‘Virada de chave’

6 em cada 10 gestores pretendem mudar de emprego ou cargo neste ano

Izamara Arcanjo
Especial para o Hoje em Dia
Publicado em 21/05/2022 às 14:15.
Felipe Martini e a esposa, Tatiana Santolia Martini: da insatisfação para o empreendedorismo de sucesso (MAURICIO VIEIRA)

Felipe Martini e a esposa, Tatiana Santolia Martini: da insatisfação para o empreendedorismo de sucesso (MAURICIO VIEIRA)

Felipe Martini trabalhou 15 anos como assessor de diretoria em empresas como Copasa e Cemig, mas não hesitou em deixar um salário de R$ 20 mil para trás. “Não aguentava mais aquele ambiente de muita vaidade, prazos apertados e sem qualidade de vida”. O movimento de Felipe não é solitário. Pesquisa realizada pela OPTME RH constatou que, de cada 10 gestores, seis pensam em mudar de carreira, de emprego ou de cargo em 2022. 

Nos Estados Unidos, o fenômeno intensificado pela pandemia foi batizado “Grande Renúncia”, após milhões de profissionais qualificados pedirem demissão em busca de nova carreira, melhores condições de trabalho e qualidade de vida.

A onda parece ter chegado com força ao Brasil. Outra sondagem feita no fim do ano passado pela Robert Half, empresa de recrutamento especializado, demonstra que, entre profissionais qualificados com mais de 25 anos, 49% pretendem buscar novas oportunidades neste ano. A Robert Half ouviu 1.161 profissionais, igualmente divididos entre recrutadores, empregados e desempregados.

Os que buscam uma nova carreira ainda apontaram como principais razões o desejo de inovar ou aprender algo novo (19%); a busca de realização pessoal (17%); e a expectativa de uma melhor qualidade de vida (12%).

Na outra ponta dessa busca está um mercado à procura de gente qualificada, segundo aponta a pesquisa da OPTME, sobretudo para setores de serviços, consumo e tecnologia. “Este ano marca uma espécie de renascimento, das pessoas e da sociedade em geral, que se sentiu presa durante tanto tempo. Geralmente, quando temos uma reviravolta desse tamanho no âmbito pessoal tendemos a replicar na carreira e ir em busca da desejada virada de chave”, avalia Marcelo Arone, headhunter e especialista em empresas que passam por processo de transformação e profissionalização.

Mudança positiva
No caso de Felipe Martini a virada foi certeira. Junto com a esposa, Tatiana Guedes Martini, ele mergulhou em um universo até então desconhecido: a área de saúde. Depois de se planejar bem o casal deu início à Sonorità – Aparelhos auditivos. “Tatiana é fonoaudióloga e especialista em audiologia e eu entendo de gestão. Unimos forças para sermos mais felizes no trabalho e na vida”, diz Felipe. 

O hoje empresário diz que hoje vê propósito no que faz. “Salário não é tudo, e me sinto um privilegiado quando um cliente chega na loja, já não ouve bem, às vezes está até em depressão...fazer essa pessoa voltar a ouvir é mágico”, diz.

Bárbara Fialho, consultora de hunting, diz que executivos estão procurando mais qualidade de vida (Arquivo pessoal)

Bárbara Fialho, consultora de hunting, diz que executivos estão procurando mais qualidade de vida (Arquivo pessoal)

 Caça talentos ressalta: para a maioria, felicidade não entra em jogo

Bárbara Fialho é psicóloga e consultora de Hunting. Afirma que os dados mostrados pelas pesquisas podem ser facilmente percebidos em sua prática profissional. Com vasta experiência em gestão de pessoas, a consultora conduz processos de “caça talentos” para posições estratégicas em áreas comerciais e administrativas em postos com remunerações que ultrapassam R$ 30 mil mensais. 

Segundo ela, tem sido comum candidatos recusarem vagas em que tenham que ficar 100% do tempo alocados na empresa, pois eles querem flexibilizar entre o home office e o trabalho presencial. “Em cargos mais executivos, a pandemia elevou isso a outro patamar. As pessoas começaram a ficar mais tempo em casa e perceberam que pode ser bom. As pessoas querem entregar resultados e não a presença física o tempo todo”.

Entrevistei um candidato que me disse que nunca soube o que é almoçar com os filhos durante a semana, mas durante a pandemia, conseguiu. Agora, não quer abrir mão disso”, diz Bárbara.

Além da escolha pelo home office, segundo a especialista, o perfil de candidatos tem começado a demandar uma maior autonomia nas agendas para estudar, ir à academia, ao médico. Mas para isso as empresas precisam estabelecer mais relações de confiança com os empregados. “Há empresas que até hoje premiam quem não leva atestado de trabalho. Os candidatos, não querem saber disso e cada vez mais têm buscado ambientes seguros, diversos, em que podem ser vulneráveis, manifestar sua insatisfação, adoecer, em que as mulheres possam engravidar e isso não ser tabu dentro da empresa”, garante Bárbara.

Mas nem todo mundo pode ter o privilégio de jogar tudo para o alto e trabalhar em troca de felicidade. Para Bárbara Fialho, esta não é a realidade da maioria dos trabalhadores brasileiros. Ao contrário, é privilégio de uma seleta minoria.

“Você só consegue escolher quando não está em situação de vulnerabilidade, quando não é mãe solo ou chefe de família com uma remuneração mediana. Para grande parte do trabalhador brasileiro, a felicidade não entra em jogo na hora de buscar por um emprego”, brinca.

A consultora em marketing Ester Pimenta também já detectou movimento de migração de executivos (Divulgação)

A consultora em marketing Ester Pimenta também já detectou movimento de migração de executivos (Divulgação)

 Ester Pimenta aproveitou o momento favorável, quando ainda era solteira e morava com os pais, para virar a chave da carreira. Ela que tinha sido secretária executiva, trabalhado na área comercial e administrativa em várias empresas, decidiu empreender no setor de marketing. Hoje é dona do próprio negócio, escritório especialista em reposicionar no LinkedIn diretores de empresas e altos executivos.

“Eu tive essa oportunidade aos 28 anos e como estava muito insatisfeita com o aspecto profissional da minha vida, pedi conta e saí sem nada em vista. Foi muito difícil, tive que estudar muito para fazer as mudanças que queria na minha carreira. O que posso dizer é que vale muito a pena”, comemora.

Em seu trabalho cotidiano com executivos e profissionais de nível sênior, Ester diz perceber também um movimento de migração destes gestores para áreas de consultoria e mentorias. 

“Quando o profissional chega no ápice da carreira, ou troca de empresa ou procura usar toda sua experiência e conhecimento para potencializar outras entidades e pessoas. Muitos têm buscado se tornar conselheiros, pois é uma forma de se sentirem valorizados e garantir satisfação pessoal e, ao mesmo tempo, uma remuneração generosa”, avalia.

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