo caso.

No período de um ano, conforme apurou a PC, três idosos morreram. Mas, de acordo com um ex-funcionário da casa de repouso, "esses sete óbitos teriam ocorrido nos últimos cinco meses", revelou a delegada.

As duas suspeitas, por meio do advogado Welbert Souza Duarte, negam veementemente os crimes de tortura. Elas estão reclusas no presídio de Vespasiano, também na Grande BH. O defensor já entrou com um pedido de habeas corpus, que está em análise pela Justiça mineira.

Degradação

De acordo com a polícia, os internos tinham alimentação restrita, eram castigados, maltratados e torturados. Foi uma denúncia anônima que levou os investigadores à casa de repouso na última quinta-feira (25), encontrando uma situação "degradante e extremamente triste".

"Não tenho palavras para descrever o que vi lá. Os internos tinham olhar de medo. Alguns apresentavam feridas aparentes e reclamaram que tinham sido agredidos pelos cuidadores", descreveu a delegada Bianca Prado.

Os pacientes disseram, ainda, que recebiam socos, pontapés, voadoras e eram espancados com bengalas. "Há relatos de pacientes que ficavam 24 horas sem comer. Alguns, quando pediam comida, recebiam baldes de água fria. Quando chegamos lá, alguns pacientes estavam de castigo, sendo proibidos de saírem dos quartos", contou.

A higiene do ambiente também não era a ideal. A polícia encontrou uma fossa aberta e os pacientes circulando próximo à água suja. Além disso, conforme as apurações, os cuidadores tinham apenas uma única luva para atender todos os pacientes ao longo do dia.

delegada bianca prado

Delegada Bianca Prado explica o caso

Abandono

Além de idosos, o asilo também abrigava pessoas jovens e adultas com problemas mentais, de locomoção, e até acamados. A paciente mais nova é uma cadeirante de 23 anos, vítima de meningite. O mais velho tem aproximadamente 85 anos. 

Quando a polícia chegou ao local, encontrou cerca de 50 internos. O valor da mensalidade variava entre R$ 998 a R$ 1.500. "Não tinha uma taxa fixa, eles cobravam aquilo que a família podia pagar", informou Bianca Prado.

As visitas na casa de repouso eram permitidam três vezes na semana, mas o relato é do abandono de muitos pacientes. "Quando chegamos, apenas três famílias estavam no local. Quase uma semana depois do fato, ainda temos pacientes que não foram procurados pelos parentes", lamentou a delegada.

Internação

A Prefeitura de Santa Luzia informou que 17 idosos tiveram que ser internados no Hospital Municipal Madalena Parrilo Calixo, após a intervenção policial. Um deles recebeu alta nesta terça-feira (30) e foi "resgatado" pela família. 

O último boletim médico divulgado pela unidade de saúde revela que três pacientes estão em situação mais grave, recebendo cuidados paliativos. "Os demais pacientes seguem estáveis internados em nosso hospital", destacou o documento.

Do total de internados, o Executivo municipal conseguiu encontrar os responsáveis por apenas nove pacientes. "A Prefeitura de Santa Luzia, por meio da Secretaria de Desenvolvimento e Cidadania, está fazendo um trabalho minucioso para localizar as famílias dos idosos internados no Hospital Municipal", esclareceu, em nota.

A prefeitura ainda destacou que, "por se tratar de uma instituição particular, aguarda decisão judicial sobre fechamento ou não da casa e quais procedimentos deverão ser tomados em relação aos pacientes e ao local a partir disto". 

Ilegalidade

O asilo não tinha alvará, mas, conforme as apurações iniciais da polícia, funcionava desde 2017 no bairro Barreiro do Amaral. Antes desta data, estava instalado no bairro São Benedito, também em Santa Luzia. A mudança ocorreu depois que vizinhos começaram a denunciar os maus-tratos. "Queriam fugir da fiscalização", acredita a delegada.

Mesmo funcionando sem autorização, a casa de repouso continua sendo o abrigo de vários idosos e acamados. Enquanto não são retirados pelas famílias, os pacientes permanecem lá. "Só que agora sob a supervisão da prefeitura e da Guarda Municipal, que faz a vigilância do espaço 24 horas por dia", explicou Bianca Prado.

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