depressão e autoextermínio

Pesquisa revela danos à saúde de mulheres que tiveram imagens íntimas divulgadas sem autorização

Raquel Gontijo
raquel.maria@hojeemdia.com.br
28/03/2022 às 18:00.
Atualizado em 28/03/2022 às 18:04
 (Valter Campanato)

(Valter Campanato)

Automutilação, depressão, fobias, tentativas de suicídio, transtorno alimentar, alcoolismo, dificuldades de se relacionar socialmente e problemas de autoestima. Essas são algumas das sequelas relatadas por mulheres que tiveram imagens íntimas divulgadas sem autorização, segundo uma pesquisa realizada pelo Grupo de Violência, Gênero e Saúde da Fiocruz Minas. 

A pesquisa avaliou os danos à saúde das mulheres que sofreram esse tipo de violência e como se dão os cuidados em saúde necessários nessas situações. Os resultados mostram que as consequências impactam nas relações pessoais e profissionais das vítimas. 

Para fazer a avaliação, as pesquisadoras fizeram entrevistaram 29 mulheres. Dezessete delas passaram pela experiência da divulgação não autorizada da intimidade e 12 são profissionais da saúde e assistência social, que atenderam mulheres que passaram por essa experiência.

As idades das mulheres que vivenciaram a situação de violência varia entre 17 e 50 anos. O estudo foi realizado no segundo semestre de 2020, com mulheres de 18 cidades de seis estados brasileiros. 

O levantamento é a tese de doutorado da pesquisadora Laís Barbosa Patrocínio. Às mulheres vítimas da violência foi pedido que narrassem como foram produzidas e divulgadas suas imagens íntimas, o modo como isso as afetou e se buscaram apoio, seja no âmbito das relações pessoais, seja de instituições. 

Para as profissionais da saúde e da assistência social, foi pedido que relatassem os casos atendidos, os cuidados dispensados e os desafios na atenção a essa situação de violência. Aos dois grupos foi perguntado de que modo deveria ocorrer o acolhimento às mulheres que foram expostas.

Resultados

De acordo com a pesquisa, a forma como as mulheres são expostas variam, havendo diferentes possibilidades nos processos de produção, obtenção e divulgação das imagens. Há situações em que a mulher produziu o conteúdo, outras em que a produção ocorreu sem o conhecimento dela. 

As motivações para a exposição também são diversas, podendo envolver afirmação da masculinidade do homem que expõe, controle e condenação da sexualidade das mulheres, vingança, comercialização e extorsão. 

Além disso, há casos em que as imagens não se referem à sexualidade das mulheres, já que algumas foram expostas nos momentos em que estavam exaltadas, por exemplo, sob efeito de álcool ou em briga com parceiro.

“Isso revela uma vigilância não apenas da sexualidade feminina, mas também de outros comportamentos. A exposição é também de momentos de descontrole da pessoa, demonstrando uma necessidade de manter o comportamento feminino sob controle o tempo todo”, avalia a pesquisadora.

Ainda segundo a pesquisa, os danos gerados para a saúde mental das mulheres depois de serem expostas são diversos, incluindo desde um abalo na autoestima até tentativas de tirar a própria vida. A forma como cada pessoa vai ser afetada está diretamente relacionada à sua história de vida e estrutura familiar. Além disso, a exposição da intimidade agrava fragilidades pré-existentes.

“É o caso de distúrbios alimentares e estados depressivos; quem já tinha predisposições desenvolveu. Outra consequência importante é o sentimento de culpa, relatado tanto pelas vítimas como pelos profissionais. É uma culpabilização externa que acaba virando interna e vai minando a autoestima. Isso interfere em todo o processo, porque a mulher deixa de procurar ajuda porque se sente culpada, acha que, de alguma forma, contribuiu para a situação. (…) Além disso, o dano se dá sobretudo nas relações. Muitas das entrevistadas relataram que o que mais machuca não é a vergonha da exposição, mas o fato de não serem apoiadas por familiares e amigos”, diz Laís.

A pesquisa discutiu também as formas de vivência da sexualidade pelas mulheres de forma autônoma e ainda as possibilidades de discussão dessas questões no ambiente escolar.

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