As recentes denúncias de abusos contra mulheres durante sessões de tatuagem – que levaram, inclusive, à prisão de um tatuador de Belo Horizonte – motivaram um grupo de tatuadoras da capital a criar a cartilha “Minha tatu, minhas regras”. Em um formato bastante educativo e didático, o material traz dicas e cuidados para evitar situações de assédio durante as sessões e deve ser lançado e distribuído gratuitamente ainda neste mês. 

Confira o vídeo com algumas dicas que estarão na cartilha:

Entre os pontos destacados pelas tatuadoras, estão:

1 - Você não precisa se despir: ficar sem o sutiã, por exemplo, só é necessário se a tatuagem for no mamilo;

2 - Atenção ao excesso de toque. Se o profissional encostar demais fora da área onde o desenho está sendo feito, em locais inapropriados, desconfie. Às vezes acontece sem querer ou o tatuador precisa tocar, mas ele sempre vai te avisar se esses forem os casos;

3 - Fotografias somente se autorizadas. Se um tatuador pede que você pose nua ou seminua para mostrar a tatuagem, não permita se este não for seu desejo;

4 - Assédio também pode ser verbal. Além do toque, o assédio também pode acontecer na conversa ou até no olhar. Fique atenta, se algum desses aspectos incomodar, não tenha medo de ir embora. É possível concluir o trabalho com outro profissional.

5 - Você não precisa tocar o tatuador. Se o profissional pedir que você repouse a mão em alguma parte do corpo dele, não obedeça, não é necessário em momento algum que o cliente se apoie no tatuador.

Iniciativa

“Um ponto em comum que identificamos com as denúncias apresentadas à Duda [Salabert] foi a falta de informação sobre o procedimento, que era usada em favor dos abusadores para cometer o crime”, explicou Thereza Nardelli, uma das integrantes do movimento. A tatuadora ficou conhecida no ano passado após seu desenho com os dizeres “Ninguém solta a mão de ninguém” viralizar nas redes sociais.

Com o lançamento previsto para o dia 13 deste mês, a cartilha vai trazer dicas para que as clientes se atentem na hora de marcar e de realizar um procedimento de tatuagem. O conteúdo do material aborda temas como o comportamento adequado do profissional perante a cliente, como identificar situações de assédio e como reagir quando um ato inapropriado for percebido.

Além das tatuadoras, a ativista Luiza Alana, do coletivo Não é Não, também participou da confecção da cartilha. O coletivo ficou responsável por elaborar o conteúdo relacionado ao crime de assédio, explicando os limites entre o que é o trabalho e quando passa a ser um comportamento abusivo. “O nosso trabalho é justamente o de difundir de forma bem didática esse conhecimento sobre o que é e como reagir ao assédio, já que essa discussão ainda está muito fechada no ambiente jurídico”, explicou.

A cartilha vai ser distribuída, segundo explicou a tatuadora Moa, tanto no formato impresso quanto digital e foi pensada para circular por todo o território nacional. “Contamos com o apoio de algumas empresas e pessoas que vão ajudar a viabilizar a impressão do material, que deve ser distribuído em estúdios no formato impresso e ficará disponível on-line tanto para impressão independente quanto para a leitura digital”, detalhou a artista.

Uma das empresas que apoia a produção é a Find Tattoo, da empresária Luciana Leal. “Espero que outros empreendedores também venham nos ajudar, porque essa causa é muito importante, assédio não pode ter lugar”, convidou.

Quem quiser contribuir de alguma forma com a iniciativa, pode entrar em contato com as tatuadoras através do e-mail apoieminhatatu@gmail.com.

Tatuagem sem estigmas

Uma das intenções apresentadas pelas artistas responsáveis pela cartilha é evitar que o trabalho de todos os profissionais da tatuagem seja julgado a partir das ações dos abusadores denunciados. “Esses abusos que foram denunciados foram enquadrados no crime de abuso sexual mediante fraude justamente porque as vítimas não sabiam como era o procedimento e confiaram no profissional, que utilizou seu trabalho e essa confiança para cometer o crime. Esse tipo de comportamento deturpa a profissão e é importante que as pessoas saibam que isso não reflete em nada o trabalho de um profissional de tatuagem”, afirmou Moa.

De acordo com a artista, o comportamento padrão nos estúdios sérios é muito diferente e tem como uma de suas máximas o respeito ao corpo do outro. “A tatuagem é uma coisa que ressignifica nossa história, que vai acompanhar a gente pela vida inteira, então é muito triste e grave ver isso acontecer no nosso meio”, lamentou.

Entenda

Uma publicação da ativista, professora e ex-candidata ao Senado Federal Duda Salabert foi a responsável por trazer à tona centenas de relatos de assédio em estúdios de tatuagem. No entanto, chamou a atenção de Duda a alta concentração de casos envolvendo o nome do tatuador Leandro Caldeira. “Das cerca de 100 que eu recebi logo de cara, pelo menos 40 eram contra ele”, contou ao Hoje em Dia na ocasião.

Dentre os casos, o relato mais antigo apurado pela reportagem é de 2011 e o sentimento expressado com unanimidade pelas vítimas entrevistadas pelo Hoje em Dia é o medo. "Mesmo eu, que sou feminista, ainda tenho pensamentos condicionados pelo machismo e, nesse caso, eu pensava que podia ser coisa da minha cabeça, que podia estar imaginando coisas, e isso me impediu de falar sobre isso, de denunciar, de contar para outras pessoas", contou uma das mulheres que denunciou o tatuador.

A Polícia Civil abriu um inquérito e apurou pelo menos 19 denúncias contra Leandro. As investigações culminaram na prisão do tatuador no dia 31 de março deste ano. O acusado está preso em Ribeirão das Neves desde o dia 1º de abril em regime fechado e responde pelo crime de violação sexual mediante fraude, crime do qual o tatuador se declarou inocente. À reportagem, o tatuador afirmou antes de ser preso que trabalha há 30 anos no ramo e sempre respeitou as clientes. "Tenho família, tenho uma filha que não para de chorar, um filho que não quer mais ir à escola e estou sofrendo com ameaças e crises de pânico. Eu preciso trabalhar e não consigo”, se defendeu. 

O crime de violação sexual mediante fraude consiste em ato de conjunção carnal ou ato libidinoso mediante o uso de meio que impeça ou dificulte manifestação de vontade da vítima. "Ele se utilizou de manobras enganosas para fazer com que as vítimas acreditassem que aqueles abusos fossem necessários para o procedimento de tatuagem", explicou a delegada Larissa Mascotte. Para este tipo de crime, a pena é de 2 a 6 anos por delito.