Deverão ser indiciados por abandono de incapaz os familiares que não buscarem os idosos vítimas de maus-tratos em um asilo de Santa Luzia que foram internados em um hospital do município, na Grande BH. O asilo em questão foi fechado no mês passado após a corporação identificar que não havia alvará de funcionamento e que os acamados eram torturados.

De acordo com a Secretaria de Saúde da cidade, a família de um idoso não foi ao Hospital Municipal buscá-lo após ele ter recebido alta na sexta-feira (9). A polícia, entretanto, já informou que o mesmo ocorreu com outras dez famílias. A situação foi reportada pela prefeitura ao Ministério Público e outro familiar será contactado para responsabilizar-se pelo paciente. 

Ainda conforme a pasta, há outras pessoas internadas no hospital que estavam no asilo. O número, no entanto, não foi informado pela assessoria de imprensa da prefeitura de Santa Luzia. “São adultos (abaixo dos 60 anos) que não se enquadram no sistema de institucionalização e não há identificação de familiares”, disse, em nota. Um relatório sobre a situação destas pessoas será emitido e enviado ao Ministério Público. 

Questionada sobre o assunto, a Polícia Civil informou que recebeu a confirmação de que algumas famílias já buscaram os idosos. Todavia, a corporação informou no caso dos idosos que se a família recusar a responsabilidade será aberto “inquérito policial de abandono de incapaz”. 

Mortes, insalubridade e prisões: relembre o caso 

O asilo Acolhendo Vidas foi interditado pela prefeitura de Santa Luzia em 25 de julho, após a Polícia Civil receber denúncia do Executivo municipal de que dois idosos que saíram do espaço morreram.Quando a polícia o loca foi descoberto 47 pessoas estavam internadas no local.Deste total, 17 idosos tiveram que ser internados no Hospital Municipal Madalena Parrilo Calixo. 

Dois receberam alta, mas um teve que retornar para a unidade de saúde "devido condições de moradia inadequada". A morte de dez idosos que estavam acamados no espaço é apurada. Durante as investigações, que ainda estão em andamento, a corporação descobriu que os acamados chegavam a ficar três dias sem comer e que cartões bancários dos idosos podem ter sido usados para o saque de aposentadorias.

Outra constatação é de que o ambiente era insalubre e que os internos sofriam violência física. Quatro pessoas da mesma família, que administravam o asilo, e um cuidador já foram presos pela polícia suspeitos de participação nos casos de tortura. Delegada que investiga o caso, Bianca Prado declarou que tem provas contundentes de que todos os presos praticaram crimes de tortura. Ela citou que os pacientes eram colocados de "castigo" e ficavam até três dias sem comer. 

Além disso, ainda conforme a delegada Bianca Prado, se os internos fizessem alguma reclamação, recebiam banho de água gelada, que era retirada da piscina. "Na hora da refeição, a dona passava pela mesa com uma bengala na mão. Se alguém derramasse algo, a bengalada ia nos idosos", contou.

Conforme os depoimentos dos internos à polícia, eles eram agredidos com tapas, socos, pontapés e até voadoras. Todos os suspeitos negaram participação no crime de tortura e alegaram inocência. "É lógico que ninguém assume ser um torturador, então não temos uma confissão nos autos", observou Prado. 

"É muito claro que não estamos falando de maus-tratos e, sim, tortura. É muito claro que todos eles [os suspeitos] tinham ciência do que estavam fazendo. É muito claro que um aceitava a conduta do outro. A família agia junto", prosseguiu. A investigadora já ouviu 27 testemunhas no inquérito que investiga o caso. "Cada vez que avançamos nas investigações, novos fatos surgem", falou.

O advogado Welbert Souza Duarte, que representa os quatro donos do asilo que foram presos, informou que seus clientes negam veementemente os crimes de tortura. A reportagem não conseguiu contato com o defensor do cuidador, que também foi detido. 

(* Com informações de Cinthya Oliveira e Renata Evangelista). 

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