Na Rodoviária de Belo Horizonte, o terceiro dia de restrições ao transporte intermunicipal em Minas é de pouco movimento e de reclamações de passageiros sobre a falta de orientações sobre prevenção ao coronavírus, nesta quarta-feira (25), na área de desembarque do terminal e no interior dos ônibus. A rodoviária informou que tem entregue panfletos e divulgado vídeos sobre a doença, mas muitos ainda se sentiam perdidos e sem orientações. Veículos de viagem, vindos de cidades como Congonhas e João Monlevade, ambas na região Central do Estado, têm chegado ao terminal com quantidade média de 10 passageiros por carro. Em alguns deles, motoristas e auxiliares de cobrança têm utilizado máscaras de proteção. 

Assinadas pelo governador Romeu Zema (Novo) na última sexta-feira (20), as restrições passaram a valer nessa segunda e exigem que os ônibus que circulam entre cidades mineiras transportem, no máximo, metade de sua capacidade, sempre com público sentado.

Na rodoviária da capital, ônibus têm chegado com intervalos de 10 a 15 minutos, sempre com quantidade média de até 10 passageiros. Apesar da clientela fraca, passageiros ouvidos pela reportagem afirmaram que não têm recebido orientações de funcionários das empresas de transporte e das rodoviárias por onde passaram sobre prevenção durante o trajeto, contato com outros passageiros ou sobre sintomas da doença, que tem, nesta quarta-feira, 133 casos confirmados para a enfermidade em Minas.

Por isso, receosos sobre o combate à Covid-19, os viajantes têm se cuidado por conta própria. É o caso da operadora de caixa Deisiane Almeida, de 25 anos, que desembarcou em BH após estada em Curvelo, na região Central. “Havia só cinco pessoas. Nós mesmos nos organizamos para ficarmos bem distantes um do outro”, relatou. Deisiane contou que só viajou por necessidade de trabalho, inadiável. Veja, acima, vídeo com João Victor e Deisiane.

Com máscara no rosto, Júnia de Souza, de 29 anos, chegou à capital nessa manhã após uma viagem a Congonhas, também na região Central, onde vivem seus pais. A desempregada havia ido para a cidade no começo do mês, antes do início das ações de isolamento social, mas precisou retornar. Ela também afirmou que não foi orientada nem pela rodoviária, nem pela empresa de viagens, sobre como se proteger da doença. “Tenho medo. Não tenho sintomas, mas uso máscara e álcool em gel”, contou a jovem. 

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Júnia de Souza (à esquerda)

Viagem a passeio interestadual

A dupla de colegas de trabalho Expedito Rodrigues Vieira, de 55 anos, e Augusto César de Lima, de 57, chegou em BH nessa manhã, vinda de Itabirito, na região Central, para alugar um carro e seguir até Petrolina, no interior de Pernambuco. "Medo tenho sempre, mas tem que viajar. Tô de férias coletivas", afirmou Vieira, que é acoplador na empresa. Em Minas, as viagens interestaduais de ônibus estão proibidas.

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Expedito Rodrigues Vieira e Augusto César de Lima (de máscara) irão para Petrolina (PE) de carro

Por medo, Augusto, que atua como lubrificador, decidiu usar a máscara. "É uma prevenção. Graças a Deus, não tenho sintomas", disse. Segundo as recomendações do Ministério da Saúde, a máscara deve ser utilizada apenas por quem tem indícios da Covid-19.

Viagem só por necessidade

O vendedor João Victor Araújo, de 23 anos, mora em BH, mas como está de férias coletivas foi para João Monlevade, na região Central, no último dia 15 deste mês. Infelizmente, precisou retornar à capital devido à uma urgência, mas o rapaz pretende resolver tudo rápido para seguir à cidade natal.

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O vendedor João Victor Araújo, de 23 anos

"Temos que ficar em casa e nos cuidarmos. Assim que eu resolver minha questão, vou voltar para a casa dos meus pais. Lá está tudo parado e não sei como estão as coisas aqui em BH. Eu só vim por necessidade, mesmo", contou.

Outro lado

A reportagem entrou em contato com a Rodoviária de Belo Horizonte e com o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros no Estado de Minas Gerais (SINDPAS) para entender quais as ações estão sendo colocadas em prática para a proteção e orientação dos passageiros diante do coronavírus.

Em nota, a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), empresa pública responsável pela Rodoviária de BH, informou que intensificou a limpeza, criou medidas de prevenção para funcionários e liberou aqueles pertencentes aos grupos de risco. Leia a nota completa abaixo:

A Rodoviária de BH intensificou a limpeza, inclusive com uso de álcool em gel, principalmente em áreas de contato, como corrimãos, botões de elevador e longarinas. Em paralelo, está havendo distribuição de peças gráficas da Secretaria de Estado de Saúde e a exibição de vídeo educativo em monitores do hall principal, ampliando a conscientização do público sobre o assunto. Álcool em gel também está sendo disponibilizado em pontos específicos, como recepção (mezanino) e balcão de informações (área de desembarque). A administração do terminal segue em contato com o Governo estadual, para o alinhamento de outras ações específicas que possam ser adotadas no espaço, conforme diretrizes do Estado. No que se refere às empresas de ônibus, compete a elas a adoção de eventuais medidas no interior dos veículos. 

Fechamento temporário de lojas
 
Todos os locatários que atuam na Rodoviária de BH foram comunicados pela empresa Socicam, concessionária responsável pela gestão dos espaços comerciais do Terminal, sobre a observância ao Decreto Municipal nº 17.304, de 18 de março de 2020, que suspende, a partir do dia 20/03 e por tempo indeterminado, os alvarás de localização e funcionamento e autorizações emitidos para realização de atividades com potencial de aglomeração de pessoas, incluindo lojas, bares, restaurantes e lanchonetes.
 
Diante disso, das 68 unidades comerciais ocupadas na Rodoviária, apenas uma parte (menos de 10) seguem funcionando no momento, como drogaria, lotérica, guarda-volumes e Correios, além de estabelecimentos alimentícios que estão atendendo somente para entregas. As praças de alimentação da Rodoviária também estão temporariamente desativadas.
 
Queda na movimentação
 
A Rodoviária registrou queda de 9% tanto nos embarques quanto nos desembarques nas duas primeiras semanas de março, em comparação com as duas primeiras semanas de fevereiro/2020. Nos últimos dias, entre 18 e 22/3, observou-se queda em torno de 50% no volume de embarques e desembarques, em comparação com o mesmo período da semana anterior. No dia 22/3, a redução na movimentação chegou ao patamar aproximado de 76% na quantidade de embarques e de 70% na de desembarques, em relação a um dia típico.
 
Até o momento, não houve comunicado oficial da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) quanto a eventual impedimento de tráfego rodoviário ligando o Terminal a outros estados ou cidades. No setor rodoviário, segundo a ANTT, a única medida de suspensão até o momento é para o transporte internacional de passageiros, o que não é o caso da Rodoviária de BH.
 
Cuidados com os funcionários
 
Os mais de 260 funcionários da Rodoviária também estão sendo considerados nas medidas de prevenção. Os 56 colaboradores que compõem grupos de risco (idosos, gestantes, hipertensos, diabéticos ou com doenças respiratórias) foram liberados. Os empregados com cargos administrativos estão em teletrabalho, exceto os de atividades operacionais (tráfego e segurança), que estão em rodízio. Também está sendo incentivada a intensificação na higienização das mãos, com disponibilização de álcool em gel".

Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros no Estado de Minas Gerais

Já o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros no Estado de Minas Gerais (SINDPAS) informou que as concessionárias de transporte intermunicipal, assim que surgiu a ameaça do coronavírus, intensificaram a higienização interna dos veículos e ar condicionado, sempre atentas e seguindo as recomendações dos órgãos públicos. Leia abaixo:

"Atualmente, em especial, as Deliberações nºs 8, de 19.3.20, e 17, 22.3.20, do Comitê Extraordinário Covid-19 determinaram: veículo de característica urbana, somente passageiros sentados e redução à metade da capacidade para veículos rodoviários (i); limpeza minuciosa (ii), higienização ar condicionado (iii); janelas abertas, quando possível (iv) e fixação de cartazes (v)". O Sindpas confeccionou um cartaz para esclarecimentos aos passageiros. 

Sobre o uso de máscaras a funcionários, o Sindpas informou que as empresas devem seguir a orientações dos órgãos públicos e repassá-las aos seus funcionários. "As máscaras, segundo a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, são recomendadas apenas para profissionais de saúde e pessoas com sintomas. Contudo, se o motorista ou auxiliar de viagem apresentarem qualquer sintoma da Covid-19 ele deve ser imediatamente afastado".

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