A primeira travesti da América Latina a se candidatar a um cargo no Senado, a professora mineira Duda Salabert, anunciou nesta segunda-feira (7) que será mãe. A mulher dela, Raísa Novaes, com quem está casada há sete anos, completa quatro meses de gestação. Duda, que terminou a campanha de 2018 com números inéditos, conversou com a reportagem sobre o bebê gerado biologicamente pelo casal e sobre suas perspectivas políticas. 

O bebê chamado Sol deve nascer em julho. Em tempos de "meninas vestem rosa e meninos vestem azul", como lembrou Duda em referência à fala da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que viralizou na última semana, o nome da criança também é um ato político. 

"Com a escolha de um nome neutro, damos total liberdade para que esta criança se reconheça sem nenhuma pressão familiar e também mostramos que ela vai ser amada independentemente de seu gênero e sua orientação sexual", conta.   

Duda ainda lembra que um estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), há cerca de dois anos, mostra que 6% das travestis e transexuais foram expulsas de casa com menos de 12 anos de idade. "Ou seja, para estas pessoas, a família acaba sendo um espaço de reprodução de violência e ódio", diz. 

A gravidez foi planejada e, segundo os cálculos da professora, a criança foi concebida em meio ao turbilhão da campanha eleitoral de 2018, quando ela concorria ao cargo de senadora por Minas Gerais. Mesmo não ganhando, Duda acabou saindo vitoriosa do pleito, com a marca de 351 mil votos, a maior votação do PSOL em Minas e a 10ª candidatura mais votada no Estado, incluindo os candidatos à presidência e ao governo. É com base nestes números, que ela acredita que Sol vai ser uma criança cercada por mais amor e afeto do que ódio e intolerância. 

"Eu entendo que o que elegeu o atual presidente foi um sentimento de mudança econômica no país e que o debate de gênero e sexualidade, embora cause grande repercussão social, não é o tema com o qual a sociedade mais se preocupa, pelo contrário. Eu vejo que a sociedade está mudando cada vez mais e respeitando a diversidade sexual e de gênero. Por mais que haja a ameaça de retirada de direitos de pessoas LGBTs, vai haver também muita resistência. Para se ter uma ideia, eu tinha apenas 4 segundos de propaganda na TV, e mesmo assim eu fui votada em todos os 853 municípios mineiros. Por onde eu passei durante a campanha, eu recebi muito mais afeto, carinho e apoio do que ódio", relata. 

Veja o anúncio sobre a gravidez, publicado nesta segunda-feira:

Futuro político

Sol vai chegar para incrementar a família de Duda e da mulher Raísa Novaes, e seus 12 bichos de estimação (três cachorros, três coelhos e seis gatos), dos quais 10 foram resgatados . A proteção animal é uma das bandeiras da professora que atuou, recentemente, no resgate da cachorrinha Cindy, agora chamada Maria Bonita, e que ganhou um novo lar após ser vítimas de maus-tratos

"Eu e minha esposa somos veganas e respeitamos todas as formas de vida, e Sol é essa nova vida que vai vir literalmente somar à nossa família", comenta. Além da defesa dos animais e do meio ambiente, ela também tem como prioridades as bandeiras da diversidade e da educação, já que é professora há 18 anos em Belo Horizonte.
   
Para 2020, Duda estuda se candidatar inicialmente à Prefeitura de Belo Horizonte, mas não descarta a possibilidade de uma candidatura ao cargo de vereadora na capital. "Com certeza vou me candidatar em 2020, porque o que eu consegui nesta última eleição com poucos recursos e pouco tempo de televisão foi histórico e mostra que as pessoas acreditam nestes projetos. A minha candidatura é uma obrigação", finaliza. 

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