Na véspera de seu depoimento na comissão processante que decidirá sobre sua possível cassação na Câmara Municipal de Belo Horizonte, prevista para acontecer nesta quinta-feira (7), o vereador Wellington Magalhães (DC) concedeu uma entrevista à rádio Itatiaia, na tarde desta quarta-feira (6). Durante a conversa, que também teve a participação de seu advogado, o político falou sobre a acusação de desvio de recursos públicos, de ameaças que teriam sido feitas contra parlamentares e até a chefe da Polícia Civil (PC), citou a família do presidente Jair Bolsonaro e criticou o vazamento de informações do processo, que corre em segredo de Justiça, para a imprensa. 

Logo no início da entrevista, para contestar a necessidade da cassação do seu cliente, o advogado Sérgio Santos Rodrigues citou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizou o senador Acir Gurgacz (PDT-RO), cumprindo pena em regime semi-aberto, a exercer o mandato durante o dia e retornar à prisão à noite."O Wellington é só investigado, ele não tem nenhuma condenação em 1ª ou 2ª instância. Por que uma pessoa que é tão somente investigada não pode ser vereador e que é condenado pode ser senador?", indagou. 

Wellington MagalhãesEle é investigado pelo desvio de R$ 30 milhões da Câmara Municipal e de ter recebido R$ 1,8 milhão em propina

Em seguida, o parlamentar foi questionado sobre como, recebendo um salário de R$ 17 mil, ele conseguiu adquirir um patrimônio (declarado na eleição de 2016) de quase R$ 1 milhão. "Essa é uma pergunta muito boa. Eu vejo aí, a família do Bolsonaro teve só mandato de deputado e tem mansão. Eu comecei a trabalhar com 16 anos, tudo que eu tenho eu declaro no imposto de renda. Carro, sempre tive carros bons, quem me acompanha sabe. Acho que isso aí é uma coisa que falam, mas não provam. Tudo meu é declarado", defendeu-se. 

Os jornalistas da Itatiaia também citaram o fato de uma colaboração premiada em que o político é citado ter sido anexada na segunda-feira (4) no processo de cassação de Magalhães. Em resposta, o advogado disse que os surpreende o fato da imprensa estar sabendo dessa delação, uma vez que ela estaria em segredo de Justiça. "Isso é crime, revelar o que está em segredo. Vou mais longe, a delação premiada não é prova, é meio de obtenção de provas. A pessoa fala, o juiz coloca no processo e aí tem que confirmar. Se falou que deu o dinheiro, deu em qual circunstância? Levou em dinheiro? Isso não tem no processo ainda, essa delação e nada é a mesma coisa", argumentou Rodrigues. 

Este também foi o argumento da defesa do vereador para tentar barrar que a delação fosse anexada ao processo de cassação. Porém, a Procuradoria da Câmara informou que as delações "já são parte de um processo que pode ser acessado publicamente, por qualquer cidadão, no site de acompanhamento e consultas de processos do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG)". “Em princípio, portanto, não há que se falar em ilicitude em sua obtenção, uma vez retirada livremente e sem qualquer restrição diretamente no site eletrônico que administra os processos judiciais”, aponta trecho do parecer da Procuradoria.

Ameaças 

Wellington Magalhães também falou durante a entrevista sobre as denúncias de ameaças dele contra outros parlamentares, a chefe da PC e até um promotor. "Sobre os vereadores eu posso até falar, mas vou deixar meu advogado falar sobre a delegada", disse. Conforme o advogado, a policial civil foi ouvida na comissão e, até mesmo, o ex-governador Fernando Pimentel (PT) teria sido ouvido. "Quem demite é o governador. Se a gente falar que um vereador tem condição de mandar na chefe da polícia ninguém acredita", pontuou o defensor. 

"Nunca ameacei o Gabriel (Azevedo), ele disse que foi um assessor meu, mas essa pessoa não é ligada a mim, nunca foi assessor meu. Tanto que meu advogado pegou as nomeações da Câmara e nunca foi nomeado por mim e nem pela minha irmã. Esse 'assessor' conhece todos os vereadores, ele vai lá, não é assessor meu nem capanga, eu não tenho e não preciso de capanga", falou o parlamentar. 

Por fim, Magalhães falou sobre a votação de sua cassação, que deve ocorrer até o fim do mês. "Podia ser hoje, não faz diferença. Não quero que prorrogue, porque ficam cada dia criando as maldades, infelizmente, com uma imprensa. Eu não temo ser cassado, eu sei da minha consciência, que está tranquila, e sei das manobras que estão fazendo contra mim", concluiu. 

Relembre o caso 

O pedido de cassação do mandato do vereador Wellington Magalhães foi apresentado pelo vereador Matheus Simões (Novo) e pelo advogado Mariel Marra e aprovado em plenário por unanimidade, no mês passado. Essa foi a segunda Comissão Processante instaurada na Casa para julgar a cassação de Wellington Magalhães - na primeira vez, o mandato dele foi salvo pelos colegas parlamentares.

Além da denúncia de desvio de R$ 30 milhões da Câmara Municipal, o Ministério Público divulgou em julho que Magalhães teria recebido propina de R$ 1,8 milhão, além de caixas de vinho e viagens para superfaturar contratos de publicidade do Legislativo. Além disso, áudios vazados pela imprensa flagram Magalhães proferindo ameaças ao vereador Mateus Simões (Novo) e ao promotor Leonardo Barbabela, responsável pelas denúncias contra Magalhães pelo Ministério Público.

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