Sete anos de espera

Pelo menos 44 sobreviventes da Tragédia de Mariana morreram sem conhecer o Novo Bento Rodrigues

Vanda Sampaio
vsampaio@portalhojeemdia.com.br
24/04/2022 às 16:01.
Atualizado em 24/04/2022 às 16:11
 (Fundação Renova / Divulgação)

(Fundação Renova / Divulgação)

"Como explicar que um grupo formado pelas maiores mineradoras do mundo não consegue construir 250 casas em sete anos? É muito tempo para levantar menos de 36 casas por ano. O problema não é dinheiro".

Quem denuncia a lentidão para construção do assentamento de Bento Rodrigues é o motorista Cristiano José Sales, um dos desabrigados pela tragédia de Mariana.

O problema atinge cerca de 250 famílias que vivem em casas alugadas pela Fundação Renova, criada para cuidar da reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão em 5 de novembro de 2015.

A Comissão de Atingidos pelo rompimento da barragem faz um alerta preocupante. Pelo menos 44 pessoas morreram esperando uma solução após o distrito de Bento Rodrigues ter sido varrido do mapa pela lama.

"São pessoas que conseguiram sobreviver à avalanche de lama. Mas diante da lentidão da obra por parte da Renova, morreram sem se mudar para as novas casas prometidas. O sentimento é de impunidade e omissão", denuncia Mauro Marques da Silva, membro da comissão e que também perdeu o imóvel onde morava.

É cada vez mais comum encontrar famílias de Bento Rodrigues que perderam parentes após o rompimento da barragem. O motorista Cristiano é um deles. Ele conta que o tio, Henrique Bretas, de 70 anos, que nasceu em Bento, não conseguiu se acostumar com a vida na nova chácara alugada pela mineradora. Diariamente, o lavrador saía a cavalo levando os animais para uma área perto de onde ficava o distrito.

(Arquivo Pessoal)

(Arquivo Pessoal)

"Mas os animais foram roubados e uma tristeza sem fim tomou conta do meu tio. Menos de um ano depois da tragédia, ele morreu. Era um homem forte e alegre. Morreu de depressão", lamenta o sobrinho.

Sonho

O compromisso de construir um novo assentamento para os moradores ainda é um sonho para quem viu a morte de perto. Sete anos depois da tragédia, não há uma previsão de quando os sobreviventes poderão se mudar definitivamente para o novo Bento que está sendo construído pela Fundação Renova, em Mariana.

Das cerca de 250 casas que já deveriam estar prontas, apenas 47 foram concluídas, segundo o movimento dos atingidos pelo rompimento da barragem. A previsão da fundação é a de que outros 72 imóveis fiquem prontos até dezembro deste ano.

Mas a conclusão do assentamento ainda não tem data prevista. A Renova não quis esclarecer se parte dos moradores poderá ocupar o local em dezembro, mesmo com o canteiro de obras funcionando, ou se a mudança será permitida apenas quando todas as casas estiverem prontas.

"Enquanto isso, as pessoas que tiveram suas vidas destruídas vão morrendo, sem poder ocupar os imóveis, sem que a dívida da mineradora seja paga. É um sofrimento sem fim", afirma Mauro Marques da Silva.

Sempre adiado

O rompimento da barragem varreu do mapa o distrito de Bento Rodrigues, matou 19 pessoas e provocou o maior desastre ambiental do país.

Mauro afirma que, quando os levantamentos começaram, em 2016, a Fundação Renova prometia informalmente que as casas seriam entregues em 2018.

"Depois, a data mudou para março de 2019. Mas o prazo não foi cumprido. Recorremos à Justiça e a juíza Marcela de Oliveira Decat, da Segunda Vara da Comarca de Mariana, determinou que a nova data seria agosto de 2020. Prazo que depois foi adiado para fevereiro de 2021, sob alegação dos problemas da pandemia". 

O integrante do movimento acrescenta que a multa estipulada pela juíza, em caso de descumprimento, foi de R$ 1 milhão. Mas, logo depois, a própria magistrada voltou atrás e suspendeu o pagamento.

"O prazo não foi cumprido e a multa não foi paga e, até hoje, a gente não sabe quando vai poder se mudar", cobra Mauro.

O promotor de Justiça Guilherme Meneghin explica que a Fundação Renova não aceitou fazer acordo de cronologia nem apresentou um prazo para conclusão das obras. Mesmo recorrendo à Justiça, por meio de uma ação civil pública, o prazo fixado de 28 de fevereiro de 2021 não foi cumprido e o pagamento da multa suspenso judicialmente, completa Meneghin.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais informou que a juíza Marcela Oliveira Decat de Moura designou audiência presencial para o dia 26 de abril, às 9h, na sala de audiência da 2ª Vara, para tentativa de autocomposição referente aos processos de desmembramento e fusão dos lotes dos reassentamentos das comunidades de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

Mais perdas

Outra família com relatos de perda de parentes que sobreviveram à tragédia é Valéria de Souza. Nos últimos sete anos, ela conta que perdeu três tios – Juarez de Souza, de 52 anos, Gersina de Souza, 56, e Antônio Fagundes, de 62 anos.

"A pergunta que fica é quem vai pagar por isso, quem vai pagar pelo nosso sofrimento. Pelo sofrimento causado aos moradores que morreram. A vida para meus tios acabou depois que  eles não puderam mais voltar para Bento e sem saber quando poderiam ocupar as casas do novo assentamento. Era uma tristeza sem fim dentro de casa. Acostumados a vida inteira com a rotina na roça. Todos morreram jovens e tristes", conta Valéria.

Depois da morte do tio e sem uma previsão de quando a família vai poder se mudar para o Novo Bento Rodrigues, o motorista Cristiano conta que a sensação é de impotência, frustração, de um vazio sem fim.

Para ele, é como se a vida tivesse sido paralisada pela tragédia. A gente vive em clima de medo e insegurança. "E isso vai matando as pessoas aos poucos. Meu tio foi apenas um deles. Era um homem alegre, forte, saudável e trabalhador", lamenta.

Justificativa da Fundação Renova
A Fundação Renova afirma, por meio de nota, que não conseguiu cumprir o prazo para entrega das casas em 28 de fevereiro de 2021 por problemas jurídicos e pela pandemia.

Outra alegação da fundação é que a construção do assentamento é um processo longo que antecede as obras de edificação, envolve planejamento e aprovação de projetos de lei por parte do poder público.

A expectativa da fundação é a de que apenas parte do assentamento esteja concluída até dezembro de 2022. A empresa não quis informar quantas casas estarão prontas até o final do ano e nem quantos imóveis estarão concluídos no ano que vem.

A Renova também não quis responder se parte dos moradores poderia se mudar para o assentamento antes da conclusão do projeto. Mesmo com o local funcionando como um canteiro de obras, onde poderia haver risco de acidentes para os sobreviventes da tragédia de Mariana.

Tragédia
O rompimento da barragem da Samarco, pertencente às suas controladoras Vale e BHP Billiton, em Mariana, em 5 de novembro de 2015, matou 19 pessoas e é considerado o maior desastre ambiental do país.

Com o colapso da estrutura, 62 milhões de  m³ de rejeitos atingiram vários cursos d'água do Rio Doce e se deslocaram pelo seu leito até chegar ao oceano Atlântico, no município de Linhares, no litoral do Espírito Santo.

Além de destruir Bento Rodrigues, várias localidades rurais foram atingidas, como Paracatu de Baixo, Camargos, Águas Claras, Pedras, Ponte do Gama e Gesteira.

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