Embora a perda de rotina ou ao menos a falta de regularidade dela tenha impactado todos que se viram obrigados a manter o isolamento em prol da saúde, estabelecer um cronograma de atividades e horários é fundamental para suavizar as mudanças e tornar a “volta ao normal” menos traumática, sobretudo entre adolescentes, ensinam especialistas.

Presidente do Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Mineira de Pediatria, Ana Maria Costa da Silva Lopes explica que cabe aos pais manter o seguinte tripé dentro de casa: tranquilização, manutenção da rotina e estímulo à regulação.

"Manter horários de refeições, de dormir, de realização das atividades escolares, tempo de tela, dentre outros, proporciona sensação de segurança. Cabe também apoiar e estimular a autorregulação, incentivada por exercícios de respiração, meditação ou qualquer atividade que reduza o estresse. Os pais devem se manter tranquilos para transmitir tranquilidade aos adolescentes”, orienta a professora-adjunta do Departamento de Pediatria da UFMG.

Cronograma

Em casa há mais de 4 meses, afastado dos amigos, da escola e de atividades complementares que executava rotineiramente, Pedro Lima Faria Neto, de 16 anos, criou um cronograma com ajuda dos pais. Dentre as atividades programadas estão arrumar o próprio quarto, ler pelo menos dez páginas de um livro por dia e se dedicar às tarefas escolares por pelo menos duas horas, para além das aulas on-line.

“Ajuda muito, pois sinto que não estou parado no tempo, vendo os dias passarem sem fazer as coisas de que gostava e que eram importantes pra mim. Acho que, de certa forma, vai facilitar quando tudo voltar a ser como antes”, comenta o adolescente.

Adolescente em casa

Pais devem tranquilizar e incentivar os filhos a manterem a rotina, arrumando o próprio quarto, por exemplo

Além disso:

Embora os efeitos a curto e médio prazos sejam os mais considerados neste momento, há que se levar em conta os impactos do isolamento social no comportamento futuro dos adolescentes ou mesmo na fase adulta da vida.

Psiquiatra da Infância e Adolescência, Ana Christina Mageste chama a atenção para o possível aumento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e consumo de álcool e drogas, estimulado pela falta do contato, agora, e pelo desejo de aproveitar o tempo perdido, depois.

“Adolescentes fazem o que querem, são transgressores. Imagine quando chegarem perto uns dos outros, a questão dos hormônios, da relação sexual, a gravidez indesejada... Há que se considerar tudo isso, já que, hoje, eles estão vivendo uma sexualidade solitária, algo que tem preocupado muito os pais. Dentre os reflexos tardios também está, com certeza, a fobia social, no caso daqueles que já não gostavam de sair e conversar com os outros”, explica a profissional de Belo Horizonte.

A psiquiatra Jaqueline Bifano também pondera que, com base na personalidade que têm, muitos podem se tornar adultos mais introspectivos. “Podem se acomodar. Antes, havia uma pressão da sociedade que fazia com que saíssem de casa, se relacionassem. Agora, não há mais. Os que já gostam de ficar em casa, ficarão ainda mais”, argumenta.

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