Tragédia em São Paulo alerta para risco de ocupações em Belo Horizonte

Malú Damázio e Tatiana Lagôa
horizontes@hojeemdia.com.br
01/05/2018 às 20:10.
Atualizado em 03/11/2021 às 02:37
 (Maurício Vieira)

(Maurício Vieira)

O incêndio e desabamento de uma ocupação em São Paulo, ontem, acendem um alerta para os potenciais riscos em prédios tomados por movimentos de luta por moradia em Belo Horizonte. Hoje, há pelo menos quatro edifícios ocupados no Centro da capital mineira. Ao todo, são mais de 500 famílias nessas edificações.

Nos locais é comum que os ‘apartamentos’ tenham as áreas divididas com madeirite, pedaços de papelão, lona e lençóis. Esses materiais, segundo o Corpo de Bombeiros, podem agravar o perigo em caso de incêndio. 

“Poucos espaços têm iluminação e sinalização de emergência, rotas de fuga, placas fotoluminescentes, extintores de incêndio, corrimão e faixas antiderrapantes nas escadas, além de saídas de emergência desbloqueadas”, alerta o tenente Herman Ameno.

De acordo com o frei Gilvander Luís Moreira, da Pastoral da Terra, muitas ocupações têm ‘gatos’ na rede elétrica, apresentando risco de curto-circuito. “Como não conseguem conversar com o poder público, essas pessoas se colocam em perigo para ter luz e água com as ligações irregulares”.

Uma casa desabou ontem no bairro Mantiqueira, em BH, soterrando ao menos quatro pessoas; a causa do acidente será apurada

Condições

Recentemente, os bombeiros foram acionados para apagar um incêndio na ocupação conhecida como Torres Gêmeas, no bairro Santa Tereza, região Leste da capital. O fogo foi causado por uma chama de fogão. Não houve feridos.

A corporação não tem um mapeamento das condições das áreas ocupadas em BH nem uma ação direcionada para garantir a segurança nesses locais. Segundo o tenente Herman, os militares fazem “orientações pontuais” quando são acionados para ocorrências nesses prédios.

A prefeitura informou que não teria tempo hábil para apresentar um levantamento dos edifícios ou responder as questões enviadas ontem pela reportagem. O governo do Estado não se manifestou até o fechamento desta edição.

Medidas

Líderes da ocupação Carolina Maria de Jesus, instalada em um prédio na avenida Afonso Pena, no Centro, onde até 2006 funcionava a Secretaria de Estado de Saúde, afirmam adotar uma série de medidas de segurança para evitar tragédias. 

Por lá, os cerca de 600 moradores têm energia elétrica, água e um elevador para atender os 15 andares do imóvel ocupado por eles em setembro de 2017. 

Segundo um dos coordenadores do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que organiza a ocupação, Manoel Inácio Vieira, de 23 anos, a energia e a água são fornecidas gratuitamente pelo poder público por meio de um acordo. Ele explica que as famílias se organizam para manter o prédio seguro. 

Manoel garante não ser permitido fumar ou acender fogões nos apartamentos, e as áreas são fiscalizadas.

As refeições são preparadas pelos próprios moradores em uma cozinha comunitária instalada no terceiro andar.

Em cada piso há apenas um chuveiro compartilhado pelas seis famílias que dividem o espaço. O elevador é ligado somente quando é preciso subir com compras, mudanças ou para transportar pessoas com mobilidade reduzida.

A rede hidráulica, que estava danificada, foi consertada por encanadores e pedreiros que passaram a viver no prédio. 

regras rígidas para amenizar as ameaças

Líderes das ocupações de Belo Horizonte garantem ter regras rígidas para reduzir os riscos de acidentes. A utilização de cozinha comunitária é uma delas e buscar evitar o uso de fogões improvisados nesses locais. 

“Tentamos fazer as ocupações de maneira planejada, com assessoria técnica. Claro que existem riscos, mas tentamos cercá-los”, afirma o advogado das Brigadas Populares, um dos grupos que implantam as ocupações, Luiz Fernando Vasconcelos. 

Quando se mudou para a Carolina Maria de Jesus com os dois filhos pequenos e o marido, a dona de casa Mara Moreira, de 36 anos, teve medo de viver em um ‘espaço inseguro’. No entanto, ao chegar lá, afirma ter se surpreendido com a organização. “Existe uma mobilização de esforços muito grande para manter o prédio protegido. Mas, inicialmente, a notícia de um incêndio assusta”, diz.

Eliane Fernandes Murça, de 50, diz que precisou se mudar para a ocupação após mais de dez anos na fila para conseguir financiamento para casa própria. “Esperei muito tempo e pagava aluguel de R$ 720. Só que fiquei desempregada e sem ter onde morar. Daí, precisei vir para cá”. 

Ela, a filha de 32, e o neto de 1 ano nunca pensaram em morar em uma ocupação. “Não estamos aqui porque queremos. Vivemos no prédio porque temos direito a uma moradia digna, como está na Constituição”, afirma.

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