Os oito funcionários da Vale presos nesta sexta-feira (15), em operação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), podem ter que responder por homicídio qualificado. Novas provas colhidas durante as investigações, e que foram reunidas para consolidar a decisão pela prisão, apontam "fundadas razões de autoria do crime de homicídio qualificado" no caso da tragédia de Brumadinho que deixou centenas de mortos.

​O documento, assinado pelo juiz Rodrigo Heleno Chaves, da 2ª Vara da Comarca de Brumadinho, ainda mostra que, além de terem conhecimento sobre as condições de instabilidade da barragem, os oito investigados também "assumiram o risco" pela tragédia que se sucedeu e que deixou até agora em 166 mortos e outras 155 pessoas desaparecidas.

Outro agravante, de acordo com o MPMG, é o fato de que, mesmo cientes da situação da estrutura - desde meados de 2018 até "o último minuto", o dia 24 de janeiro - os investigados não tomaram nenhuma providência para manter os trabalhadores e a comunidade a salvo, como acionar o Plano de Ação de Emergência para Barragens (PAEBM). 

"Constato que diante de todas as anomalias verificadas na barragem B1 (Mina Córrego do Feijão), desde meados de 2018, aliadas à alteração drástica nos piezômetros verificada em janeiro de 2019, aparentemente não havia outra alternativa aos funcionários da Vale senão a de acionar o PAEBM, com imediata evacuação da área", define o juiz em sua decisão.

​Ele ainda lembra que é necessário investigar todos os responsáveis pela tragédia, inclusive, aqueles que integram os cargos mais altos na empresa.

'"Em um país que se pretende sério, fatos com tal envergadura e seriedade, com consequências nefastas para a sociedade, merecem total e profunda apuração. Por isso é que neste momento é necessária a tutela da investigação, para que se apurem todos os responsáveis pelo ato, se aqueles que ocupam os cargos mais relevantes da Vale SA tinham conhecimento da situação, enfim, todos os pormenores que poderão esclarecer definitivamente o que ocorreu​"​.

​Ainda conforme o documento, se os presos tivessem optado pelo acionamento do PAEBM, provavelmente, quase todas as vidas seriam poupadas. ​

Procurados pela reportagem na chegada ao Departamento Estadual de Investigação de Crimes contra o Meio Ambliente (DEMA), os detidos e seus advogados não quiseram apresentar sua versão dos fatos. Dos oito presos, somente dois foram ouvidos nesta sexta-feira. Os depoimentos dos demais detidos devem acontecer na próxima segunda-feira.

Por meio de nota, a Vale informou que "permanecerá contribuindo com as investigações para a apuração dos fatos, juntamente com o apoio incondicional às famílias atingidas".

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